quinta-feira, 27 de novembro de 2008

CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DAS DROGAS

Dra. Débora Christina Ribas D'Ávila
Médica Psiquiátrica

Falar em causas e conseqüências das drogas implica em sair dos limites da Medicina. É preciso pensar em Sociedade, Família, Religião, Profissão, Psicologia, Mídia, Polícia e Política. Não existe uma só causa, ou uma só conseqüência.

DROGA é qualquer substância capaz de modificar o funcionamento fisiológico (normal), mental ou comportamental de um indivíduo. Inclui medicamentos (drogas lícitas) e plantas. As drogas capazes de alterar o funcionamento mental ou psíquico são denominadas drogas psicotrópicas ou simplesmente psicotrópicos. Costumamos usar a palavra droga para falar de substâncias que apresentam potencial de abuso e que podem causar dependência.

A história das drogas acompanha a história da humanidade. Temos relatos muito antigos do uso de chás e álcool em rituais religiosos ou em comemorações. A alteração da consciência é algo que desperta a curiosidade do homem e o leva a experimentar substâncias psicoativas.

A dependência de drogas (lícitas e ilícitas) é conseqüência de uma interação entre os genes, a seqüência temporal dos ambientes externos aos quais estamos sujeitos durante a vida e eventos aleatórios de interações moleculares que ocorrem dentro das células individuais. São essas as interações que devem ser incorporadas em uma explicação adequada acerca da formação da dependência. Uma grande parte das pessoas se envolverá em uso ocasional, porém outra parte se tornará dependente, possivelmente devido a uma memória que a droga cria no cérebro, nos sistemas de gratificação cerebrais. Memória esta que é despertada principalmente em diversas situações emocionais e ambientais. Nessas situações, através de mecanismos desconhecidos, o indivíduo sente necessidade da droga. A incidência de alcoolismo em filhos de pais dependentes de álcool é de três a quatro vezes maior do que entre os filhos de não dependentes. Estudos em gêmeos também tendem a confirmar esta predisposição. Existem vários modelos propostos para explicar este fenômeno, mas nenhum comprovado definitivamente.

O Brasil apresenta taxa crescente de consumo de drogas ilícitas. Tais taxas já estão estáveis na Europa e Estados Unidos. A ONU estima que o número de usuários de drogas aumente em 10% por ano no Brasil. Isso mostra uma falência de nossa política de combate às drogas. O Dr. Ronaldo Laranjeira tem uma teoria para explicar esses dados. Aqui, há dez anos, o Ministério da Saúde adota a política de redução de danos. Se vai usar, que use de uma forma menos lesiva. É preferível usar maconha que crack. Mas não existe droga segura. A própria maconha - considerada tão inocente - aumenta o risco de transtornos mentais graves como a esquizofrenia. Pelo menos 12% dos casos de esquizofrenia na Inglaterra foram desencadeados pelo uso de maconha. Há piora do desempenho escolar, aumenta as chances de transtornos mentais - especialmente a esquizofrenia - e diminui o pique para fazer as coisas (síndrome amotivacional). O uso da maconha também causa ansiedade e depressão. E o Ministério da Saúde não divulga isso.
Quando falamos em prevenção primária devemos ter em mente que a primeira droga a ser experimentada é o álcool, depois o cigarro e em terceiro lugar a maconha. A maconha é a droga ilícita que funciona como porta de entrada para outras drogas. Por isso dei ênfase a essas 3 drogas.

ÁLCOOL:

Álcool é a droga preferida dos brasileiros (68,7% do total), seguido pelo tabaco, maconha, cola, estimulantes, ansiolíticos, cocaína, xaropes e outros.
No País, 90% das internações em hospitais psiquiátricos por dependência de drogas, acontecem devido ao álcool.
Não há ainda certeza científica, mesmo que aproximada, sobre qual fator é o mais determinante na etiologia do alcoolismo. Estudos apontam evidências para as várias condições, mas sem conclusão definitiva.
Fatores genéticos: familiares próximos apresentam um risco quatro vezes maior que indivíduos que não têm familiares alcoolistas; o gêmeo idêntico de um indivíduo com problemas de alcoolismo apresenta maior risco que um gêmeo fraterno; e filhos de alcoolistas que foram adotados têm o risco quatro vezes maior de apresentar alcoolismo, mesmo que separados dos pais após o nascimento. Indivíduos que um dos pais é ou foi alcoolista têm alto risco para o alcoolismo.

A idade do primeiro drinque (13-15 anos), a idade da primeira intoxicação (15-17 anos) e a idade do primeiro problema relacionado ao consumo de álcool (16-22 anos) observados em indivíduos que desenvolveram alcoolismo, não diferem basicamente do esperado da população geral que não tem problema posterior de abuso ou dependência de álcool.

Pelo menos 2,3 milhões de pessoas morrem por ano no mundo todo devido a problemas relacionados ao consumo de álcool, o que totaliza 3,7% da mortalidade mundial, segundo um relatório elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Motoristas alcoolizados são responsáveis por 65% dos acidentes fatais em São Paulo.

O alcoolismo é a terceira doença que mais mata no mundo. Além disso, causa 350 doenças (físicas e psiquiátricas) e torna dependentes da droga um em cada dez usuários de álcool.
É a substância psicoativa mais consumida no mundo.

O álcool é absorvido em sua maior parte no intestino delgado e é metabolizado pelo fígado até seu produto final, o acido acético.
No cérebro o álcool age como um depressor do sistema nervoso central. Em uma concentração de:
0.05%: pensamento, julgamento e autocontenção estão alterados.
0.1%: prejuízo nas ações motoras voluntárias.
0.2%: A área motora do cérebro é deprimida, perdendo-se o controle das atividades, alterações emocionais.
0.3%: confusão e estupor.
0.4%: coma.
Em níveis acima de 0.5% pode ocorrer parada respiratória e morte.

Também ocorre:

Fragmentação e diminuição do sono profundo, quadros psicóticos, depressivos e ansiosos,
“black out” (amnésia lacunar)
fígado: esteatose hepática, hepatite alcóolica e cirrose hepática
esôfago: esofagite
estômago: gastrite, úlcera, má absorção de nutrientes (anemia por deficiência de vitamina B12)
pâncreas: insuficiência pancreática, pancreatite
coração: aumento da pressão arterial, taquicardia e arritimias
disfunção sexual.
Síndrome fetal alcoólica: microcefalia, ma formação crânios-faciais e defeitos nos membros e no coração dos bebês. Na idade escolar, estas crianças podem apresentar comportamentos mal adaptativos e dificuldades no aprendizado.

DELIRIUM TREMENS a síndrome de abstinência pode evoluir para um quadro perigoso caracterizado por alucinações visuais e táteis, alternância entre lentificação e agitação psicomotora, sudorese, aumento da freqüência cardíaca e pressão arterial. Indivíduos que apresentarem estes sintomas devem ser levados imediatamente para um serviço médico de emergência, pois o quadro pode evoluir para coma e até óbito.

Quem disse que tabaco não é droga?

TABACO:

No Brasil, cerca de um quarto da população adulta fuma. A busca de novas emoções, de integração com grupos de pares e de questionamento de padrões e regras aliada à falta de informação adequada sobre o assunto, leva os jovens a iniciar o hábito de fumar. Somente uma pequena minoria de fumantes consegue fumar moderadamente, devido ao alto potencial de dependência causada pela nicotina. 90% dos fumantes que tentam parar de fumar, a cada ano, falham nos seus esforços.

A OMS estima que aproximadamente um terço da população com 15 anos ou mais fume (47% dos homens e 12% das mulheres, com 15 anos ou mais).

A droga que causa dependência no tabaco é a nicotina e os processos farmacológicos e comportamentais que determinam a dependência ao tabaco são similares àqueles que determinam a dependência de outras drogas como a heroína e a cocaína. Inicialmente se busca os efeitos benéficos da nicotina mas o que mantém o indivíduo fumando é o alívio dos sintomas de abstinência.

Efeitos tóxicos:

A fumaça do cigarro contém um número muito grande de substâncias tóxicas ao organismo. Entre as principais, citamos a nicotina, o monóxido de carbono e o alcatrão. O uso intenso e constante de cigarros aumenta a probabilidade de ocorrência de algumas doenças, como pneumonia, câncer (pulmão, laringe, faringe, esôfago, boca, estômago etc.), infarto de miocárdio, bronquite crônica, enfisema pulmonar, derrame cerebral, úlcera digestiva e efeitos como náuseas, dores abdominais, diarréia, vômitos, cefaléia, tontura, braquicardia e fraqueza.

Quando a mãe fuma durante a gravidez, “o feto também fuma”, recebendo as substâncias tóxicas do cigarro através da placenta. A nicotina provoca aumento do batimento cardíaco no feto, redução de peso no recém-nascido, menor estatura, além de alterações neurológicas importantes. O risco de abortamento espontâneo é maior. As substâncias tóxicas do cigarro são transmitidas para o bebê através do leite materno.

Os poluentes do cigarro dispersam-se pelo ambiente, fazendo com que os não fumantes próximos ou distantes dos fumantes inalem também as substâncias tóxicas. Estudos comprovam que filhos de pais fumantes apresentam incidência três vezes maior de infecções respiratórias (bronquite, pneumonia, sinusite) do que filhos de pais não-fumantes.

MACONHA:

Os efeitos do principal constituinte ativo da cannabis (THC) sobre a ansiedade parecem ser dose-dependente: com baixas doses é ansiolítico (reduz ansiedade) e em doses mais altas sendo ansiogênico (aumenta ansiedade). O canabidiol apresenta propriedades ansiolíticas.

Jovens portadores de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) relatam um efeito calmante proporcionado pela maconha, reduzindo sua inquietação interna. Este efeito reforça a hipótese da automedicação dos sintomas de TDAH como um fator de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de drogas.

A cognição se refere a habilidade de pensar. Os processos cognitivos incluem a percepção visual, auditiva e tátil, a atenção sustentada a determinada tarefa, à memória, julgamento, capacidade de resolver problemas e funções executivas (estabelecimento de objetivos, capacidade de planejamento, iniciativa, controle dos impulsos, monitoramento, avaliação de riscos, conseqüências do comportamento e flexibilidade mental). Há alterações no funcionamento cerebral e neuropsicológico dos usuários crônicos de maconha, mais especificamente em atenção, memória, aprendizagem, funções executivas, tomada de decisões, funcionamento intelectual e funções psicomotoras, mesmo após um mês de abstinência.

COCAINA:

Aspirada, fumada ou injetada na veia, a cocaína "entope" os receptores que reabsorvem a dopamina, deixando-a por mais tempo na sinapse e perpetuando a sensação de prazer. Tem efeito euforizante, mas o metabolismo do cérebro cai muito com seu uso, pois diminui a quantidade de oxigênio em zonas importantes. O cérebro do usuário de cocaína é embotado, muito pobre em termos de estímulos. Atualmente, há recursos que permitem avaliar o funcionamento cerebral e deixam claro o enorme contraste existente entre o cérebro normal, rico e vivo que consome bastante glicose, por exemplo, e o do usuário de cocaína, que se mostra alterado substancial e principalmente nas regiões frontais, ou seja, nas regiões do pensamento, do controle dos estímulos e da impulsividade. Isso explica em parte o comportamento impulsivo.
Doses maiores de dopamina provocam sintomas paranóides à semelhança do que ocorre com as anfetaminas (medicações para emagrecer). O usuário se tranca no banheiro, imaginado que a polícia vai invadir o local e prendê-lo.

É quase um quadro semelhante ao da esquizofrenia paranóide. A diminuição do oxigênio especialmente nas regiões frontais provocada pelo uso crônico da cocaína produz alterações que não se recuperam mesmo depois de vários anos de abstinência. Memória, concentração, capacidade de elaborar pensamentos complexos, de ponderar são funções seriamente prejudicadas. O usuário é impulsivo, busca o prazer imediato, não se articula para retardar as conseqüências de seu comportamento, deixando claro os danos que a droga causa no cérebro.


Você quer ver seu filho assim?

O crack é um derivado da cocaína. Seu baixo custo torna-o atraente para o consumo.

No começo dos anos 80 a pasta de coca foi transformada numa forma nova chamada base livre, que permite a volatilização (transformação em vapor) da cocaína, permitindo com que a cocaína pudesse ser fumada. A cocaína inalada em pó é uma apresentação sólida que se dissolve na mucosa nasal antes de ser absorvida – isso significa que o início do efeito demora mais. Os vapores do crack vão para os pulmões e são transportados para a corrente sanguínea mais rapidamente (10 segundos) conferindo maior rapidez de sensação psicotrópica, a sensação contudo é a mesma da cocaína bem como os demais efeitos. O nome crack é derivado do ruído característico que é produzido pelas pedras quando estão sendo queimadas.

Por ser barato alcança classes econômicas antes não atingidas pelo alto custo da cocaína em pó. O crack tem efeito de duração menor que a cocaína inalada, mas como inicia muito mais rápido e mais intensamente que a cocaína há uma espécie de compensação psicológica pelo efeito. Após 12 anos de uso, a mortalidade é de quase 40%, a maioria por causa da violência.

3 comentários:

Anônimo disse...

o conteudo é muito produtivo...adorei e vou passar pros meus alunos essas informações valiosissimas....

Anônimo disse...

gostei muito desses comentários amei essas pesquisas

Anônimo disse...

este conteúdo está muito bom e bem explicado.