terça-feira, 29 de abril de 2008

QUARTA VIA: roda mundo, roda pião

O retorno do rei

Novas barreiras discriminatórias são erguidas pelo mundo. Raça e cor, aparentemente, não contam mais. Isso ainda existe, mas não se fala mais. Em seu lugar entram a religião, a fé e... a cultura!

Flávio Aguiar

“Se ainda está por vir, cá não pode estar”. A frase, ouvi-a diante do túmulo que, diz a tradição, guarda os restos mortais de D. Sebastião, aquele que desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir (dos Três Rios, para os muçulmanos), e deu origem a um dos mitos fundacionais da nossa cultura política e do nosso Estado, o brasileiro.

A frase não partiu de algum beato saído de um livro de Euclides da Cunha ou de um filme de Glauber Rocha. Disse-a uma estudante bem jovem para um outro jovem, também estudante, na igreja do Mosteiro dos Jerônimos, na Lisboa moderna e em pleno século XXI.

Ela transportou-me a um outro mundo, a uma outra data: Brasil, Salvador-Rio de Janeiro, março de 1808. Num lance político algo inusitado, mas de há muito tramado, a família real portuguesa se muda para o Rio de Janeiro, com escala em Salvador e a proteção da armada britânica, encarregada também de proteger a fonte brasileira de algodão para as máquinas da revolução industrial na ilha de Sua Majestade, contra os interesses napoleônicos.

Durante fevereiro, março e o começo de abril, muita tinta rolou no Brasil discutindo (e saudando...) essa transferência realmente única na história das conquistas européias dos mercados mundiais. Um tipo de imprensa de divulgação acadêmica, aliás, muito interessante, empenhou-se a fundo nas considerações do acontecimento.

Houve uma inflexão curiosa, é verdade, nessas considerações, que se davam na comemoração dos 200 anos do acontecimento.

Uma caricatura pode nos ajudar. Quando eu estudei na escola, mais de 50 anos atrás, aprendi que num movimento genial, D. João VI driblou Napoleão e veio para o Brasil, trazendo, além da família e corte, uma série de instituições, como a Biblioteca Régia, matriz da Nacional, a imprensa, fundou um teatro digno do nome, o Banco do Brasil, e abriu os portos brasileiros para o mundo. Tudo isso “ajudou o Brasil”.

Há trinta anos, quando minhas filhas começaram a freqüentar a escola, elas aprenderam que, covardemente, o rei português fugiu para o Brasil, sob a escolta dos navios britânicos (que praticamente o obrigaram a fazer isso). Trouxe para nós uma corte venal e corrupta, que desalojou os habitantes do Rio de Janeiro de suas melhores casas. Abriu os portos para os navios e os interesses britânicos, fundou o Banco do Brasil que quebrou quando ele foi embora levando seus capitais, e assim fundou a inflação, o dinheiro nacional sem fundos.

Agora, neste começo do século XXI, o discurso mudou, recuperando uma tese e uma ascendência antigas. D. João não “trouxe” nada para o Brasil. Sua vinda “fundou” o Brasil, que não existia antes. A colônia portuguesa era um arquipélago; foi D. João VI quem “integrou” o aglomerado numa coisa única, fundando os alicerces da “identidade nacional”.

É sutil, mas não é pouco. Voltamos à tese pré-romântica (em que até o grande José Bonifácio acreditava), que também anda disseminada em comentaristas de política internacional, de que somos uma “nação européia” encravada quase toda ao sul do Equador, é claro que com alguns ademanes, atabaques, acarajés e redes nativas que nos dão a cor local. Mas é só. “Nós”, ao contrário “Deles”, pertencemos ao mundo do “Ocidente”, esse outro conceito encravado nas conquistas dos espaços territoriais ou de mercado ao longo da história. Quem são esses “outros Eles”? Ah, o mundo da “indiada” que nos cerca nessa “América Lationa” das qual, “infelizmente”, somos “vizinhos”.

Essa sutil reviravolta segue tendência mundial. Os preconceitos hoje não seguem mais, pelo menos da boca para fora, as balizas da cor ou da raça. Isso ainda existe, mas não se fala mais. Eles seguem as barreiras da religião, por exemplo, e da cultura. Outro dia, em prestigiosa reunião de prestigiosa instituição alemã, (é verdade que sem a concordância dos representantes da própria instituição), prestigioso escritor europeu se pôs a fazer considerações sobre ter visto no metrô um africano, e como isso despertou-lhe o pensamento de que “ele”, o africano, estava deslocado numa paisagem que lhe era completamente estranha, enquanto “ele”, o escritor europeu, pertencia de corpo e alma àquela paisagem, àquela cultura, a européia. Felizmente houve muita gente perplexa e escandalizada na sala.

Isso nos leva à interessante consideração de que não são só os beatos e o povo da tradição euclidiana ou do nosso cinema que são “messiânicos” ou “sebastianistas”. Nossa elite, ou élite, como gosto de sublinhar, também o é, sempre à espera de um rei europeu, ou de um príncipe... encantado ou desencatado, pouco importa, que a livre do pesadelo de abrir a janela e (parodiando livremente o Retrato do Brasil, de Sérgio Buarque), não ver o Sena, nem o Hudson, mas um rio qualquer de nome indigena, mesmo que majestoso.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14959&alterarHomeAtual=1

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NOVA CORRIDA IMPERIALISTA

Provavelmente, Deus não é africano


Na “era dos impérios”, no final do século XIX, as potências européias conquistaram e submeteram - em poucos anos - todo o continente africano, com exceção da Etiópia. Agora, neste início do século XXI, tudo indica que a África será – pela terceira vez - o espaço privilegiado da competição imperialista que está recém começando. A menos que exista um outro Deus, que seja africano. A análise é de José Luís Fiori.
José Luís Fiori


A África ocupou mais da metade do tempo, da última reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, na terceira semana do mês de abril de 2008. Na pauta: o impasse nas eleições presidenciais do Zimbabwe e as crises políticas da Republica Democrática do Congo e da Kenya, além dos conflitos armados, na Somália, e em Darfur, no Sudão. Trazendo de volta a imagem de um continente aparentemente inviável, com “estados falidos”, “guerras civis” e “genocídios tribais”, com apenas 1% do PIB mundial, 2% das transações comerciais globais e menos de 2% do investimento direto estrangeiro dos últimos anos. Mas a África não é tão simples nem homogênea, com seus quase 800 milhões de habitantes e seus 53 estados nacionais, que foram criados pelas potências coloniais européias, e foram mantidos juntos, graças à Guerra Fria, que chegou à África Setentrional, com a crise do Canal de Suez, em 1956; à África Central, com a guerra do Congo, dos anos 60; e finalmente, à África Austral, com a independência de Angola e Moçambique, e a sua guerra com a África do Sul, nos anos 80.

A independência africana, depois da II Guerra Mundial, despertou grandes expectativas com relação aos seus novos governos de “libertação nacional” e seus projetos de desenvolvimento, que foram muito bem sucedidos – em alguns casos - durante os primeiros tempos de vida independente. Este desempenho inicial, entretanto, foi atropelado por sucessivos golpes e regimes militares, e pela crise econômica mundial, da década de 1970, que atingiu todas as economias periféricas, e provocou um prolongado declínio da economia africana, até o início do século XXI. Mesmo na década de 90, depois do fim do mundo socialista e da Guerra Fria, e no auge da globalização financeira, o continente africano ficou praticamente à margem dos novos fluxos de comércio e de investimento globais.

Depois de 2001, entretanto, a economia africana ressurgiu, acompanhando o novo ciclo de expansão da economia mundial. O crescimento médio, que era de 2,4% em 1990, passou para 4,5, %, entre 2000 e 2005, e alcançou as taxas de 5,3% e 5,5%, em 2007 e 2008. E, no caso de alguns países produtores de petróleo e outros minérios estratégicos, estas cifras alcançaram níveis ainda mais expressivos, como em Angola, Sudão e Mauritânia. Esta mudança da economia africana - como no resto do mundo -se deveu ao impacto do crescimento vertiginoso da China e da Índia, que consumiam 14 % das exportações africanas, no ano 2000 e hoje consomem 27%, igual que a Europa e os Estados Unidos, que são velhos parceiros comerciais do continente africano.

Na direção inversa, as exportações asiáticas para a África vêm crescendo à uma taxa média de 18% ao ano, junto com os investimentos diretos chineses e indianos, sobretudo em energia, minérios e infra-estrutura. Neste momento, existem cerca de 800 empresas, e 80.000 trabalhadores chineses na África, com uma estratégia conjunta de “desembarque econômico” no continente, como acontece também, em menor escala, com o governo e os capitais privados indianos. Neste sentido, não cabe mais duvida, devido ao volume e a velocidade dos acontecimentos: a África é o hoje, o grande espaço de “acumulação primitiva” asiática, e uma das principais fronteiras de expansão econômica e política, da China e da Índia. Mas ao mesmo tempo, não há o menor sinal de que os Estados Unidos e a União Européia estejam dispostos a abandonar suas posições estratégicas, conquistadas e controladas dentro deste mesmo território econômico africano.

Depois da frustrada “intervenção humanitária” dos Estados Unidos, na Somália, em 1993, o presidente Bill Clinton visitou o continente, e definiu uma estratégia de “baixo teor” para a África: democracia e crescimento econômico, através da globalização dos seus mercados nacionais. Mas depois de 2001, os Estados Unidos mudaram radicalmente sua política africana, em nome do combate ao terrorismo, e da proteção dos seus interesses energéticos, sobretudo na região do “Chifre da África” e do Golfo da Guinéa, que até 2015, deverá fornecer 25% das importações norte-americanas de petróleo.

Faz pouco tempo, os Estados Unidos criaram um novo comando estratégico regional no nordeste africano, e neste momento, estão instalando as bases de apoio de sua mais recente iniciativa militar, no continente: a criação do África Coomand - AFRICOM, que segundo o jornal inglês Financial Times, “ marca o inicio de uma nova era de engajamento, sem precedente, da Marinha Norte-Americana na costa oeste da África.” (15/04/2008). Este aumento da presença militar americana, entretanto, não é um fenômeno isolado, porque a União Européia, e a Grã Bretanha, em particular, têm dedicado uma atenção cada vez maior à África. E a Rússia, acaba de assinar um acordo econômico e militar com a Líbia, e logo em seguida, assinará um outro, com a Nigéria, envolvendo venda de armas e dois projetos bilionários de suprimento de gás para Europa, através da Itália, e do deserto do Saara.

Num jogo de xadrez que se complicou ainda mais, nos últimos dias, com a descoberta de um carregamento de armas chinesas enviadas para o governo de Robert Mugabe, no Zimbabwe, através da África do Sul, e com o apoio do governo sul-africano de Thabo Mbeki, segundo denuncia do líder da oposição, no Zimbabwe, Morgan Tsvangirai.

Este quadro fica ainda mais complicado, quando se percebe que tudo isto está acontecendo no momento em que o sistema mundial ingressa numa nova “corrida imperialista”, entre as suas “grandes potências”. Como aconteceu com o primeiro colonialismo europeu que começou com a conquista da cidade de Ceuta, no norte da África, em 1415, estendendo-se em seguida, pela costa africana, e transformando a sua população negra na principal commodity da economia mundial, no início da globalização capitalista. Depois, de novo, na “era dos impérios”, no final do século XIX, as potências européias conquistaram e submeteram - em poucos anos - todo o continente africano, com exceção da Etiópia. E agora, neste início do século XXI, tudo indica que a África será – pela terceira vez - o espaço privilegiado da competição imperialista que está recém começando. A menos que exista um outro Deus, que seja africano.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14966&editoria_id=6

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A América Latina e a 4a Frota americana
Por André Araújo


No espaço latino americano um fato a registrar é a reconstituição da 4ª Frota da Marinha dos EUA, com base na Florida e área de atuação predominante no Atlântico Sul. Essa força tenha sido desincorporada em 1950 e o seu relançamento deve-se a quatro fatores:
1. A formação de um eixo anti-americano na América do Sul a partir do projeto bolivariano de Hugo Chavez, incluindo hoje o Equador, a Bolívia, o Paraguai e de certo modo a Argentina.
2. A crescente importância do continente (especialmente do Brasil) no fornecimento mundial de alimentos, minérios e combustível.
3. A incapacidade diplomática, política e militar do Brasil, maior pais do continente, em servir de contrapeso a regimes populistas que estão se fortalecendo na região.
4. A obsolescência, sucateamento e enfraquecimento da estrutura militar brasileira, hoje em quinto lugar na relação das forças armadas sul-americanas, em termos de equipamento,outrora uma parceira confiável dos EUA, hoje incapaz de qualquer ação militar de contenção e arbitramento no continente.
Essa grande unidade da Marinha dos EUA foi reconstituída com 11 navios, liderados por um porta aviões nuclear e deve ser oficialmente comissionada em 1º de setembro próximo, com o comandante já definido, contra-almirante Joseph Kernan.
Os EUA sempre viram o Brasil como o líder natural da América do Sul mas hoje se preocupam com a fraqueza do establishment militar brasileiro, que vem sendo desmontado desde 1990.
Por Fabio Passos
Como negar que é o interesse dos EUA manter o "apartheid tecnológico"? E por que negar que os EUA fazem pressão e o Brasil obedece?
"Os sonhos de mísseis de Hugo Piva foram rudemente interrompitos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que cortou as verbas para o desenvolvimento de mísseis... De fato, o Brasil foi forçado a fazer uma escolha. O grande foguete lançador que está desenvolvendo, o VLS, não será capaz de competir com lançadores de satélites estadunidenses, russos, chineses ou europeus, a menos que seja aperfeiçoado. Mas ele não poderá ser aperfeiçoado sem importações. E o Brasil não pode obter material importado sem desistir do seu programa de mísseis... Então, a decisão de Cardoso de desistir dos mísseis brasileiros foi uma vitória para o controle de exportações."

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Agricultura familiar + agro negócio


Desdobramento da grande revolução demográfica mundial, a crise de alimentos/energia vai trazer algumas mudanças relevantes.
Primeiro, nas relações norte-sul.
Não será possível resolver a crise de alimentos sem um amplo estímulo à agricultura tropical e uma redução nos subsídios dos países avançados.
Depois, nas relações agronegócios-agricultura familiar.
Nos países emergentes-avançados – como o Brasil – não será possível resolver a crise dos alimentos sem um estímulo forte à agricultura familiar.
É um paradoxo interessantíssimo. O agro negócio critica a falta de eficiência da agricultura familiar; os defensores da agricultura familiar criticam o caráter concentrador do agro negócio.
Só que um depende do outro. O agro negócio gera divisas, empregos, riqueza. Mas expõe os preços internos aos preços internacionais, provoca êxodo no campo (substituído por emprego de melhor qualidade, mas em menor número e pegando um público distinto daquele da agricultura familiar).
A agricultura familiar está próxima aos centros urbanos, não está exposta às intempéries dos movimentos internacionais de commodities. Segura o homem no campo e garante renda ou de sobrevivência ou para o consumo. Além disso, pode ser uma excelente alavanca para grandes empreendimentos, quando organizada em torno de cadeias produtivas – como a do frango e do leite.
Essa será a grande síntese final da agricultura brasileira: o agro negócio convivendo com a agricultura familiar.

Fonte: http://www.projetobr.com.br/web/blog/

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O 'abril verde' do outro lado do MST


O projeto de biodiesel de José Rainha quebra a linha política e ideológica do “abril vermelho” da outra facção do movimento
José de Souza Martins*


A facção do MST liderada por José Rainha no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, não participou do “abril vermelho”, mas fez, nesta semana, o seu surpreendente “abril verde”. Sob imensa lona de circo, em Mirante do Paranapanema, no assentamento São Bento, Rainha anunciou aos 3 mil assentados presentes, quase metade do total na região, um plano de adesão às oportunidades econômicas que estão sendo abertas pela era do biocombustível.

Os assentados fornecerão a matéria-prima para produção de biodiesel na própria região do Pontal. Nos três primeiros anos, os de implantação do projeto, cada família receberá do governo um salário mínimo mensal por meio da cooperativa de assentados. O governo também bancará, com R$ 50 milhões, a implantação das lavouras de pinhão-doce para extração de óleo. A opção pelo pinhão-doce foi feita com base em estudos da Unicamp que o indicam como a planta apropriada para a região. Cada família cultivará 2,5 hectares de terra, para se chegar a 60 mil hectares em dez anos. Um escalonamento prudente do uso da terra, de modo que a família de agricultores possa se dedicar a cultivos adicionais e complementares na terra de sua parcela.

Rainha anunciou parceria com o agronegócio e empresas estrangeiras, uma portuguesa e uma espanhola, representadas na ocasião, que se interessaram por participar da construção da fábrica. Ele afirmou que os trabalhadores querem para a Federação das Associações dos Assentados e Agricultores Familiares do Oeste Paulista o controle de 60% da indústria. Deixou claro que os assentados querem vender o óleo, e não simplesmente o produto agrícola. Querem uma agricultura que agregue valor ao seu produto.

O projeto já tem o apoio do presidente Luiz Inácio, dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário, do Trabalho e do Meio Ambiente, da Caixa Econômica Federal, da Petrobrás e do Banco do Brasil. Todos representados no ato, além da CUT. Houve fila para assinar o documento de adesão ao projeto do biodiesel. Rainha considera indispensável o apoio do governador José Serra. O projeto não é apoiado pelo MST. Em tudo, o “abril verde” quebra a linha ideológica e política do MST do “abril vermelho”. É evidente que, para chegar ao estágio do anúncio público do projeto, com a presença de representantes de todos os organismos e setores envolvidos, com claro apoio financeiro, técnico e político do governo e do próprio presidente da República, trata-se de plano que vem sendo elaborado há muito.

Esse é o MST do governo que, com as manifestações sindicais festivas poupadoras de Lula, no primeiro de maio, e o cabresto das doações sociais compensatórias, expressa a dinâmica do amplo círculo de um poder trabalhista e popular que imuniza o presidente e o PT contra os efeitos políticos das contradições sociais. Está em andamento uma clara neutralização dos focos de tensão social que, a seu modo, representam um dos fermentos da democracia na disputa aberta e livre pelos canais de sua expressão política e partidária. Nessa neutralização a própria política é neutralizada, no esvaziamento dos partidos, que aliás, no geral, se abstiveram, pois nunca entenderam, ou pouco entenderam, o que é a luta pela terra no Brasil e a grave crise das relações de trabalho no campo.

Não obstante, o “abril verde” do MST do Pontal representa o que parece ser, enfim, uma saída que dá consistência e legitimidade à reforma agrária, que foi bloqueada pelas dificuldades doutrinárias e limitações de perspectiva histórica do MST. Sobretudo as limitações políticas da problemática opção pela tradição pré-política de uma linhagem de contestadores que vem dos “quebradores de máquinas”. Os que, na Inglaterra do século 18, e em diferentes lugares onde se deu a crise da sociedade tradicional, levaram a formas primitivas de ação, das respectivas vítimas, no processo de afirmação de seus interesses e direitos. Abre-se publicamente um embate entre o MST de resultados e o MST ideológico, que é, no fundo, expressão de uma metamorfose política criativa e interessante.

O anúncio do Pontal foi, também, uma resposta praticamente oficial ao “abril vermelho”, com clara cisão na liderança do MST. Cisão, aliás, que vem de longe. José Rainha tem um perfil diferente das demais lideranças da organização política, da qual parece conservar apenas nome e bandeiras. Perfil diferente porque é a única liderança importante do movimento que esteve na cadeia e é assentado. É também o único cuja esposa, trabalhadora rural, participa ativamente das ações políticas da organização e também ela já esteve presa. Isso dá à facção uma legitimidade e um perfil que as demais lideranças não têm.

Os fatos desses dias parecem confirmar que, onde prevalece a prática sobre a doutrina, o projeto social dos assentados vai na direção do aproveitamento das brechas que se abrem no sistema econômico globalizado para afirmar a racionalidade, a economicidade e a legitimidade da agricultura familiar e da reforma agrária. No fundo, essa ala do MST está propondo e concretizando o agronegócio familiar. A previsão é de que, quando o projeto estiver em funcionamento, cada família terá o rendimento de R$ 1,2 mil provenientes da comercialização internacional do óleo, sem contar os rendimentos adicionais da parcela agro-reformada.

Já onde prevalece a doutrina sobre a prática, a tendência é a luta permanente por doações e subsídios do governo, com pouca possibilidade de dar aos assentados dessa facção a oportunidade de mostrar os resultados econômicos de sua concepção de reforma agrária. Não que não os haja. Mas a falta de visibilidade dessa economia que pouco tem de alternativa acaba arrastando os assentados para as demonstrações dos sem-terra, que eles já não são. No equívoco desse misticismo sugerem à opinião pública sua própria derrota e que a agricultura agro-reformista é antieconômica. Para o contribuinte que paga a pesada conta da política social, é difícil explicar que essa luta é justa.


*José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP

(artigo publicado em 16.05.2007)

Fonte: http://br.groups.yahoo.com/group/grupoagroecologia/message/161

segunda-feira, 28 de abril de 2008

TERÇA POESIA E PROSA

Amor é fogo que arde sem se ver
...de Luís Vaz de Camões
°°°
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
°°°
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
°°°
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
°°°
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?



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CARTA


Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

domingo, 27 de abril de 2008

SEGUNDA BEM HUMORADA

Menina sempre ganha


MUY TRANQUILOOOOOOOO


Entra um senhor desesperado na farmácia e grita:
- Rápido, me dê algo para a diarréia! Urgente!
O dono da farmácia, que era novo no negócio, fica muito nervoso e lhe dá o remédio errado: um remédio para nervos.
O senhor, com muita pressa, pega o remédio e vai embora.
Horas depois, chega novamente o senhor que estava com diarréia, e o farmacêutico lhe diz:
- Mil desculpas senhor. Creio que por engano lhe dei um medicamento para os nervos, ao invés de algum remédio para diarréia.
- Como o senhor está se sentindo?
O senhor responde:
- Todo borrado... mas tô tranqüilo.


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A tia gostosa, de súbito, entra no banheiro e surpreende o Joãozinho se masturbando:- Joãozinho!!! - Exclama a tia.
- Oi, tia! Cê num morre tão cedo…

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Casamento: o grande sonho feminino...


Três mulheres, uma noiva, uma casada e uma amante, decidiram fazer uma brincadeira: seduzir seus homens usando uma capa, corpete de couro, máscaranos olhos, botas de cano alto, pra depois dividir a experiência entreelas.No dia seguinte, disse a noiva:
- Quando meu namorado me viu usando o corpete de couro, botas com 12cm de salto e máscara sobre os olhos, me olhou intensamente e disse:
- ' Você é a mulher da minha vida, eu te amo'.
E fizemos amor apaixonadamente.
A amante contou a sua versão:
- Encontrei meu amante no escritório, com o equipamento completo! Quando abri a capa, ele não disse nada, me agarrou e fizemos amor a noite toda, na mesa, no chão, de pé, na janela, até no hall do elevador!
E aí a casada contou sua história:
- Mandei as crianças para a casa da minha mãe, dei folga pra empregada, fiz depilação completa, as unhas, escova, passei creme no corpo inteiro, perfume em lugares estratégicos, e caprichei: capa preta, corpete de couro, botas com salto de 15 cm, máscara sobre os olhos e um batom vermelho que nunca tinha usado. Pra incrementar, comprei uma calcinha de licra preta comum lacinho de cetim no ponto G!. Ainda apaguei todas as luzes da casa e deixei só velas iluminando tudo. Meu marido chegou, me olhou de cima abaixo e disse:
- Fala aí, Batman, o que temos para o jantar?

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sábado, 26 de abril de 2008

Domingo também é história

José Américo de Almeida
Pior é morrer de fome em Canaã
de José Américo de Almeida
31/07/1937

Escritor e intelectual paraibano, José Américo de Almeida foi um dos principais chefes civis da Revolução de 30, sendo nomeado ministro da poderosa pasta da Viação e Obras Públicas. Em 1937, é indicado candidato a presidente da República, com o apoio do Nordeste, de Minas e de boa parte do Rio Grande do Sul, concorrendo contra Armando de Sales Oliveira, lançado por São Paulo. O então presidente, Getúlio Vargas, embora vetasse o nome do líder paulista, jamais apoiou efetivamente José Américo, que, aos poucos, foi radicalizando sua campanha, com um discurso cada vez mais populista, o que lhe valeu uma penetração crescente entre os eleitores mais humildes. É nessa época que ele cunha a frase que ficou célebre: “Pior do que morrer de sede no deserto, é morrer de fome em Canaã”. Assustadas, as elites começam a retirar o apoio a José Américo, que, em 31 de julho de 1937, pronuncia na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro, então capital da República, seu discurso mais famoso. Ainda tenta se equilibrar na corda bamba. “O nosso homem de governo, mesmo com o coração batendo do lado esquerdo, será sempre um homem de centro”, diz no comício. Mas já era tarde. Vargas e a cúpula das Forças Armadas haviam passado à conspiração e, pouco antes da data marcada para as eleições, dão um golpe de Estado, suspendem o pleito e impõem a ditadura do Estado Novo.



Abaixo, trechos do discurso na Esplanada do Castelo.


Nunca na minha vida corri atrás da popularidade, como meio de subir, sabendo que não subiria sem a vontade do povo, porque essa escalada seria um passo em falso. Jamais cortejei as multidões, dizendo-lhes o que não sentia, prometendo-lhes o que não podia, dando-lhes o que não devia dar. E não me passaria pela mente vencer sem a consagração plebiscitária dos movimentos de opinião.
Já conquistei a convenção solene dos partidos. Só me faltava esta, ao ar livre, sem luxo, sem fogos de artifício, sem artifício nenhum. O povo que não vai às festas e vem aqui de roupa de trabalho não quer outro cenário. Fica satisfeito, debaixo do céu, revendo os quadros eternos e sempre novos da terra miraculosa e a cidade inquieta que sobe e desce, nos seus contrastes humanos. Tudo natural, tudo de graça, tudo dado por Deus para os que não podem ter fantasmagorias suntuosas.
Outro dia fugiu-nos o sol que teria sido a única pompa de nossa parada vespertina. E caiu a chuva que sempre foi minha esperança de domador das secas. O que mais desejei, o que mais pedi, o que mais criei foi a água milagrosa para a salvação da terra esquecida do céu. Ela será sempre bem-vinda, ainda que venha contra mim. E, naquela tarde de mau tempo, matou a sede dos jardins e das hortas e a sede mais sensível dos bairros ressequidos que a esperam de torneiras escassas como esguichos de felicidade.
Uma porção de gente ainda foi, debaixo do aguaceiro, ensopada e delirante, ouvir-me a palavra que faltara. E a umidade da noite áspera aqueceu-se, naquele instante, de um calor de almas sinceras, que me entrou de casa adentro.
O sol que falhou não é a luz vulgar de cada dia, que, ainda agora, esplende na magia crepuscular. É o que nos espera, na hora própria, como um símbolo fulgurante. Desgraçados dos que se servem das próprias leis da natureza para picuinhas facciosas. Sempre harmônicas, elas se vingam dessas profanações com uma harmonia mais perfeita, como a promessa de um sol novo.
No meio do povo, sinto-me, agora, à vontade, sem forçar a natureza, sem fingimentos dramáticos.Ninguém dirá que me inclino de cima para baixo, com o gesto constrangido de quem quer subir, descendo, para subir ainda mais. Foi esse o meu nível, ombro a ombro, entre gente pobre, com o homem da rua, na onda humana em que vivemos muitas vidas, esquecendo a nossa, para podermos sentir a humanidade.
Como Ministro de Estado, minha mais elevada função de governo, não deixei esse convívio. Sentei-me nos bancos duros de bondes plebeus; andei a pé, aos encontrões, de mistura com todas as camadas; entrei nos jardins abertos rodeados de guris que não tinham em casa onde brincar; assisti à luta dos trabalhadores e chorei as lágrimas dos mártires, no martírio da seca. Não sou um estranho no seio das massas. Nunca as olhei de cima, cheio de importância. Os amigos chamavam-me a atenção para que eu não me expusesse a essa vulgaridade. E eu respondia que era para não perder o hábito, para não estranhar, quando deixasse as posições.
Queixam-se os adversários de que trato muito de minha pessoa. Não tenho medo de falar de mim, nem que falem de mim. Faço o balanço da vida e é dela que farei o balanço da ação pública. Falo porque posso.
Censuravam-me por causa do que convencionavam chamar o decoro do cargo. Para mim, o decoro do cargo era coisa muito diferente. Eu queria colher os mistérios nos abismos d'alma coletiva. E ficava sabedor de tudo. Descobria um mundo que sofria e amava o sofrimento.
Começa que só se conhece a vida conhecendo todas as vidas. Descobri o Brasil de baixo para cima. Não tenho medo de subir, nem medo de descer. De cima, saberei o que se passa embaixo; de baixo, aprenderei a viver em cima.

Fome de idéias novas

Os antagonistas mais sôfregos cobram-me, a cada passo, as idéias de governo, com fome de idéias novas. De cada comício meu esperam esse nutrido cabedal, como se eu fosse capaz de fazer de um simples discurso uma maciça plataforma. A plataforma ideal não sairia feita dos livros alheios, e sim do espírito que formei. Seria a tessitura de um pensamento político: cada palavra, uma convicção; cada princípio, uma profissão de fé; cada promessa, um ponto de honra. Comporia a essência do estudo que se diluiu na meditação e se impregnou dos tons mais reais da vida. Não exprimiria o detalhe inútil; delinearia um sistema cheio, como diria Baldwin, da faculty of seeing and tracing consequence. Procurando saber o que vai acontecer para saber o que se deve fazer.
Se eu dissesse que praticaria isso ou aquilo, dessa ou daquela forma, não passaria de um leviano. O governo é ação conjunta. As idéias gerais e a especialização; o plano e a execução; a arquitetura e a mão-de-obra.
Formarei a estrutura que, para manter contato com tudo que for humano e objetivo, para se arejar de realidades novas, ficará mais projetada no futuro, do que escrita no papel. Não se dirige um veículo com idéias preconcebidas, quanto mais um povo.
Uma plataforma não pode ser uma enumeração; é um golpe de vista.
Não serão palavreados vãos, fórmulas aleatórias, gosmados nevoentos, sem substância de alma, sem a força da sinceridade que nos corre nas veias. Não acenderá uma vela a Deus e outra ao diabo.
Sei que não basta dispor de boa vontade; difícil é saber o que é bem servir, com o discernimento, a vocação, o tato do interesse geral. As plataformas são vulgares ou precárias. Não há brasileiro que não sinta o de que é que o Brasil precisa. Não compreende, mas sente. Os problemas gerais entram pelos olhos. Por exemplo: valorizar o homem e a terra, dando ao homem vigor, preparo e recursos para tornar a terra mais atraente e produtiva; tirar do Brasil tudo o que ele pode dar para a sua independência econômica - ferro, petróleo, carvão-de-pedra, energia elétrica, trigo, mesmo fazendo sacrifício para mostrar que não dá, por ser menos penosa uma desilusão do que a pecha vergonhosa de não saber utilizar suas próprias riquezas; abrir estradas, um lugar-comum sempre novo, como abrir escolas; fragmentar a propriedade, proteger o trabalho, especializar a mão-de-obra, incentivar a policultura, para elevar o nível de vida do homem brasileiro; desenvolver a técnica da propaganda, dentro e fora do País, para que se consuma e venda mais; montar as indústrias da guerra e, principalmente, a construção naval e aérea, para nos defendermos, como é natural, de dentro para fora; armar o Brasil para que as classes armadas possam ter, materialmente, esse nome etc.
Não faltará a política dos planos, contanto que se cristalizem as soluções adequadas.
O que importa, muito mais do que a proliferação das iniciativas fáceis, são as qualidades morais da ação. É o caráter que constrói: a coragem das resoluções; o entusiasmo fecundo; o método; a tenacidade; a resistência aos interesses contrários e, acima de tudo, espírito público.
Por uma recomposição geral, a máquina administrativa funcionará, no seu conjunto, peça por peça, com um só ritmo, sem emperros, sem desconexão e, sobretudo, sem as descontinuidades que a esterilizam. E não se dará o mal das soluções parciais, sem supervisão, cuidando de parte, antes de conhecer o todo.
Se patriotas retardados continuam a aprazar-me para a enunciação do meu programa, direi, desde logo, que tenho um. É o maior e o menor de todos: "Prometo manter e cumprir com lealdade a Constituição Federal, promovendo o bem geral do Brasil, observar as leis, sustentar-lhe a união, a integridade e a independência". Não passa do compromisso constitucional. Não só prometo, como juro. Na verdade, se a Constituição não for letra morta, o Governo também não o será. E o Brasil se salvará do pessimismo inato que o julga um país perdido. Eu nunca cometi essa heresia. Perdidos são os brasileiros que procuram perdê-lo.
Antes de me empossar, antes de eleito, presto, perante o povo, que é um juiz terrível, o juramento sagrado de promover o bem geral, não de boca, como uma formalidade vã, mas de alma e coração.
A Constituição de 16 de julho prescreve, sem embargo de sua falta de unidade, os fundamentos de uma nova construção da democracia brasileira: um nacionalismo que não repudia, nem se despoja; a fiscalização financeira apta a moralizar as despesas, que é moralizar tudo mais; um regime de responsabilidade, de alto a baixo, como instrumento de reabilitação da vida pública; os direitos políticos e os direitos e garantias individuais, sem a hipocrisia liberal das ditaduras de fato.
Começarei por dar o exemplo da independência dos poderes; nem me intrometerei nos outros, nem cederei o meu. E a coordenação dos órgãos da soberania nacional se exercerá com um pensamento mais puro e fecundo da boa administração, das boas leis, da boa justiça. Assim, sem enfraquecer os outros, tornar-me-ei, por minha vez, mais forte. Faremos essa experiência que não será a primeira, nem a última, mas será a minha.
Com uma direção efetiva, em vez da atividade fragmentária e desigual, o Governo não se diluirá na irresponsabilidade estéril. Basta fixar o sistema administrativo e os preceitos do seu funcionamento. Será essa a melhor inovação, a réplica liberal às organizações absorventes. Basta formar a alma democrática e racionalizar a democracia; criar o espírito público e racionalizar a administração.
Hei de dar o bom exemplo. O melhor exemplo é o que vem do alto, como meio de educar pela imitação, em toda escala, do Presidente da República ao Ministro, do Ministro ao chefe de serviço, do chefe de serviço ao oficial, do oficial ao contínuo. E o Brasil poderá realizar o destino das grandes nações organizadas com as reservas morais e materiais que raras possuem.As franquias do regime não servirão de obstáculo a essa transformação normal; serão ouro sobre azul. Se for preciso, o poder público se constituirá em árbitro do interesse geral, regulando, nesse interesse, a própria liberdade. O Estado deixará de ser apenas uma máquina jurídica para ser também uma máquina econômica.
Veremos quais sejam os problemas do dia e correremos aos mais urgentes, com um programa do seu tempo.

Precedentes de ação
Meus próprios inimigos poderiam escusar-se dessa exposição formalística. Minha plataforma é um passado que exprime um futuro e autoriza a confiança no que farei, por conta própria, pelo que fiz, tendo feito o que pude e não tudo o que quis. Será a reafirmação de um lastro de atividades úteis, da amostra de gosto do trabalho que já dei, de um título que documentos concretos me conferem.
Rui Barbosa dizia que seu programa era a sua vida e eu poderei dizer, sem me gabar, que meu programa é a minha obra. Ainda colheis os frutos dessa semeadura. Fui membro de um governo, cujo chefe outorgava aos seus Ministros toda a faculdade de ação. A visão de conjunto era, naturalmente, dele; mas, a par dessa coordenação geral, ressaltava a iniciativa dos auxiliares, com métodos próprios. Com esse sentimento público, nunca desaprovou os mais arrojados cometimentos de um temperamento de reforma.
Extraio de um dos meus discursos na Assembléia Nacional Constituinte uma passagem que documenta essa disposição de sacrifício:"Depois de estabelecido o princípio do monopólio das comunicações em geral, deparou-se-me um obstáculo que parecia invencível. Fechadas as primeiras estações radiotelegráficas, restava uma empresa poderosa que atribuíra à revolução triunfante o mais inestimável concurso: a Telefônica Rio-Grandense. O Chefe do Governo ponderou o valor desses serviços, advertindo-me de que sem sua atuação não se teria, talvez, alcançado a vitória no Sul. Era preciso, porém, que seu Estado desse o exemplo de renúncia. A Telefônica resistia. Um dia fui avisado de que sua agência, na Avenida Rio Branco, continuava funcionando. Dei ordens terminantes ao diretor-geral dos Telégrafos para fechá-la, e ele informou que o diretor da companhia respondera não depender sua situação do Ministério da Viação, mas do Catete. Telefonei, então, ao secretário do Governo: 'Hoje, ou se fecha o Ministério da Viação ou a Telefônica Rio-Grandense'.
O Sr. Getúlio Vargas mandou chamar-me e me disse que eu estava fazendo uma tempestade num copo de água. Autorizou-me a expedir ordens decisivas para que se encerrasse esse incidente."Poderei, desse modo, indicar, como minhas, as realizações em favor do povo carioca, que exprimem esse cunho inicial.
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A casa do pobre


Sem alardes sentimentais, exercitei esse espírito de proteção, em favor do povo carioca, do que nunca fiz praça, mas faço agora propaganda. A alegria das favelas é uma alegria que faz pena. Até os sambas, tão humanos e espontâneos, parecem, em dias difíceis, passos de almas penadas, fazendo penitência.
A gente avista, de longe, a poesia dos morros, uma paisagem irreal, debruçada sobre a paisagem chata da cidade: cachos de casas, escada de casas, casas escorregando uma por cima das outras. E panos velhos nos varais, rasgados pelo vento, têm o ar de bandeirolas festivas. Mas, de dentro, é um primitivismo miserável. Faz de conta que é casa.
Asfixia-se, embaixo, a população dos cortiços, ainda mais desgraçada: dezenas de famílias misérrimas, pegando vícios, pegando doenças, pegando tudo; brigas de guris amontoados, e as mães tomando as dores pelos filhos. É verdade. Não há um minuto de paz.
Como Ministro da Viação, eu não tinha nada a ver com isso. Mas quantas cogitações me sugeriam esses quadros dolorosos! O que me interessava era apresentar os saldos na exploração dos serviços do Estado. Não prejudicar meu programa de correção de deficits. Havia, entretanto, os deveres da revolução, um pensamento mais alto de solidariedade da raça.
Pensei que poderia contribuir com a minha cota de boa vontade para minorar as aperturas dessa superpopulação comprimida. E, desde 1931, promovi a redução das passagens das linhas de subúrbio e de pequeno percurso da Central do Brasil, visando a facilitar o escoamento de uma parte dos moradores pelos bairros mais desafogados. Depois, a diretoria da Estrada reclamava que essa concessão se tornava responsável pela depressão da renda. E eu não cedia: haveria outros meios de compensar o deficit.
Demos habitação ao pobre. Não casa de cachorro. Seja pequenina, seja um figurino, mas seja de gente. Não só a construção proletária, como a moradia do funcionário, do comerciário, do bancário, do marítimo, do ferroviário, desses que não têm onde morar ou morrem de fome para pagar o aluguel. E eles se lembrarão que também são deste mundo.
Cada casa será, mais do que o ambiente íntimo, o ambiente social de resistência da família feliz ao espírito subversivo do seu próprio chefe. E o dinheiro? É sempre a pergunta mole, desanimada, a pergunta que fica no ar. É fácil. É facílimo. Eu sei onde está o dinheiro. Em vez de um arranha-céu, serão duzentas casas.
A redução do preço das passagens foi o primeiro benefício que promovi, em vosso favor, na solução do problema de habitação, que não me competia, mas me parecia, mais do que uma crise, um verdadeiro crime. Agora, poderei enfrentá-lo, porque me competirá.

Sombras na grande luz

Quando assumi a pasta, a Light tinha outro nome: era o "polvo". Assim se chamava na boca dos pequenos consumidores.
Levei um ano a fio, apelando para seus diretores: vamos reconciliar a Light com o povo. Vamos baratear os preços de gás e luz para que se chame mesmo a Light, e não o "polvo". E faziam ouvidos de mercador. Faziam pouco de mim, porque eu tinha maneiras tímidas e não ameaçava.Viam-se casas no escuro. Donas de casas não tiravam o olho do interruptor, acendendo e apagando, apagando e acendendo. E dormia-se cedo por economia. Os lares humildes eram manchas na grande luz.
Resolvi ouvir os técnicos, e muitos se escusavam, alegando que os governos passavam e a Light ficava.
O meu dever era tornar essas utilidades mais acessíveis. Parecia uma aventura. Mas que é que eu podia perder? Só o lugar que não me faria falta; estava acostumando a viver sem posição.
Conseguira a redução do preço do gás, em favor dos pequenos consumidores, em número de 25.007, que passaram a pagar $144, em vez de $200 por metro cúbico. Impusera a hora de economia de luz no verão. E não consegui mais nada, apesar dos rogos.
Um dia, sem ninguém esperar, antes mesmo de preparar o expediente oficial, publiquei na imprensa o decreto destinado a remover essa resistência, para que a pressão também se exercesse de fora. E o Sr. Getúlio Vargas não me faltou com a mão forte.
Sofri a campanha mais brutal. Não consentindo que a censura de imprensa se exercesse em meu favor, fui arrastado pela rua das amarguras, sem me queixar, antes satisfeito, porque me desobrigara de um compromisso de consciência.
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Hoje o consumo aumentou. As casas mais pobres se aclaram, e a Light já não tem razões de queixa contra mim, porque, noutro caso, lhe fiz justiça e farei tantas vezes merecê-la, embora os recibos tragam ainda o carimbo do decreto que é minha constante propaganda eleitoral.
O melhor é que o povo carioca já fez a economia de mais de trezentos mil contos que a Light teria recebido a mais pelas tarifas antigas. Quando a cidade se ilumina, com o Cristo Redentor faiscando, no alto, envolto dos raios de luz que lhe presenteei, sinto uma grande claridade na consciência.
Uma tragédia crônica
No meu tempo, houve raros desastres na Central. Se é fraca a memória dos homens, as estatísticas registram uma justiça irrevogável. Mesmo que não houvesse desastre, o tráfego suburbano era um cenário de tragédia, com um mundo de pingentes dependurados em trens podres. Reproduzia-se esse quadro emocional, sem se contar mais o tempo. Eram hecatombes triviais, com os montões de corpos espatifados e muitas risadas nos teatros populares, onde a Central não chegava atrasada.
Eu não podia fechar os olhos a essa desolação. Minha sentimentalidade não me dá vontade de chorar, mas procura remédio para os males alheios.
Não resisti aos apelos de ordem técnica, econômica e, sobretudo, humanitária que esse problema formulava. E a tragédia passou também a ser minha. Ninguém acreditava que, num tempo encalacrado, de falta de confiança, de retração de crédito, se pudesse realizar uma obra que já se frustrara em tantas tentativas promissoras. Metiam a bulha nessa minha pretensão julgada destituída de qualquer senso prático.Primeiro, foi a crise dos estudos. O maior técnico em eletrificação abandonou a estrada para não incorrer na responsabilidade de um empreendimento precário. Chocaram-se rivalidades, com incidentes incômodos, embora houvesse, no começo, uma mocidade comunicativa a acender o entusiasmo da iniciativa.
Não desanimei. Realizou-se, em tempo, a concorrência. E qual não foi a surpresa dos mais cépticos com o interesse manifestado por empresas das mais idôneas, de conceito mundial?Seguiu-se outra fase que me pôs à prova toda a força de vontade. E, por minha conta, aprovei a proposta considerada mais vantajosa pela comissão julgadora que compus, para ficar a coberto de qualquer maledicência, de representantes das principais instituições de engenharia e escolas superiores do País.
Consumiu-se mais um ano sem andamento do processo, numa espera angustiosa, com o meu nome empenhado pelo ato da aprovação, em despacho fundamentado, da proposta preferida.Até que, uma vez, falei ao Ministro da Fazenda, que já se achava de malas preparadas para a Embaixada de Washington: você vai desfrutar o conforto de uma civilização modelar; quando chegar por lá a notícia dos desastres da Central, sentirá doer-lhe a consciência.
Desde esse momento, abriu-se-lhe o grande coração, passando a regular todas as providências que faltavam, na parte financeira, para a lavratura do contrato vencendo mesmo, com a têmpera mais decidida, algumas relutâncias do Banco do Brasil.
O Chefe do Governo deu-me o seu decisivo apoio.
Não fraquejei. Deixei o contrato da eletrificação em ordem, e a Metropolitan Wickers executou-o, mediante a fiscalização do Ministério da Viação, que teve de atender também às obras complementares.
Os trens elétricos estão correndo. Essa iniciativa ninguém me tira, porque me custou dispêndios de sacrifícios que me marcaram a alma. É um quadro de soluções objetivas: o aparelhamento de estradas em petição de miséria; a eletrificação do parque ferroviário; a solução dos transportes urbanos.
Prolongarei as linhas elétricas da Central e farei o possível para que a Leopoldina aperfeiçoe os seus serviços, embora com ônus para o Governo. E o metropolismo não tardará. Assim, o tráfego deixará de ser um jogo de paciência e um devorador de vidas para ser um belo desafogo.Pelo que fiz poderei avaliar o que farei nesse terreno.
O horror do pântano

Encarei os efeitos desastrosos do sol e da água. Voei, primeiro, para acudir à aflição do Nordeste. Caí e fiz da Santa Casa de Misericórdia da Bahia meu ministério trabalhoso, sem ter deixado, um momento, de cuidar, com alma de irmão, dos infortúnios da seca.
Mal refeito, voei, de novo, para ir atravessar o ambiente de fome e peste, com o mesmo interesse humano.
Nos sertões, era a seca e aqui, à beira da cidade, era o horror da baixada fluminense, com a população invisível que a infestava.
Meu sentido humanitário não podia recusar essa assistência a um povo atolado na podridão. A seca ia e vinha, mas o pântano não havia sol que secasse. Não era terra nem água. Era a lama paludosa, o chão empapado, enterrando viva a gente mais sofredora do Brasil.
Dava febre. A terra toda anuviava-se de mosquitamas mortíferas. Pegavam outras doenças, o amarelão mudava a cor da vida.
Rescindi o contrato velho de dez anos que não ia nem vinha; promovi a indenização para abrir o caminho; mandei proceder ao estudo de conjunto e encontrei o homem para realizar a obra.
Já se opera a transformação. Retraem-se as enchentes espraiadas; descobrem-se latifúndios de valor que viviam debaixo de água; goza-se saúde e a área perdida cobre-se de vida nova.
É uma indicação da política de aproveitamento que nos convém, com um resultado tão notável como o da campanha romana.
São os problemas da terra, na sua feição mais sábia de correção da natureza, fechando os boqueirões e entupindo os pauis. Aplicarei essa iniciativa, em maior escala, valorizando-a com a colonização permanente, como padrão de outros empreendimentos nos territórios abandonados.
Falo-vos na Baixada Fluminense, que será vosso maior celeiro. Quando ela, além do benefício que o seu saneamento representa, completar a paisagem de pomares saborosos e de culturas pródigas, não haverá tanta fome nas favelas cariocas.
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O candidato pobre

Não me seduz a designação vulgar de "candidato pobre". Pobreza não recomenda; recomenda é ter tido facilidades de ser rico e ser mais pobre. O que eu sou, com a mais comovida satisfação, é candidato dos pobres.
Confesso que, de fato, não são os governadores contra mim, menos dois que estão com o meu competidor - isso mesmo porque desobriguei um deles, na undécima hora, senão seria um só. São os representantes do poder constituído que vêem na minha candidatura uma solução normal assegurada pela legitimidade democrática das maiorias.
Declaro, por igual, que conto ainda com os partidos que apóiam os governadores, exceto dois que deram preferência ao meu antagonista, um dos quais chefiado pelo próprio Governador com ele solidário. Sou, apesar de considerado pelos contrários como candidato oficial, o escolhido de todas as oposições, do Centro, do Norte, do Sul, salvo as de Mato Grosso, Minas, Bahia e Amazonas, sendo de admirar que em alguns Estados foi aceita a minha candidatura por duas e até mais dessas agremiações independentes. E o mais curioso é que me prestigiam as próprias oposições de São Paulo e Rio Grande do Sul, onde meu competidor só dispõe dos elementos oficiais, sendo que no meu Estado a oposição me acompanha, na sua totalidade.
Os partidos, situacionistas ou não, compõem-se da mesma variedade do eleitorado de todas as condições, de todas as cores, de ambos os sexos.
O que eu sou, conseqüentemente, é candidato do povo brasileiro, dos ricos e dos pobres, sobretudo dos últimos, dos que não esperam ser ricos, mas esperam ser felizes. Candidato da grande maioria dos brasileiros, que vivem na pobreza, que é humildade, e não demagogia. Não porque me faltem bens de fortuna, senão porque nunca deixei de nutrir o sentimento coletivo, como evidenciei, no tempo de ministro, procurando desafogar as condições de vida das classes desamparadas, barateando os preços de gás e luz, reduzindo as taxas postais e telegráficas, as tarifas ferroviárias, os fretes marítimos, todos os serviços industriais a meu cargo. E tendo um gabinete de portas abertas; indo socorrer em pessoa os sem-trabalho da seca, com risco de vida; amparando o direito dos mais fracos e nunca deixando de fazer o bem para fazer o mal.
Eis por que - não me canso de repetir - sou candidato do povo, inclusive dos que votarão em mim levantando as mãos aos céus por não saberem ler nem escrever.
Não embairei sua boa-fé. Pior do que explorar o dinheiro dos ricos é explorar a boa fé dos pobres.
Se pensam que é com dinheiro que se ganha, estão enganados. Ganha-se é com o povo. Nas eleições, o povo que nada tem é que dá tudo.

Os problemas humanos
Consciências inquietas profetizam, em vozes tremendas, adventos ruidosos. Atiçam a miséria impotente, as explosões da coragem coletiva, com risco dos choques desiguais. Não percamos a esperança. Poderemos, sem maldições, sem desforras sangrentas, na paz do Senhor, atingir o ideal democrático da inteligência, da cultura, das virtudes públicas, do bom governo que é a melhor propaganda contra as subversões.
Não serão auroras messiânicas. Basta que o Estado moderno cumpra a sua missão, em vez de exercer, apenas, a tutela da ordem pública.
Eduquemos a pobreza, a fim de que ela compreenda o seu papel nessa nova civilização brasileira de valores espirituais, morais e econômicos.
O á-bê-cê não adianta. Pratiquemos a democracia do ensino técnico-profissional ao alcance de todos, como o meio mais prático de começarmos a organizar o Brasil que só precisa de organização. E incorporemos os intelectuais que precisam trabalhar como ornamento político e um atributo mais útil da mentalidade oficial. A inteligência será a guardiã da democracia.
E não deixemos a ralé passar necessidade. Olhemos as multidões desfeitas como o mais doloroso contraste de nossa pujança natural. Dirão que isso acontece em toda parte, desde que o mundo é mundo; mas, é um crime maior acontecer no Brasil.
A melhor forma de abafar os gritos de revolta é encher a boca dos famintos. Ninguém grita de boca cheia. Os pobres comem pouco. O passadio insuficiente tira-lhes o resto da vida. As subpopulações do interior ainda passam, porque Deus encheu o Brasil de pomares nativos, de vitaminas baratas. E os ricos comem mal, envenenando-se com os erros de alimentação de uma cozinha bárbara. Ainda não se vulgarizou, no Brasil, a ciência da nutrição, que preocupa povos mais atrasados, com sua organização experimental.
Já que não podemos elevar, de uma hora para outra, esse padrão de vida, pela impossibilidade do ajustamento imediato num país de salários chineses e de economia incipiente, de tão mesquinha capacidade de aquisição, procuremos, pelo menos, reduzir-lhe o custo. Tenho um precedente que me dá esperança de acudir a esse problema. Na seca mais tremenda, com as lavouras desfeitas, sem um caroço de milho ou de feijão, evitei a carestia de vida no campo e nas cidades do Nordeste. Maior fora a penúria em tempos normais. Primeiro abarrotei esses lugares de gêneros alimentícios, com o caráter de campanha, servindo-me de todos os recursos ao meu alcance. Em seguida, para não prejudicar o comércio local, permiti a concorrência, reduzindo os fretes e impondo, em compensação, uma pauta razoável. E não houve alta.
Os retirantes tomaram ainda o café condenado à queima com o açúcar da quota de sacrifício, que eu ia conseguindo, a muito custo, para que a calamidade lhes amargasse menos.
Essas coisas são fáceis para quem quer vencê-las, de verdade, sem medo de ser vencido.
Por que morrem tantos meninos? Pela ordem natural das coisas, o primeiro gesto do homem de governo deveria ser curvar-se sobre os berços da pobreza, para evitar que as crianças cresçam doentes. Podemos aparelhar nosso futuro até com gerações de analfabetos; nunca com gerações de enfermos.
São poucas todas as maternidades e todas as creches. O que mais falta, porém, é a escola que ensina a ler e a viver.
Por que já rareiam os velhos no povo baixo? Há, talvez, muitos hospitais, mas é pouca a educação sanitária para evitar as doenças.
Demos os meios à mulher para que ela construa, além do lar, a sua própria vida, a fim de que, quando deixar de ser o ornamento decorativo da graça, da beleza e das virtudes da raça, não se transforme na parte mais infeliz da sociedade.
Aperfeiçoamos o corpo e a alma, pela oficialização da cultura física e proteção dos desportos, pela alegria de viver. Com todo o seu potencial de riqueza, o Brasil não pode continuar com as camadas inferiores sofrendo miséria e doença, desnutridas e achacadas.
Prometem nutrir, vestir, curar. Mas o dia de amanhã é nosso pior dia: não chega nunca.
A mais instante tarefa de governo é a solução dos problemas humanos.

O centro que oscila


Não tenham medo, meus amigos: ninguém tirará a fortuna alheia. Meu desejo é que todos os brasileiros fiquem ricos; assim o Governo se tornará menos pesado. O que faz receio é deixar a miséria fermentar. A idéia nova só é perigosa quando é falsa.
O nosso homem de governo, mesmo com o coração batendo do lado esquerdo, será sempre o homem do centro. É a posição de equilíbrio que regula as contradições do nosso tempo. Poderá oscilar, sem tocar os extremos que se confundem e se chocam, voltando-se para o clamor das necessidades, sua função mais imperativa.
A justiça e a caridade são leis divinas e humanas. São as missões sobrenaturais que aproximam o homem de Deus. A inteligência pode ser sectária, mas o coração é sempre idealista.Vemos com satisfação que já muito se fez. A revolução cumpriu até agora seus compromissos de solidariedade nacional, procurando equilibrar uma sociedade desajustada.Serei o continuador dessa empresa humanitária, aperfeiçoando a política trabalhista, com um ritmo mais brasileiro, para que os interesses se organizem, sem choques dissolventes. Para que, em vez de planar tão alto, seja mais objetiva na concessão do benefício imediato. Para que seja igual e se preserve das injunções intrusas.
O Ministério do Trabalho terá de ser, simplesmente, o Ministério do Trabalho, para preencher toda sua finalidade, sem atividades estranhas ao seu campo de ação. A indústria e o comércio ajustar-se-ão a outros setores que se tocam numa perturbadora complexidade. O trabalho é tudo; trabalhador não é somente o proletário. Será o ministério das profissões, da representação das classes, do controle das leis trabalhistas, da justiça do trabalho e da organização da previdência. Será, notadamente, o ministério dos que não têm profissão para que passem a tê-la.
Não há braços e há vadios. Uma legião de desocupados que não encontram emprego, porque não temos trabalho organizado, nem quem os encaminhe para a profissão mais adequada.
Será o ministério que, antes de conhecer a vida do trabalhador, procure conhecer as condições do trabalho, para só exigir o que se pode dar e suprir o que falta. O contrário seriam dois pobres, em vez de um, pedindo a mesma esmola.
Será o ministério da estabilidade de uma civilização sentimental das três raças que se fundiram no sangue e na alma.
Será, acima de tudo, o ministério dos pobres, dos inválidos, dos órfãos, dos velhos, de todos os que sofrem e precisam, por uma organização mais assídua, da assistência e da previdência sociais.
Procurarei assegurar, além da vida mais fácil, uma justiça igual e mais liberdade individual. Para os pobres quase tudo é proibido.
E imporei a ordem. Não com a disciplina dos infernos, coberta de sangue do comunismo sombrio como um rolo compressor e do integralismo estrangeiro que ainda agora tenta implantar-se, com ameaças de punição aos indiferentes e de massacres coletivos, como se a consciência livre, mais bravia do que a força bruta, tivesse medo de caretas. Transfundiu-se-me com a idade, o amor à luta em energia moral que é uma coragem maior. Rio-me dessas ameaças, apontando a mais terrível: a desgraça que seria para um povo de tanta doçura de sentimentos a vitória dessa sede de sangue, pior que a sede de ouro.
Para alcançar o ideal de felicidade coletiva basta tornar o Brasil mais produtivo. Criar a prosperidade que não se tira da boca dos pobres, mas do trabalho racional.
Falo assim porque tenho sido um criador de riquezas: as barragens feitas; a recuperação da baixada fluminense; milhares de quilômetros de estrada de rodagem; ferrovias melhoradas; portos e aeródromos. Foi esse o meu primeiro impulso; poderei ser um instrumento de maiores realizações.
Deixarei vir todo o ouro do mundo sem procurar saber donde vem, mas somente se é honesto ou suspeito.Não tenho dinheiro de contado para as dissipações eleitorais, mas darei muito mais. Posso fazer a promessa de dias melhores, do benefício permanente que, sem ser de ninguém, será de todos.
Não prometo negócios da China, panamás, coisas do outro mundo. Minhas soluções são primárias. Quero começar, sem complicar as coisas, de baixo para cima, como se constrói.
Fui eu que inscrevi no preâmbulo da Constituição a legenda do bem-estar social e econômico. Tomei esse compromisso sem saber que ele cairia sobre os meus ombros.Só desejo uma felicidade para o meu governo: a de tornar o povo mais feliz. Demos a cada um seu quinhão de felicidade que o Brasil chega para todos.
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Os últimos grandes comícios que eu assisti foram do MDB, aqui em Recife.
Sem discutir o mérito das propostas, com a qualidade de candidatos que temos hoje, Brasil afora, é mais fácil mesmo contratar uma boa banda de forró ou de brega para animar o showmício.
Com o tempo perdido nos conchavos, sem propostas e sem ter mesmo o que dizer, os últimos comícios que fui no interior foram um desalento. Faltou palavra e conteúdo. Deu pena.
É melhor mesmo mandar a banda tocar!!!


Álbum da semana

Vamos a la playa?
Ana Carolina e Ana Valentina
-do orkut de Víctor-



Joselba e maridão


Lorena e Gorete


Tutu e Ridelza
- enviado por Vânia Maria -


Víctor Nery


Célia, Blan, Zé, Edilane e Gonçalo
- aniversário de Blan -
Parabéns

Gildaci
aniversariante
Parabéns

Hélio Marinheiro, Socorro e Hérica


Norma Suely


Rosângela e Carlão


Turma animada na calçada da igreja
- do orkut de Ana Rita -

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sábado em queda livre


ALAGOINHA, ENCHENTE, COCADA E EDUCAÇÃO.
Rubens Dário

Gosto muito do Big Dog, a quem chamo carinhosamente de “El Big” e reconheço sua batalha ao lado de Cléia, sua esposa, no conquistar da vida. Os dois são guerreiros natos. Mas não posso furtar-me o direito de questionar sua tese contrária aos estudos ou talvez contra o senhor Breno Castro Alves, correspondente da UOL, pois como sabemos jornalistas escrevem o que querem.

Big Dog afirmou textualmente, conforme está escrito, no texto da UOL: “Esse povo vai se matar de estudar química, física, pra quê?" A impressão que fica é que não há necessidade de se estudar para trabalhar e conseqüentemente ganhar dinheiro. Eu diria, meu caro Big, que a falta de estudos de muitos em Alagoinha está fazendo com que você não tenha progredido mais ainda como empresário.

Como? É simples: a maioria dos moradores do município não estudou a fundo a Geografia e dentro dela a Hidrografia além de não ter quase nenhuma noção de Ecologia. Assim, grandes áreas de terras foram desmatadas, margens e cursos naturais de água, como o Riacho Pendência, foram invadidos sem o menor pudor. Escrevendo aqui no Blog Zé Ribeiro foi preciso e incisivo quando relatou construções residenciais e industriais ilegais ao longo do Riacho. Tudo isso, ou seja, a falta de estudo ou conhecimento lhe deu prejuízo, entende El Big?

A grande maioria dos agropecuaristas de Alagoinha não estudou o suficiente e não sabe nem de longe o que significa Agricultura sustentável com manejo racional de pastagem. Essa falta de conhecimento encarece o preço do leite que você usa, aproximadamente 800 litros, não é mesmo? Já pensou se fosse mais barato R$ 0,20 por litro? Economia: R$ 160,00/mês, isso inclusive ajudaria na recuperação dos 5 mil reais que teve de prejuízo na enchente. Ah, Big, esses cálculos é Matemática pura, pouco estudada também. Continua compreendendo o que a falta de educação pode ocasionar, amigo Big?

Outra questão ligada à importância do estudo está relacionada à Engenharia. Em Alagoinha é muito raro uma construção ter o aval do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA). Possivelmente, Big, você poderia até ter construído dentro do Pendência se cálculos de engenharia tivessem sido feitos, e certamente, a água não teria chegado às suas cocadas. Consegue vislumbrar mais uma vez a importância do estudo?

O cientista italiano Galileu Galilei admitiu que o papel da força é o de alterar o estado do movimento ou de produzir aquilo que, em nossos dias, chamaríamos de aceleração. Assim Big, a força da água que invadiu sua fábrica é ação da ciência Física, aquela que você disse que ia endoidar os estudantes. Mas eu quero derrubar essa sua tese.

Que eu saiba tem um laboratório de Física no Centro de Ensino Tecnológico (CVT) de Alagoinha todo empoeirado. Portanto, não se estuda Física tanto assim a ponto de deixar maluco. Outra questão relevante: a Pedagoga Josefa Edneide coordenadora da área pedagógica da Escola Estadual Dom Francisco de Assis Pires me confidenciou esses dias que o laboratório de Física e Química da escola praticamente não é utilizado. Minha cunhada Amayanne Campos, hoje acadêmica de Economia (URCA) e Matemática (CEFET) disse-me que na sua época de estudante no Dom Francisco soube que os reagentes químicos do Laboratório perderam o prazo de validade. Em verdade Big, estuda-se pouco, muito pouco em Alagoinha. Não se preocupe, nesse ritmo ninguém endoidará por estudar demais física, química, matemática, ou qualquer outra ciência.

Aproveito aqui par reforçar o que lhe disse e prometi outro dia. Sempre acreditei que seria um sucesso a venda do Romeu e Julieta (goiabada com queijo) já pronto e que falei isso a um amigo Químico. Ele disse-me que estudaria uma fórmula para unir as duas coisas. Se ele conseguir eu a darei a você de presente. Talvez isso leve tempo, porque é preciso estudar a Química. Ah, a receita que você aprendeu da cocada é fruto da Química. Hum, então você andou estudando a ciência, hein!?

Acredito que já provei a importância do estudo. Queria dizer também que já provei da sua cocada, ela é de excelente qualidade. Continue trabalhando e dizendo ACORDA ALAGOINHA, e assim você ajudará a transformar nossa terra num lugar mais doce.


Canhoto da Paraiba


Canhoto da Paraíba, o gênio do violão brasileiro, acaba de falecer. Agora virão as flores, em sua morte. No samba-choro, em há um texto que fiz para ele em vida. Mas Nossa Senhora não me ouviu.


Oração para Canhoto da Paraíba


(Fecho os olhos, para melhor falar, abro-os e ergo-os para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isto mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.)


Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mostrai que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.
Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba.


Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo, um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos. Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada. (É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?)


Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes. Com este assim:


O guitarrista Pedro Soler, aquele mesmo guitarrista flamenco a quem Miguel Angel Astúrias declarou, “os teus dedos, Soler, são os cinco sentidos da guitarra”, este Pedro um dia esteve no Recife, em 1975. E disse, “Canhoto da Paraíba é um dos três grandes guitarristas do mundo”. E por ser lembrado desta referência, ao ser encontrado na Guararapes, Canhoto assim respondeu, com o mesmo sorriso de menino bom, que agora insiste na paralisia em que se encontra, com o peito bom de menino que recebe pedras e se alarga, para abraçar as pedras como abraça facas e elogios:


- Num foi? Eu disse a ele, “Tu é doido, Soler?”


E como eu lhe repetisse o elogio de vexame, e para não ficar com a cara gorda e limpa exposta à luz, como uma criança que se descobre nua em rua de adultos, Canhoto assim respondeu à consagração:


- Tu quer um confeitinho? Toma um de menta. É bom, rapaz.


E desta maneira a receber caramelos, a vez de se encabular foi minha. Agora sinto, agora percebo que na pessoa de Canhoto aura nenhuma poderia ser posta, porque o seu maior elogio era a sua própria pessoa: Canhoto, a sorrir, a tocar. E digo isto, Senhora, quase que em estado de raiva e convulsão, por entre estremeços. Porque o vejo agora e me vem num assalto: Não é assim que se trata um homem. Não é assim que se destrói um artista. Não é assim que se faz reduzir e insultar a memória da gente. Este a quem encontro em Maranguape I, periferia do Recife, para lá de Olinda, é o mesmo homem que era convidado como estrela máxima de saraus, shows e banquetes? Este, na obscuridade de sua sala, olhando um disco na parede, como um mamute, como um gordo pacífico sem fala, é o mesmo genial violonista de Pisando em Brasa? Algo procuro, busco uma razão, e para não ser tão cru e cruel como a Providência, que assim pune os nossos grandes, prefiro balbuciar essas desrazões:


Imaculada Virgem e Mãe minha, Maria Santíssima, a vós que sois a Mãe de meu Salvador, Rainha do Céu, Advogada, esperança e refúgio dos pecadores, recorro:


Canhoto da Paraíba tem a perna, as articulações sacrificadas, porque não dispõe de recursos para fazer uma... terapia. Não essa terapia que ora faço, da súplica do milagre, da clemência aos céus, mas a mais elementar, humana, elementar, uma fisioterapia. Por isto, por falta desta, já reclama, reclama, não, que ele sequer se queixa, por isto já se refere a dormência nas pernas, porque passa o dia entre a cadeira e a cama. Mas disto ele não se queixa – está em repouso, não é?


Sabei, Senhora, que Canhoto é homem de grande resignação. Minto. Menti para ficar dentro da forma beatífica do requerimento a Seus poderes. O que toda a gente toma por resignação (digo-o baixinho, bem baixinho, como um chorinho solado, murmurando) o que toda gente toma por resignação é uma imensa generosidade. Canhoto sempre foi um deus de fertilidade, tocava e distribuía seus dons com louca e desmedida prodigalidade, como se os seus recursos, porque lhe chegavam, fossem inesgotáveis. Depois do derrame, do AVC, esses recursos subitamente se esgotaram. Mas disso ele não se deu conta. É um Buda que vive e se alimenta dos restos e da sombra do seu nirvana. Daí que não se queixa, daí que de nada reclama. Canhoto espera que de uma hora para outra seus dedos esquerdos voltem a se articular como antes, e aí, que bom que será! Todas as portas voltar-se-ão para ele, todas as graças, todos os violões, até mesmo a Santa, que acorrerá para ouvi-lo sem necessidade de invocação.


Nós, que não somos Canhoto, é que percebemos que o Rei perdeu o seu cetro, seu poder, seu trono. Nós, que o vemos transparente pela bonomia de sua fala de criança, é que sabemos: à causa “natural” da isquemia, da idade dos seus 76 anos, soma-se a natural organização do mundo. Canhoto vive de uma modesta aposentadoria que não lhe dá margem para um tratamento de luxo, e o luxo, Imaculada, é uma fisioterapia. Sabei, Santa sobre as santas, que ele recebe aposentadoria por suas atividades de burocrata, de funcionário do SESI, por ser Francisco Soares de Araújo. Da sua razão de ser - da sua razão de viver, da sua razão de morrer – do gênio de ser Canhoto da Paraíba ... nada, nada, nada. Assim não são os bens espirituais? Nada, nada, nada. Dos políticos, dos deputados, senadores, governador do estado, prefeitos, nada, nada, e minto. Minto, minha Santa: destes tem recebido uma segura e intransponível distância. Ou melhor, nesta altura, fui injusto. Agora em junho deste ano, o nosso violonista foi a Brasília, para inaugurar, com chave de ouro, o Projeto Pixinguinha. Ali, Canhoto recebeu um aperto de mão do Presidente.

Por isto, minha Santa, por isto, Imaculada, já que sois tão poderosa diante de Deus, fulminai para sempre e eternamente com vossos raios a insensibilidade humana. Porque existe um homem, que um dia foi Canhoto da Paraíba, que jaz numa cadeira de rodas, em Maranguape I, Paulista. Sem se queixar e a sorrir, e por assim estar, a machucar o coração da gente.

Por Marco Antônio

Fonte: http://www.projetobr.com.br/web/blog/5#6304


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OJO:

O prefeito de Aurora é um danado e tem uma assessoria de imprensa de primeira. Nem parece que vive no oco do mundo, no sertão do Ceará.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Nossa terra, nossa gente

Bom Jesus
PB/CE

O drama do limite geográfico

Jornal A União
08 de abril de 2008



Morar numa cidade que partilha as divisas da Paraíba com o Ceará, onde as ruas paraibanas e cearenses literalmente se cruzam num verdadeiro quebra-cabeças geográfico, não se constitui em nenhuma novidade para os habitantes de Bom Jesus, no Sertão Oeste da Paraíba, a 485 km de João Pessoa. Aqui, qualquer pessoa pode colocar um pé lá e outro cá, sem enfrentar os típicos entraves burocráticos das fronteiras.
Para entender um pouco esta curiosa divisão geográfica, basta citar que a Av. Pedro Carlos de Morais, apesar de ser o único acesso a Bom Jesus (PB), pelo lado da BR-230, localiza-se no centro do distrito de Aroeiras, que pertence ao vizinho município de Ipaumirim (CE). O carro percorre mais uns passos adiante e entra na Rua Antônio Caetano Leite, que tem o papel de dividir, ao meio, as terras do Ceará e da Paraíba.
A fim de se ter uma idéia aproximada, de como o Ceará e a Paraíba se misturam em Bom Jesus e Ipaumirim, basta acrescentar que a padaria Padre Cícero está do lado cearense e serve aos dois municípios. A casa de nº 10, da paraibana Rua Antônio Caetano de Brito, está menos de oito metros de distância do Ceará. Os moradores desta casa, simplesmente atravessam menos de cinco metros de uma rua da Paraíba, para comprar pães em território cearense.
Em Bom Jesus e Ipaumirim, as populações cearenses e paraibanas são predominantemente católicas. Então, não é simples coincidência o fato de a Igreja do Sagrado Coração de Jesus situar-se no meio da linha imaginária que separa o Ceará da Paraíba. Do centro do altar-mor , o Menino-Deus abençoa, indistintamente, tabajaras e alencarinos.
A praça Antônio Rolim é uma estratégica referência para Bom Jesus e Ipaumirim. Por que? Quem explica esta situação são os primos Joseildo Sampaio Santos, 63 e Francisco Guedes de Aquino, 61, antigos moradores de Bom Jesus. Sampaio aponta para uma depressão semelhante a um quebra-molas, situado no final da praça. Esta lombada divide os limites da Paraíba com o Ceará, como um verdadeiro divisor de águas.
De acordo com Aquino e Sampaio, as águas que correm para a esquerda da lombada, delimitam o território paraibano. Já as que seguem a trajetória da direita, penetram em terras do Ceará. Neste local, já houve confusões eleitorais. Há alguns anos, cerca de 300 eleitores cearenses moravam em Bom Jesus. Depois de alguns ajustes realizados pela Justiça Eleitoral, hoje, eles são apenas 18.
"Apesar do Ceará está a poucos metros de distância, os moradores de Aroeira, quando necessitam, procuram a Prefeitura de Bom Jesus", afirma Sampaio. "Ipaumirim, o município que deveria assistir os moradores de Aroeiras, está a 12 km de distância".Sampaio admite que a prefeitura paraibana de Bom Jesus atende, indistintamente, aos dois lados, pois está apenas a 10m da fronteira com o Ceará.
No mapa geográfico que divide os limites da Paraíba com o Ceará, já houve casos inusitados. Um deles ocorreu há 15 anos, quando uma briga entre vizinhos resultou em morte. Perseguido, o agressor pulou o muro do quintal de casa e entrou numa rua cearense. A polícia paraibana deixou de perseguí-lo. Recorreu às autoridades do Ceará, para prender o fugitivo.
Hildon Sampaio é muito conhecido em Bom Jesus e Ipaumirim. Por telefone, ele marcou um encontro de negócios com um comerciante de Campina Grande. Ao chegar a Bom Jesus e perguntar por Hildon, o homem ficou furioso. Soube que Hildon tinha ido para o Ceará. Calmamente, Sampaio apontou o outro lado da rua e mostrou o local onde Hildon se encontrava. E explicou: "O Ceará é ali, do outro lado".
Confusões territoriais à parte, a Justiça Eleitoral já conseguiu resolveu uma delas. Agora, quem paga água e luz em Bom Jesus, pode votar na Paraíba. Mesmo que more do lado cearense. Bom Jesus tem, atualmente, cerca de 3.200 habitantes. Aroeiras possui 1.200. A superioridade numérica de habitantes em Bom Jesus, não impede os repetidos casamentos entre moradores de um e do outro lado.
Situado na microrregião de Cajazeiras, Bom Jesus tem uma área territorial de 47,421 km quadrados. Está a 318m de altitude, em relação ao nível do mar. Sua economia, basicamente agrícola, obtém respaldo nas produções de arroz, milho e feijão. Município ordeiro, há 15 anos não registra um homicídio. E, segundo o IBGE, a população de homens é quase equiparada a de mulheres. Lá, só existem 10 mulheres a mais.
Quem sai de Cajazeiras com destino ao Ceará, encontra Bom Jesus 15 km adiante, do lado direito da BR-230. Limita-se com os municípios de Cachoeira dos Índios e Santa Helena (PB) e Ipaumirim (CE). A Avenida Pedro Carlos de Morais, no lado cearense, é o principal acesso a Bom Jesus. Nela, mora a comerciante Maria Genilda, que preferiu votar e pagar impostos no Ceará. "Não há conotação política na minha escolha", esclarece . "A Paraíba está mais perto mas eu movimento meu negócio através de Ipaumirim, que possui atividade comercial maior do que Bom Jesus".
No sítio Retiro, nas imediações da Barragem Lagoa do Arroz, o agricultor Sotero Gomes da Silva, natural de Bom Jesus, conta histórias dos tempos do cangaço. Por ali passaram Lampião e Corisco, seu lugar-tenente. Os cangaceiros pintaram e bordaram, extorquindo, roubando e matando gente. O próprio Sotero jura que os buracos da janela de sua casa foram feitos por coronhadas de rifle desferidas pelos homens de Corisco e Virgolino.
Lampião, depois de tentar enfiar um prego na cabeça de um tio de Sotero, a quem torturava para obter dinheiro, avisou: "Atenção pessoá, a gente vai aproveitar para fazer o máximo de baderna aqui, pois logo mais a gente entra no Ceará e eu não quero bagunça na terra do meu padim Ciço". Corria o mês de julho de 1931. Sete anos depois Lampião era morto em Angicos (SE), por uma volante da Polícia Militar de Alagoas. Até chegar no Ceará, Lampião matou três pessoas em território paraibano, inclusive um vaqueiro, a quem pediu para ensinar o caminho.

Hilton Gouvêa
Fonte: www.auniao.pb.gov.br/