quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Achados de fim de ano (2009)


Recebi, hoje, um comentário sobre o texto de Josa de Nair que fala no meu bisavô:

"Pesquiso sobre a família Leite. José Ferreira de Santana era casado com uma tia - Ursulina Leite de Souza - razão pela qual gostaria de manter contato com seus descendentes. Sou de Tuparetama, antiga Bom Jesus, cidade vizinha a São José do Egito, cidade onde ele foi prefeito, e seu sogro, Filipe Pedro de Souza Leite, o primeiro prefeito constitucional em 1892."

Tio Luiz e Jáder Santana gostariam de saber desta informação. Conversamos algumas vezes procurando um pouco do nosso passado, da família de minha avó, agora achei a pista. Tem livro chamado "Família Leite no Nordeste Brasileiro 1755 - 1948" autoria do Cônego Florentino Barbosa Leite Ferreira."

Por favor, quem souber onde encontrar este livro, me avise por comentário ou pelo meu e-mail luiza_ipaumirim@yahoo.com.br.

Quem quiser entrar em contato com o pesquisador que está levantando dados da família entre no blog http://valdirperazzo.blogspot.com/
"Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria
Belo como a coisa nova
Na prateleira até então vazia
Como qualquer coisa nova
Inaugurando o seu dia
E belo porque o novo
Todo o velho contagia"
(João Cabral de Melo Neto)

FELIZ ANO NOVO

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Exist e coisa mais chata que esse clima fúnebre que todo fim de ano a gente que aturar?
E tome os dez mais isso, os dez mais aquilo, o que marcou, o melhor e o pior do cinema, do rádio, da TV, da vida. O melhor livro, quem vendeu mais CDs, é uma soma de ranking com prestação de contas de juízo final. Parece que esqueceram de eleger a cueca do ano: terá sido a vermelhinha do Suplicy ou a do deputado de Brasília? Talvez Suplicy pelo inusitado. Dinheiro na cueca não é novidade na política nacional. Desordem, roubalheira e canalhice faz parte. A concorrência é tão acirrada que fica até difícil escolher o top de linha.
Noventa por cento ou mais das notícias que eu li não tiveram o menor interesse pra minha vida. O que tenho eu com a Madona namorando Jesus (sorte dela com um gato daqueles!)?
O nome do filho de Giselle, a bela, é Benjamin. Isso é importantíssimo para o futuro da humanidade.
O americano conseguiu levar o filho em vôo pago por uma estação de TV? Oh! Céus! Aguardem os próximos capítulos: livro, filme, game sobre a aventura de como o pai herói venceu, de uma tacada só, a avó, a justiça brasileira, dominou a mídia e roubou a cena.
Celebrity é celebrity.
Por enquanto, eu que sou povão, vou comendo uma torta de chocolate crocante enquanto vejo a retrospectiva da TV Globo. Colesterol para que te quiero?
E se eu ficar rica amanhã? O que eu vou fazer com tanta grana? Por mais que eu me esforce , minha lista de coisas para fazer não gasta nem dois milhões. E olhe que tem uma viagem ao redor do mundo incluída no pacote. Ah! Eu também pagaria para tirar aqueles horrorosos azulejos azuis que revestem as paredes internas da igreja de Ip. Não, eu não faria cirurgia plástica. Nem botox. Nem financiava campanha eleitoral.
Pedroooooooooooo, eu quero o meu chipppppppppp.
Definitivamente fui abduzida pelo supérfluo. Quem sabe em 2010, eu volte à nave mãe.
E o tempo não para, como diz Cazuza.

Receita de ano novo (Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Mensagem de Flávio Lúcio aos amigos de Ip e aos leitores do blog

Mafalda

Al Capone


Cornelius Vanderbilt entrevistou Al Capone em 1931 para a revista “Liberty”. A matéria teve enorme repercussão por vários motivos. Vanderbilt era membro de uma rica e tradicional família americana. E Capone o mais famoso gângster americano.

Veja o resultado abaixo.

Nossa gente tem que se manter unida”.

Estávamos sentados, eu e Al Capone, em um escritório espaçoso no quarto andar do Lexington Hotel na rua 22 com a Michigan, em Chicago. Já passava das quatro da tarde. Era quinta-feira, 27 de agosto. Ano de 1931.
Lá embaixo, nas calçadas, havia policiais fardados e à paisana. Todo mundo sabia que eles estavam nas ruas. Desbarataram dezenas de pontos de gângsteres nas últimas 24 horas. Deram batidas em hotéis e apartamentos. O que Pat Roche mais queria no mundo era o rei. E Pat era o promotor público.
Alguém tinha sido sequestrado. Seu nome era Lynch. Ele publicava um jornal com informações confidenciais sobre corridas de cavalos. Os boatos diziam que os sequestradores exigiam 250 milhas pela sua libertação. Achando que Al Capone talvez soubesse alguma coisa sobre isso, a polícia de Chicago pediu ajuda ao rei para encontrar Lynch. Sua Majestade concordou graciosamente e, logo depois, Lynch foi encontrado sem pagar um tostão de resgate.
Al Capone não tolera certos tipos de negócios ilícitos, e o sequestro é um deles.
Ele se reclinou um pouco mais na confortável cadeira de escritório e acendeu, pela décima sétima vez, o charuto Tampa. Nós já estávamos conversando há mais de uma hora.
“Esse inverno vai ser terrível”, continuou. “Temos que abrir a carteira para sobreviver. A gente não pode esperar pelo Congresso, pelo senhor Hoover ou por qualquer outra pessoa. Temos que ajudar a manter as barrigas cheias e os corpos aquecidos. Se não fizermos isso, nosso estilo de vida vai fracassar. O senhor sabe por que os Estados Unidos estão à beira da maior convulsão social da sua história? O bolchevismo está batendo à nossa porta. Não podemos deixar que ele entre. Devemos nos organizar contra ele, ficar lado a lado. Precisamos de fundos para combater a fome”.
Será que eu estava ouvindo direito? Será que estava no meu juízo perfeito? Ali, na minha frente, perto da sacada da janela, atrás de uma grande mesa de teca, sentava-se o mais temido de todos os escroques. Muito mais alto do que eu esperava, e mais forte. Um sujeito com um aperto de mão fortíssimo, uma janela com uma sacada digna de um banqueiro e o sorriso de vencedor característico de todas as raças latinas. E, mesmo assim, em vez do tipo de conversa que se espera de gente como ele, Capone fazia um discurso como eu nunca tivera a oportunidade de ouvir.
Ele continuou:
Temos que manter os Estados Unidos inteiros, seguros e intactos. Se as máquinas tirarem os empregos dos trabalhadores, eles vão precisar encontrar outra coisa para fazer. Talvez voltem a trabalhar a terra. Mas temos que olhar por eles enquanto acontece a mudança. Nós temos que mantê-los afastados da literatura e das artimanhas dos bolcheviques; devemos cuidar para que a cabeça deles continue saudável. Porque não importa onde nasceram, eles agora são americanos.”
Os garotos anunciavam as edições extras lá embaixo. Al Brown, como gosta de ser chamado, levantou-se da cadeira e andou para a esquerda. tirou um par de binóculos de um armário, colocou-os diante dos olhos e leu devagar a manchete de um vespertino: “Pat Roche confiante na rápida prisão de Capone.”
Abriu um sorriso largo: “O Pat é um cara legal”, disse com calma, “só que gosta de ver seu nome nos jornais com muita frequência.”
E pensei, “se o Pat falasse sério sobre prender você, ele podia fazer isso em um minuto.”
Ele leu meu pensamento: “Acho que sou como o senhor, senhor Vanderbilt: a multidão prefere me culpar pelo que não fiz do que me elogiar pelo que fiz de bom. A turma da imprensa está sempre atrás de mim. Parece que sou culpado por todos os crimes que acontecem neste país. O senhor deve achar que tenho poderes ilimitados e uma carteira recheada de dinheiro. Eu tenho poder, sim, mas o talão de cheques sofre com esses tempos difíceis tanto quanto o de qualquer um. A minha folha de pagamento continua grande, mas os lucros diminuíram. O senhor ficaria surpreso com o tipo de cara de quem eu já tive que cuidar.”
Eu podia responder que nada me deixaria surpreso, mas preferi ficar quieto. Al Capone não é um tipo comum de gângster que subiu na vida. Ele é um organizador e um político capaz. Aos 32 anos, tem a máquina mais eficiente que este país já viu. É tão poderoso em Chicago quanto qualquer chefão da Tammany (organização central do Partido Democrata) já o foi em Nova York. Para tomar conta de todos os seus negócios, ele tem uma folha de pagamento de mais de duzentos mil dólares por semana.
Até o momento, a máquina de Capone não foi superada. “Como pode um homem jovem como ele manter intacta a organização que construiu?”, perguntei-lhe. A resposta veio sem hesitação:
As pessoas não respeitam nada hoje em dia. Houve um tempo em que a virtude, a honra, a verdade e a lei eram colocadas em um pedestal. Nossos filhos eram educados para respeitar certas coisas. A guerra acabou. Tivemos quase 12 anos para nos reeguer e veja só que bagunça nós fizemos! Os legisladores da guerra aprovaram a 18ª emenda. Hoje em dia as pessoas bebem mais álcool em bares clandestinos do que se bebeu em cinco anos em todos os Estados Unidos antes de 1917. Essa é a resposta delas ao respeito à lei. Mesmo assim, a maioria dessas pessoas não é ruim. Não se pode classificá-las como criminosas, embora, tecnicamente, eles sejam. O sentimento de que a Lei Seca é responsável por muitos dos nossos problemas está crescendo. Mas o número de violadores da lei também cresce. Há 16 anos vim para Chicago com quarenta dólares no bolso. Três anos depois, estava casado. Meu filho está com 12 anos. Ainda sou casado e amo muito a minha mulher. A gente tinha que se sustentar. Eu era jovem e achava que precisava de mais do que isso. Não acreditava em proibir as pessoas de ter o que elas queriam. Achava a Lei Seca uma lei injusta e ainda acho.
“Seja como for, segui o caminho natural do contrabando. E acho que vou continuar até que a lei seja revogada”.
“Então, o senhor acha que ela vai ser revogada?”
É claro”, foi a resposta rápida. “E quando for, não vou ficar mal porque tenho outros negócios. O contrabando de bebidas, senhor Vanderbilt, constitui menos de 35% da minha renda.”
A declaração seguinte caiu como uma bomba:
Acho que talvez o senhor Hoover faça uma sugestão ao Congresso na sua mensagem de dezembro para que os legisladores da nação aumentem a percentagem de álcool nas bebidas. Essa será a sua melhor cartada para receber nova indicação. Além disso, o senhor sabe que ele sempre se referiu à Lei Volstead como uma nobre experiência. Mas com o tempo, nem mesmo essa mudança vai deixar as pessoas satisfeitas. Elas vão exigir a volta das bebidas normais; e se fizerem muita pressão vão derrotar a Liga Antibares e os industriais que prosperaram e enriqueceram às custas da sede.
A lei vai ser revogada. Não vai haver mais necessidade de segredo. Vou ser poupado de uma folha de pagamento enorme. Mas enquanto a lei vigorar e as pessoas continuam violá-las, haverá lugar para pessoas como eu, que acham que essa lei nos torna responsáveis pela manutenção de um canal aberto. As pessoas que não respeitam nada detestam o medo. Por isso construí minha organização sobre o medo. Aqueles que trabalham comigo não têm medo de nada. Os que trabalham para mim são leais, não por causa do pagamento, mas porque sabem o que pode acontecer se eles não forem.
O governo dos Estados Unidos é muito mole com os violadores da lei e diz que vai mandá-los para a cadeia se eles desafiarem a lei. Os violadores riem e arrumam bons advogados. Só os que não têm dinheiro são punidos. Mas o público em geral não tem mais medo de uma prisão do governo do que de Pat Roche. As pessoas acham graça das coisas que ficam sabendo. Elas gostam de fazer piada e rir dessas coisas. Quando tem uma batida em um bar clandestino, pouca gente fica histérica; a maioria está tranquila. Por outro lado, o senhor acha que algum dos seus amigos ia achar graça se tivesse medo de ser levado para um passeio sem volta?”
Eu ficaria com medo? Essa pergunta poderia responder, e rápido.
Na parede atrás do rei, havia um retrato de Lincoln em uma moldura barata. Ele parecia sorrir benevolente. Sobre a mesa principal, havia um peso de papel de bronze da estátua do Great Emancipator do Lincoln Memorial. Uma cópia do discurso de Gettysburg enfeitava outra parte da parede Era fácil perceber que Lincoln era o americano mais respeitado por Capone.


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Talvez o último desejo (Rachel de Queiroz)


Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!
Sim te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.
Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!
Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!
Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.
Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.
Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.
*
Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.
Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.
E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.
E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.
E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.
E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.
E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.
E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.
Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?
O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!

Ilha, dezembro de 1949.
Texto extraído do livro: Um alpendre, uma rede, um açude - 100 crônicas escolhidas. Rachel de Queiroz. Editora Siciliano. São Paulo. 1993 p. 101-103.

Fonte: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/cronicas/racheldequeiroz.htm
Eu adoro esta crônica. Já devo ter postado algumas vezes mas ela sempre revela as nossas contradições, o nosso cotidiano sem o qual é impossível ser feliz.

Mensagem de Bosco Macedo


Meus amigos de Ipaumirim
O texto abaixo mostra que Aquele Rapaz, filho de carpinteiro,que viveu há dois mil anos atrás na Palestina sabia o que estava dizendo.Um coração se alegra muito mais quando troca amor,solidariedade,amizade,generosidade,carinho,abraços,beijos,compaixão,do que quando conquista coisas materiais.
Amigos é o maior tesouro que temos.

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Logo mais,estaremos no ultimo dia do ano de 2009....e depois de meia-noite,virá o Ano-Novo...
O engraçado é que - teoricamente - continua tudo igual..Ainda seremos os mesmos.
Ainda teremos os mesmos amigos,alguns o mesmo emprego,o mesmo parceiro,as mesmas dívidas(emocionais e/ou financeiras).
Ainda seremos frutos das escolhas que fizemos durante a vida.
Ainda seremos as mesmas pessoas que fomos este ano...
A diferença, a sutil diferença,é que quando o relógio nos avisar de que é meia noite, do dia 31 de dezembro de 2009,teremos um ano in-tei-ri-nho
pela frente!
Um ano novinho em folha! Como uma página de papel em branco,esperando pelo que iremos escrever.
Um ano para começarmos o que ainda tivemos força de vontade,coragem e fé.
Um ano para perdoarmos um erro,um ano para sermos perdoados do nossos...
365 dias para fazermos aquilo que quisermos...Ou para deixarmos que façam o que quiserem conosco...
Sempre há uma escolha e exatamente por isso, eu desejo que os meus amigos façam as melhores escolhas que puderem
Desejo que sorriam o máximo que poderem.
Cantem aquilo que quiserem.
Beijem muito.
Amem mais.
Abracem bem apertado.
Durmam com os anjos.Sejam protegidos por eles.
Agradeçam por estarem vivos e terem sempre mais uma chance para recomeçar.
Agradeçam às suas escolhas,pois certas ou não, elas são suas.E ninguém pode ou deve questioná-las.
Eu gostaria de agradecer aos amigos que eu tenho.
Aos que me acompanham desde muito tempo.
Aos que eu fiz este ano.
Aos que eu escrevo pouco, mas lembro muito.
Aos que moram longe e não vejo tanto quanto gostaria.
Aos que moram perto e eu vejo sempre.
Aos que moram perto e mesmo assim eu não vejo tanto quanto gostaria...
Aos que me seguram quando penso que vou cair.
Aos que dou a mão,quando me pedem ou quando me parecem o pouco perdidos.
Aos que me permitem ajudar nos seus problemas.
Aos que ganham e perdem.
Aos que riem e choram.
Aos que me parecem fortes e aos que são.
Aos que me parecem anjos, mas estão aqui e me dão a certeza de que existe algo de divino neste mundo.
Porque ninguém seria um anjo na vida de outra pessoa,se não tivesse uma centelha divina dentro de si.
Obrigado por fazerem parte da minha história.
Afinal sou um pouquinho de todos vocês...
Feliz ano Novo
Bosco Macedo

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Finas maneiras na festa da firma (Xico Sá)


(BR Press) - Como diria o meu amigo P.J. O’Rourke, vamos às nossas finas maneiras para gente grossa. É hora de repassarmos algumas dicas e episódios sobre a etiqueta moderna para festas e confraternizações de fim de ano.
É, meu caro, chegou dezembro, hora da farra na repartição, hora do amigo secreto, hora da tertúlia na empresa. Meninos e meninas, nos meus tantos anos de carteira assinada ou na clandestinidade trabalhista de hoje, já vi de tudo em festa de firma. É um capítulo à parte da nossa existência sob o domínio das 365 folhinhas do calendário. Tão importante quanto a Missa do Galo. Quase um dia das Mães sem as nossas mães, ainda bem, ufa.
Um dia dos namorados sem namorado(a)s por perto. A menos que vocês desrespeitem aquela verdade bíblica do pão e da carne – onde se ganha o primeiro, não se desfruta do segundo, amém.
Festa de firma. Tédio para uns, celebração dionisíaca para outros.
Fim de ano, aquela animação, aquele queijo coalhado no juízo, nervos à flor da pele, a vida assim meio Roberto Carlos, meio Almodóvar, meio Nelson Rodrigues, enfim, a vida simples, brega como ela é, a vida sem mistificação ou assepsia, a vida que não lava as mãos à toa.
Alguém querendo bater no chefe que o humilhou o ano inteiro, alguém querendo comer a gostosa do telemarketing, alguém querendo passar a mão na tua cesta de natal, principalmente no panetone.
O cenário certo, na graduação alcoólica certa, na boca-livre perfeita para um elemento cometer alguma desgraça ou crime de primeira página, seis colunas, manchete. Com direito a story-board.
Festa de firma. Todo cuidado é pouco, caros bebedores amadores, com a festa da firma. Sério.
A melhor cena que vi foi numa farra do jornal Notícias Populares, o glorioso e sanguinolento NP, de saudosa memória, que bateu as botas gutenberguianas como os presuntos que exibia em suas páginas. Imagine uma linda e desgostosa (com o marido canalha!) secretária.
Pensou?
Terceira caipirinha. De alguma fruta exótica. Mulher adora uma novidade. Música, maestro.
Toca uma faixa capaz de fazer de uma madre superiora uma Lady Gaga, uma Madonna, capaz de transfomar qualquer entrevado um Elvis, um Elvis em Acapulco cantando na beira da piscina do Hilton Palace.
Toca algo assim como aquele “chabadabadá” da trilha de Un Homme et Une Femme, filme das antigas, “Um Homem, uma Mulher”, de Claude Lelouch, grande película.
Quarta caipirinha.
O chão é pouco para os passos da pecadora.
Ela sobe numa mesa.
Antes, beijara na boca, sem discriminação de classe, do diretor ao boy. Eu, um reles cronista folhetinesco daquele diário, também locupletei-me, claro, mas meio tímido, juro.
Quinta caipirinha.
A blusa não resistiu ao primeiro gole. O sutiã foi parar na cabeça do tiozionho do arquivo.
Sexta caipirinha acompanhada de uma cerveja mexicana: foi-se quase tudo.
Belas saboneteiras, omoplatas geniais, observei.
Coube ao marido – a quem mais caberia? –, enquadrar a “vadia”, como ele berrava sem economizar nas exclamações! Chegou para apanhá-la e acabou testemunhando o que não queria.
A festa acabou.
E agora, José? Fica aí o alerta: não há inocentes em uma festa de firma. Numa festa de firma, o mais tímido e sonso dos mortais dubla Carmem Miranda e passa a mão na bunda do chefe, só pra quebrar a hierarquia pelo seu ponto mais, digamos assim, intocável.

& MODINHAS DE FÊMEA

Quando uma mulher começa a bancar a mística, consultar tarô toda hora, falar sobre o retorno de saturno ou mercúrio retrógrado, etc, todo cuidado é pouco.
Ela está apenas começando um processo de um lindo pé na bunda do amigo. Fica esperto, malandro!
Fonte: http://www.brpress.net/

domingo, 27 de dezembro de 2009

Papo de berçário

Levando seu totó a passear

Som do domingo

CONVITE

ACRI homenageia centenário de lideranças políticas do município

O VIII ENCONTRO DE FILHOS E AMIGOS DE IPAUMIRIM QUE ACONTECE ENTRE OS DIAS 18 A 20 DE JANEIRO DE 2010 HOMENAGEIA O CENTENÁRIO DE TRES PERSONALIDADES DA HISTÓRIA POLÍTICA DO MUNICÍPIO.

1. DEPUTADO FRANCISCO VASCONCELOS DE ARRUDA

2. PREFEITO OSWALDO ADEMAR BARBOSA

3. VEREADOR ARGEMIRO FELIZARDO VIEIRA

DURANTE O ANO 2009 PUBLICAMOS O ARQUIVO FOTOGRÁFICO DO SEGUNDO GOVERNO DE ADEMAR.

HOJE, PUBLICAMOS DADOS BIOGRÁFICOS DE ARGEMIRO FELIZARDO VIEIRA

NÃO TEMOS FOTOGRAFIAS NEM INFORMAÇÕES DE DR. FRANCISCO VASCONCELOS DE ARRUDA. PROCUREI NA BIBLIOTECA PÚBLICA E NA CASA DE MARLEY ARRUDA (SEU SOBRINHO) MAS NÃO CONSEGUI ENCONTRÁ-LO. MEU POUCO TEMPO NA CIDADE NÃO PERMITIU UMA PESQUISA MAIS CONSISTENTE.

SABEMOS QUE EXISTE UM LIVRO CHAMADO: FRANCISCO VASCONCELOS DE ARRUDA; O ITINERÁRIO DE UM LÍDER MAS NÃO CONSEGUI CÓPIA DO EXEMPLAR. PENSEI EM PEDIR A CAIRO ARRUDA MAS SEI QUE ELE NÃO ANDA MUITO BEM DE SAÚDE E QUIS POUPÁ-LO DA TAREFA.

RECONHECEMOS EM DR. ARRUDA UMA LIDERANÇA POLÍTICA INQUESTIONÁVEL QUE MUITOS SERVIÇOS PRESTOU AO POVO DA NOSSA TERRA.

SOLICITAMOS DE ALGUÉM QUE DISPONHA DE DADOS QUE, POR FAVOR, ENVIE PARA O E-MAIL luiza_ipaumirim@yahoo.com.br PARA QUE POSSAMOS PUBLICAR SUAS INFORMAÇÕES.
ML

Domingo Memorioso

Argemiro Felizardo Vieira, filho de Vicente Felizardo Vieira e Joana Maria de Lima (Dondon), nasceu em 25.12.1910 no distrito de Olho d’Água do Melão, atual Felizardo.

Carteira profissional de Argemiro


Trabalhou na Indústria Algodoeira São Francisco, de propriedade do seu pai, no princípio uma bolandeira que funcionou inicialmente no distrito. Com crescimento da empresa, em 1925, foi transferida para Alagoinha e recebeu o nome de Indústria Algodoeira São Francisco que funcionava na Rua Bento Vieira. mas em 1925 foi transferida para Alagoinha.
Com o falecimento de Vicente Felizardo, e AM morte anterior do filho Bento e de Dondon logo após a morte do marido, a empresa desestabilizou e os filhos resolveram encerrá-la. “Havia um débito para com o Senhor Cícero Fernandes de Sousa, cidadão com quem mantinham comércio de algodão na cidade de Mossóró, Rio grande do Norte, e com este, foi feita uma negociação entregando a indústria como prova de quitação de débito. (...) O senhor Cícero Fernandes de Sousa conduziu os negócios dessa indústria durante anos com outra razão social, Sousa Fernandes & Cia que posteriormente passou para outro empresário.” A usina foi comprada pelos Irmãos Alexandre e Romeu Montoril, da cidade de mauriti. Com a falência da indústria, as máquinas foram vendidas para o Paraguai.
Foto da antiga Usina Sousa Fernandes & Cia
“Em 1932 foi nomeado para o cargo de Preposto Municipal da povoação de Alagoinha, no lugar de Eduardo Pessoa Costa. (Registro da página 54 do livro: Umari, Baixio, Ipaumirim)
Eleito vereador por três vezes, conforme a seguir: Pleito de 1962, Gestão de 1963 a 1966, no Governo Expedito Dantas Moreira; Gestão 1967 a 1970, governo Ademar Barbosa; de 1974 a 1977, governo Cairo Arruda.”

Argemiro entre Padre Alcântara e Dom Vicente Matos

“Era uma pessoa bastante extrovertida, dotado de uma voz bonita e sempre estava deleitando os ipaumirinenses com as suas melodias.” (do livro: Em família, de Maria Flaucineide Vieira Chagas (Cineide) e Raimunda Vieira Rolim (Mundinha). Gráfica Real. Edição do autor. Cajazeiras. 2004)
Casado com Maria Nery Vieira, natural de Brejo da Madre de Deus no interior de Pernambuco, tiveram sete filhos.

Descendência de Argemiro Felizardo Vieira e Maria Nery Vieira:
1. Raimundo Nery Vieira (falecido) casado com Edileuza Farias (Neném)
Filhos do casal: Conceição, Luizinho, Francisco de Assis e Liduína.
2. Francisco Aldeísio Nery Vieira
São filhos do seu 1° casamento com Terezinha Paiva Nóbrega: Leoberto, Leotácio, Leilton, Leoton (falecido) e Nailê. Do 2° casamento com Ivanise, são filhos: Viviane e Júnior
3. José Nery Vieira (Anchieta) casado com Maria Salete Vieira
Filhos do casal: Argemiro Neto, Geórgia e Arabelle.
4. Antonio Nery Vieira (Otoni) casado com Najla Said.
Filhos do casal: Tuffy, Samí e Karine.
5. João Nery Vieira
No primeiro casamento, com Jucy vieira, teve os filhos: Jucineury e Cleiton. No segundo casamento, com Zigomar, não houve filhos.
6. Sebastião Nery Vieira (Lau)
Do primeiro casamento com Fátima (falecida), teve Alexandro e Sebastião. Do segundo casamento com Maria das Graças Pontes, são filhos: Semárya, Ismárya e Allanya Maria.
7. Luiz Nery Vieira (Lila)
Do primeiro casamento com Amazonina Nogueira , são filhos: Kyldare, Kélcia, Kilcion e Keury.
Da segunda união com Lúcia Barbosa, não há filhos.

As informações contidas no texto foram retiradas do livro Em família, de Maria Flaucineide Vieira Chagas (Cineide) e Raimunda Vieira Rolim (Mundinha). Ed. Do autor. Gráfica real. Cajazeiras. 2004.
Outras informações e as imagens foram obtidas diretamente com Dr. José Nery Vieira (Anchieta)

Nunca imaginei um dia (Martha Medeiros)


Até alguns anos atrás, eu costumava dizer frases como “eu jamais vou fazer isso” ou “nem morta eu faço aquilo”, limitando minhas possibilidades de descoberta e emoção. Não é fácil libertar-se do manual de instruções que nos autoimpomos. Às vezes, leva-se uma vida inteira, e nem assim conseguimos viabilizar esse projeto. Por sorte, minha ficha caiu há tempo.

Começou quando iniciei um relacionamento com alguém completamente diferente de mim, diferente a um ponto radical mesmo: ele, por si só, foi meu primeiro “nunca imaginei um dia”. Feitos para ficarem a dois planetas de distância um do outro. Mas o amor não respeita a lógica, e eu, que sempre me senti tão confortável num mundo planejado, inaugurei a instabilidade emocional na minha vida. Prendi a respiração e dei um belo mergulho.

A partir daí, comecei a fazer coisas que nunca havia feito. Mergulhar, aliás, foi uma delas. Sempre respeitosa com o mar e chata para molhar os cabelos, afundei em busca de tartarugas gigantes e peixes coloridos no mar de Fernando de Noronha. Traumatizada com cavalos (por causa de um equino que quase me levou ao chão quando eu tinha oito anos), participei da minha primeira cavalgada depois dos 40, em São Francisco de Paula. Roqueira convicta e avessa a pagode, assisti a um show do Zeca Pagodinho na Lapa. Para ver o Ronaldo Fenômeno jogar ao vivo, me inflitrei na torcida do Olímpico num jogo entre Grêmio e Corinthians, mesmo sendo colorada.

Meu paladar deixou de ser monótono: comecei a provar alimentos que nunca havia provado antes. E muitas outras coisas vetadas por causa do “medo do ridículo” receberam alvará de soltura. O ridículo deixou de existir na minha vida.

Não deixei de ser eu. Apenas abri o leque, me permitindo ser um “eu” mais amplo. E sinto que é um caminho sem volta.

Um mês atrás participei de outro capítulo da série “Nunca imaginei um dia”. Viajei numa excursão, eu que sempre rejeitei essa modalidade turística. Sigo preferindo viajar a dois ou sozinha, mas foi uma experiência fascinante, ainda mais que a viagem não tinha como destino um país do circuito Elizabeth Arden (Paris-Londres-Nova York), mas um país africano, muçulmano e desértico. Aliás, o deserto de Atacama, no Chile, será meu provável “nunca imaginei um dia” de 2010.

E agora cometi a loucura jamais pensada, a insanidade que nunca me permiti, o ato que me faria merecer uma camisa-de-força: eu, que nunca me comovi com bichos de estimação, adotei um gato de rua.

Pode colocar a culpa no espírito natalino: trouxe um bichano de três meses pra casa, surpreendendo minhas filhas, que já haviam se acostumado com a ideia de ter uma mãe sem coração. E o que mais me estarrece: estou apaixonada por ele.

Ainda há muitas experiências a conferir: fazer compras pela internet, andar num balão, cozinhar dignamente, me tatuar, ler livros pelo kindle, viajar de navio e mais umas 400 coisas que nunca imaginei fazer um dia, mas que já não duvido. Pois tem essa também: deixei de ser tão cética.

Já que é improvável que 2010 seja diferente de qualquer outro ano, que a novidade sejamos nós.

Álbum da semana

Marilene Albuquerque

Liduina Farias e esposo

Fátima Maciel, Cid Gomes e Luhanna

Fátima Estolano e genro

Carola Riffel

Antonio Ribeiro

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sebastião Baraúna (Tatá), Dorinha,
Francisco Humberto, Elvira e filhos

Sílvio Alexandre

Rubinho e Jair


Crisvane

Cícero Maciel, Leylton Nery e Joelma Rolim

Antonio Saraiva e filhas: Aline e Roberta

Macial e Vera

Marcos Holanda e Geraldinho Barbosa

Fátima Crispim e netinho


Desfile da maçonaria no dia do município


Família Maçônica
Deus e Ipaumirim

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Entendeu?

Esses natais sinistros (Gabriel Garcia Marquez)


Já ninguém se recorda de Deus no Natal. Há tanto estrondo de corneta e fogos de artifício, tantas guirlandas de focos de cores, tantos perus inocentes degolados e tantas angústias de dinheiro que ultrapassam nossos recursos reais que podemos nos perguntar se a alguém resta um instante para perceber que semelhante alvoroço é para celebrar o aniversário de uma criança que nasceu há 2000 anos numa estrebaria de miséria, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei David. Novecentos e cinquenta e quatro milhões de cristãos crêem que essa criança era Deus encarnado, mas muitos celebram-no se na realidade não o acreditassem. Celembram-no além disso muitos milhões que nunca o acreditaram, mas agrada-lhes a pândega, e muitos outros estariam dispostos a virar o mundo do avesso para que ninguém continuasse a acreditar. Seria interessante averiguar quantos deles crêem também, no fundo da sua alma, que o Natal de agora é uma festa abominável, e não se atrevem a dize-lo por um preconceito que já não é religioso e sim social.
O mais grave de tudo é o desastre cultural que estes Natais pervertidos estão a causar na América Latina. Antes, quando só tínhamos costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. A criança Deus era maior que o boi, as casinhas encarapitadas nas colinas eram maiores que a virgem, e ninguém dava atenção a anacronismos: a paisagem de Belém era completada com um comboio de corda, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala, ou com um agente de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros numa esquina de Jerusalém. Acima de tudo punha-se uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro, e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era antes feio, mas parecia conosco, e naturalmente era melhor do que tantos quadros primitivos mal copiados do aduaneiro Rousseau.
A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como sucede em Espanha com toda a razão – e sim pela criança Deus. Nós crianças deitávamo-nos mais cedo para que as prendas chegassem logo, e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos. Entretanto, eu não tinha mais de cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era tempo de revelar-me a verdade. Foi uma desilusão não só porque eu acreditava deveras que era a criança Deus que trazia os brinquedos, como também porque teria querido continuar a acreditar. Além disso, por pura lógica de adulto, pensei então que os outros mistérios católicos também eram inventados pelos pais para entreter as crianças, e fiquei-me no limbo. Aquele dia – como diziam os mestres jesuítas na escola primária – perdi a inocência, pois descobri que tão pouco as crianças eram trazidas de Paris pelas cegonhas, o que é algo que ainda gostaria de continuar a acreditar para pensar mais no amor e menos na pílula.
Tudo isto mudou nos últimos trinta anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é ao mesmo tempo uma devastadora agressão cultural. A criança Deus foi destronada pelo Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papá Noel dos franceses, aos quais todos conhecemos demasiado. Chegou-nos com tudo: o trenó puxado por um alce, e o abeto carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve. Na realidade, este usurpador com nariz de cervejeiro não é outro senão o bom São Nicolau, um santo ao qual quero muito é o do meu avô coronel, mas que nada tem a ver com o Natal, e muito menos com Noite Boa tropical da América Latina. Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu vários escolares que um urso havia despedaçado na neve, e por isso proclamaram-no patrono das crianças. Mas a sua festa celebra-se em 6 de Dezembro e não a 25. A lenda tornou-se institucional nas províncias germânicas do norte em final do século XVIII, junto à árvore dos brinquedos, e há pouco mais de cem anos passou à Grã-Bretanha e à França. A seguir passou aos Estados Unidos, e estes enviaram-na para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas de cores, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético ao qual poucos de nós se atrevem a escapar. Contudo, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram consigo: esses cartões postais indigentes, esses cordões de luzinhas de cores, esses sininhos de vidro, essas coroas de visco penduradas no umbral, essas canções de atrasados mentais que são os cânticos traduzidos do inglês; e tantas outras estupidezes gloriosas para as quais nem sequer valia a pena haver inventado a electricidade.
Tudo isso, em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que se enganam de porta à procura de onde desaguar, ou a perseguir a esposa de outro que por acaso teve a boa sorte de cair adormecido na sala. Mentira: não é uma noite de paz e amor, e sim todo o contrário. É a ocasião solene da gente que não se quer. A oportunidade providencial de cumprir os compromissos adiados por indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há quinze anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a mostrar. É a alegria por decreto, o carinho por lástima, o momento de presentear porque nos presenteiam, e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de os convidados beberem tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho de banana. Não é raro, como sucede amiúde, que a festa termine a tiros. Nem é raro tão pouco que as crianças – ao verem tantas coisas atrozes – acabem por crer realmente o menino Jesus não nasceu em Belém e sim nos Estados Unidos.

Querer é poder: do canavial à universidade

Jonas da Silva cortou cana até os 15 anos,
mas mudou a "sina massapê" ao
conquistar uma vaga no Curso de Medicina
na Universidade de Pernambuco

Do jeito que a gente aprende no colégio, o solo massapê é aquele fertilíssimo, ideal para plantar cana de açúcar. A gente só não vê nos livros que esse mesmo plantio pode prender, aprisionar o homem à terra, explorando uma mão de obra que, muitas vezes, não vê outro horizonte que não o monte de terra roxa. Uma sina de muitos pernambucanos. Uma história repetida há séculos na Zona da Mata no estado. Mas Jonas Lopes da Silva, de 24 anos, nascido em Palmares e criado em Joaquim Nabuco, abandonou essa geografia de escravidão. Deixou para trás essa herança de desesperança. Foi cortador de cana de açúcar ao lado dos pais até os 15 anos de idade. Hoje, aos 24, colhe uma riqueza de verdade: a aprovação no vestibular de medicina da Universidade de Pernambuco, um dos mais concorridos do estado (são 34,15 candidatos disputando uma vaga).
Jonas iniciou e concluiu a educação na rede pública aos 20 anos de idade. Atrasou dois anos em relação à maioria das crianças porque desistiu de estudar. "Eu era briguento e brincalhão. Também um pouco revoltado", justifica Jonas. Deixou de ir à escola na quinta e sexta série do antigo primeiro grau. Tinha em torno de 12 anos. Nesse tempo, andava ao lado da mãe, pelo canavial. De tanto vê-la derrubar e embolar cana, foi repetir a sina. Trabalhou em condições degradantes, um crime contra os direitos humanos previsto nos artigos 240 e 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). "O sol era escaldante e minhas costas doíam", lembra Jonas, tocando a cicatriz na mão direita. "Nunca fui obrigado a nada. Mas as coisas eram muito difíceis", lembra. Jonas é o quinto filho de uma prole de sete do pedreiro José Lopes, de 56 anos, e da trabalhadora rural Edileusa Maria, de 50 anos.

Além de Jonas, apenas o caçula da família, Renato, de 20, completou o ensino médio. Outros quatro largaram os estudos para trabalhar. "Minha mãe foi acabada pela cana de açúcar. Foi massacrada pelo destino. Minha avó até hoje se arrepende de ter tirado o sonho dela, de ter tirado ela da escola", conta Jonas. "Então, quando meu pai me disse que se eu não estudasse, eu iria cortar cana, fiquei danado. Daí para frente disparei. Fui aluno laureado no 1º, 2º e 3º ano", orgulha-se o rapaz, que salvou na memória afetiva, da pracinha de Joaquim Nabuco, os nomes dos professores da época. "Tive Alex, de matemática, e três professoras que foram mães. Dona Eulália, de história, dona Risonete, de português, e Elian, de geografia", recorda.

Foram quatro anos de tentativas, até a aprovação na UPE. Na primeira, em 2006, ainda morando em Joaquim Nabuco, levou ponto de corte. "Senti todas as carências do ensino público aí. Pensei em pedir emprego na prefeitura", afirma. Em 2007, recuperou o "prejuízo". Passou em um concurso do IBGE para ser agente do censo. Realizou o trabalho, mudou-se para Jaboatão (onde mora a irmã mais velha, Márcia) e pagou um curso pré-vestibular com o dinheiro que guardou. "Eu escutava falar muito de vestibular no rádio. Aí, já sabendo que para a minha condição social passar em medicina era difícil, decidi investir nesse curso, em um colégio famoso da capital", recorda o jovem, criado no bairro de São Miguel, que ele chama de "Coque de Joaquim Nabuco". "As pessoas diziam que eu nunca ia passar porque era pobre". Ele não acreditava nisso, mesmo reprovado pela segunda vez, no vestibular de 2007. "Aprendi a lutar com a dor da minha mãe e com a sabedoria do meu pai. São dois filósofos, apesar da dureza. Sempre ouvi deles que eu deveria me dar bem com Deus e o diabo", reproduz.
Sentindo-se cada dia mais desafiado, Jonas procurou em 2008 um curso de matérias isoladas. "O nível de exigência do aluno era maior. Mas era o que eu precisava. Conheci o professor Vieira Filho, fiz teste para uma bolsa 100%, mas só consegui desconto. Eu pagava R$ 190, por cinco disciplinas, ainda com o que sobrou do IBGE", conta o rapaz, que nesse tempo mal se mantinha acordado nas aulas e nos ônibus (quatro por dia). "Sofri em silêncio", desabafa. Jonas ficou na lista de remanejamento, por 13 pontos. Bastaria queduas pessoas desistissem, o que não aconteceu.

Além de aprender biologia, física e química, Jonas teve que aprender a brincar. A exemplo de um dos seus "mestres", o poeta Fernando Pessoa, criou heterônimos. Personagens dele mesmo. Pequenas histórias autobiográficas. O mais conhecido é João, um menino que adora tirar fruta do pé. "Uma vez João me disse para eu não ficar triste. Falou que quando eu passasse, eu ia para casa, comer manga e chupar picolé", brinca Jonas. "Eu fui fazer as provas este ano de mãos dadas com Deus e João", ressalta. Outra coisa: Jonas nunca brinca sozinho. "Converso com os meus mestres, Franz Kafka, Josué de Castro, Machado de Assis, Mozart, Bach e João Cabral de Melo Neto", cita alguns.
Para encurtar os gastos com as passagens de ônibus, as despesas na casa da irmã e o cansaço, Jonas conseguiu uma vaga na Casa de Estudantes de Pernambuco, no mês de abril deste ano. "O acolhimento foi imediato", declara. "Além disso, fui atrás novamente de uma bolsa integral e consegui, através do professor Fernandinho e companhia", fala Jonas, agradecido como se falasse de "deuses". Era tudo ou nada este ano. Foi tudo. Jonas conseguiu a aprovação pelo sistema de cotas (que reserva 20% das vagas para alunos egressos da rede pública), com a pontuação 532,25. E foi também o começo. Jonas já faz planos para comprar os primeiros livros (Prometheus, Atlas de Anatomia e Harrison: Medicina Interna) com o dinheiro de um novo concurso do IBGE. Também já aprendeu no corredor da UPE que "a arte na medicina às vezes cura, de vez em quando alivia, mas sempre consola".

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009





"Amigos são presentes que damos a nós mesmos."
(Robert Louis Stevenson)


F E L I Z N A T A L !

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Os mineiros e a política

Por Cairo Arruda
(membro da ACI)
Já disse neste espaço, e repito, que sou admirador dos políticos mineiros (com as devidas exceções, é claro), devendo destacar o saudoso Tancredo Neves, os ex-Presidentes JK e Itamar Franco, o atual Governador Aécio Neves (neto do primeiro) e o Vice-Presidente José Alencar – pela sua sinceridade de propósitos, sobriedade, probidade, habilidade política, humildade, fé inabalável e espírito público e de religiosidade autênticos.
Eu acredito que é principalmente devido a essa sua retidão como ser humano, por sinal, qualidade que vem rareando cada vez mais nos nossos homens públicos, que Deus está operando nele um verdadeiro milagre, a graça da cura do CA que o afetou, mas, não o rendeu, tal qual aconteceu com o meu mano Arruda Sobrinho – cearense de desmedida fé, devoto do Padre Cicero Romão Batista, que nunca baixou a cabeça, sendo mais forte do que a própria enfermidade, e que jamais perdeu a esperança do restabelecimento de seu estado de saúde.
É por demais verdadeira a afirmativa do Vice-Presidente Alencar de que o Brasil está com saudades de Minas – politicamente falando, e que haverá algum mineiro disputando o cargo de Presidente da República em 2010.
JK e Itamar Franco fizeram pelo nosso País, na época e momentos certos, o que ele necessitava para alavancar o seu desenvolvimento, sem desmerecer, diga-se de passagem, a figura do inesquecível gaúcho Getúlio Vargas, que, apesar do seu final de carreira política trágico, muito também realizou a bem dos brasileiros, mormente, da classe trabalhadora.
Estou torcendo para que o mineiro José Alencar (que vem lutando tenaz e fervorosamente contra o câncer), seja realmente agraciado com o milagre da cura, e possa concretizar mais um sonho que alimenta: candidatar-se a senador pelo Estado das Alterosas, e alcance essa oportuna e merecida recompensa!

E-mail: cairomiri@yahoo.com.br

IP em clima de natal

Hoje não escrevo (Carlos Drummond de Andrade)


Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...
Então hoje não tem crônica.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Icó: Inícia, hoje (22.12), a Festa do Senhor do Bonfim


O Icó se recobre do espírito de fim de ano. Iniciam-se oficialmente os festejos tradicionais do Senhor Bonfim, a partir desta terça-feira (22).

Icoenses que moram no torrão e que estão chegando de terras distantes já recriam um ambiente de confraternização na cidade.
O primeiro dia será marcado com a carreata que levará a réplica da imagem do Senhor do Bonfim e logo após, no Largo do Thebérge, acontecerá a bênção dos veículos e hasteamento de bandeira.

O tema central deste ano será 'Com o Senhor do Bonfim promovamos a paz que é fruto da justiça'. Neste ano de 2009, a igreja que hoje é satuário completa 260 anos de construção, feita em 1749.

ICÓ É NOTÍCIA COBRE EVENTO - O Icó é Notícia estará fazendo a cobertura do evento e trará aos internautas a programação completa do evento, além de trazer vídeos e fotos decada dia do novenário, abertura e encerramento.

Transparência em Ipaumirim

Transparência nos Municípios
Ipaumirim (CE)

Painel

Repasses do Governo Federal para o município acumulado em 2009:
R$ 8.214.712,37

Todas as informações publicadas em nossoblog
foram retiradas diretamente do site:
acessado em 22.12.2009 .

O site contém outras informações para quem quiser visualizar detalhes das operações.
Atenção: contém informações que não são apenas do Exercício 2009.
Recursos Pagos Direto ao Cidadão
Exercício 2009
Bolsa Família ----------------------------------- R$ 1.713.492,00
Transferência de Renda - PETI ------------- R$ 150,00

Recursos Recebidos por Ação
Exceto recursos recebidos diretamente pelo cidadão
Exercício 2009

FPM - CF art. 159 ---------------------------------------R$ 3.731.219,44
FUNDEB -------------------------------------------------R$1.495.175,42
PAB Variável - PSF -------------------------------------R$ 471.001,00
PAB Fixo --------------------------------------------------R$ 196.064,94
Apoio Financeiro aos Municípios para Compensação da Variação Nominal Negativa Acumulada dos Recursos Repassados pelo Fundo de Participação dos Municípios -FPM entre os Exercícios de 2008 e 2009 --------------- R$ 122.170,47

Recursos Recebidos por Área
Exercício 2009


Encargos Especiais --------------------------- R$ 5. 425.214,61
Assistência Social ----------------------------- R$ 1.874.872,02
Saúde -----------------------------------------
R$ 701.105,58
Educação ------------------------------------- R$ 213.520,16
O gráfico abaixo apresenta os 11 órgãos concedentes com maior número de convênios no município. Os demais órgãos são apresentados na coluna "Outros". São considerados os convênios do Portal da Transparência do Governo Federal, registrados a partir de 01 de janeiro de 1996. Ipaumirim (CE)
Convênios do Governo Federal com o Município - 1996 a 2009



MINISTERIO DA SAUDE - 10
MINISTERIO DA EDUCACAO - 7
MINISTERIO DAS CIDADES - 3
MINISTERIO DA INTEGRACAO NACIONAL - 2
MINISTERIO DO TURISMO - 2
MINISTERIO DA CULTURA - 1
MINISTERIO DO DESENVOLVIMENTO AGRARIO - 1
Outros - 0

O gráfico abaixo apresenta os 11 órgãos concedentes com maior somatório de valores liberados dos convênios no município. Os demais órgãos são apresentados na coluna "Outros". São considerados os convênios do Portal da Transparência do Governo Federal, registrados a partir de 01 de janeiro de 1996.

Valor total liberado por órgão concedente
Soma dos valores liberados dos convênios estabelecidos no município, desde 1996, agrupados pelo órgão concedente.


Valor total liberado por órgão concedente
MINISTERIO DA SAUDE - R$ 592.222,77
MINISTERIO DO TURISMO - R$ 191.400,00
MINISTERIO DA INTEGRACAO NACIONAL - R$ 175.000,00
MINISTERIO DO DESENVOLVIMENTO AGRARIO - R$ 150.000,00
MINISTERIO DA EDUCACAO - R$ 120.452,06
MINISTERIO DAS CIDADES - R$ 50.000,00
MINISTERIO DA CULTURA - R$ 40.000,00
Outros - R$ 0,00
Acessado em 22.12.2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A tapetada da ignorância ou os novos ovos da serpente

As mídias vêm divulgando uma nova moda, que contaria com muitos adeptos. Ela consiste em enrolar tapetes dos automóveis, transformando-os em cassetetes improvisados. Estes são manejados por jovens, que se divertem com os efeitos dos golpes desferidos no corpo de desavisados, pedestres ou ciclistas. Estes jovens são os novos ovos da serpente.
Luís Carlos Lopes

As mídias vêm divulgando a nova moda, que contaria com muitos adeptos e admiradores. Ela consiste em enrolar os tapetes dos automóveis, transformando-os em cassetetes improvisados. Estes são manejados por jovens, que se divertem com os efeitos dos golpes desferidos no corpo de desavisados, pedestres ou ciclistas que circulam no espaço público. A ‘brincadeira’, fortemente ofensiva, consiste em fazer o outro sentir uma dor intensa. Pelo menos em um caso, a tapetada foi acompanhada de outras agressões racistas feitas a um homem negro.

Os alvos são os passantes, aqueles que ousam dividir o espaço das cidades com os demais membros da população. Os eventos são filmados e depois divulgados na Internet, com muito orgulho e sensação do dever cumprido. Os tapeteiros têm muitos fãs, como se pode ver nas redes de relacionamento. Ao que parece, eles se acham o máximo e desconhecem qualquer regra de convivência e respeito social. Existem os que fazem, os que ajudam e os que aprovam tal barbaridade. Eles batem em moças – Será que existe algum teor sexual no comportamento deles? –, rapazes e em qualquer outro alvo que lhes pareça ‘merecedor’ de uma tapetada.

Estes novos agressores criptofascistas nada tem a ver com a sapatada iraquiana em Bush e com o doido que agrediu o Berlusconi. Não são atos cometidos por pessoas insatisfeitas com a ordem. Ao contrário, os tapeteiros têm mais a ver com os que agridem verbalmente ou fisicamente mulheres, negros, índios, mendigos e homossexuais. São filhos de um certo humor televisivo baseado no preconceito e no sofrimento do outro. Acreditam que estão acima de todos e podem fazer o que bem entendem. Divertem-se com a dor alheia, tal como todos que conseguem achar graça das diferenças, das tragédias e das misérias humanas.

Certamente, eles têm automóveis e alguns recursos. Há provas que vários são estudantes de nível superior de escolas privadas. Alguns freqüentam cursos que lhes darão diplomas impossíveis de serem acessados pela maioria dos estudantes brasileiros. Moram, comem e bebem sem nenhum problema. Eles têm tempo livre à vontade para vadiar por aí, buscando encontrar um sentido, mesmo que negativo, para suas vidas. Vão da ação violenta à sua divulgação na Internet em minutos.

Eles não conhecem o real significado da expressão direitos humanos e têm raiva de quem lembra da mesma. Acham que são mais brasileiros do que os que agridem, não demonstrando qualquer culpa ou remorso. Mesmo assim, como são, em sua maioria, brancos e socialmente bem situados, conseguem ter um tratamento diferencial quando são pegos. Não há registro que suas famílias deixem de apoiá-los ou exerçam qualquer tipo de controle de seus comportamentos violentos. Flutuam na atmosfera de uma sociedade baseada na diferença extrema, na baixa cultura e na falta de inteligência e de compaixão.

Estes jovens são os novos ovos da serpente. Representam o que há de pior na sociedade brasileira. Aqueles que, dependendo da evolução da história do país, estarão prontos para tentar impedir qualquer mudança e para garantir seus privilégios de classe. Estão sendo chocados e se preparando para um possível embate no futuro. O que fazem hoje, talvez seja uma pequena amostra do que poderão fazer em outro contexto. Só é possível evitar isto, se desde hoje a vigilância democrática esteja atenta para as manifestações ainda líquidas de um fascismo que poderá se solidificar, dependendo de quem estiver no poder central.

O estímulo à leitura e ao consumo da obra de arte de qualidade - popular e erudita - são antídotos a ser considerados. A Internet, por exemplo, é um meio de comunicação, onde há de tudo um pouco. Eles trafegam no lixo, mas poderiam usar o mesmo meio para acessar as conquistas da filosofia, das artes e das ciências. É tecnofobia demonizar o meio. O problema está no modo que eles são capturados para usá-lo.

Na verdade, eles vieram do consumo de uma televisão de baixíssima qualidade e de outras mídias também pouco edificantes. Hoje, estes jovens encontram na Internet os mesmos vícios e problemas, potencializados pela interatividade. Não é difícil que eles acreditem que o mundo é só o que eles e suas redes intersubjetivas imaginam como o único e possível.

Eles pouco ou nada ouvem, vêem ou lêem comunicando o combate aos preconceitos tradicionais da sociedade brasileira. Não sabem o que são exatamente o racismo, o sexismo, a homofobia, o idadismo e o terrível e secreto preconceito contra a inteligência. Certamente, não compreendem que a pobreza não é um destino e sim um problema político.

Há razões de sobra para desconfiarem de tudo que cheire a política e para imaginarem que qualquer um interessado nisto é um ladrão. Em suma, estão apartados de um instrumental básico para compreender o mundo em que vivem. São alienados, manipulados pelos mais fortes e manipuladores dos mais fracos que conseguem alcançar.

Luís Carlos Lopes é professor e autor do livro "Tv, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros.