
As coisas incomensuráveis habitam as pequenas delicadezas do amor.
Estão nas miudezas e nos gestos cotidianos dos quais nem nos damos
conta; nos pequenos desejos, na mão pousada sobre ombros descansados,
nas pontas dos dedos que deslizam na nuca amada, na pipoca dividida, nos
abraços despretensiosos, na pia do banheiro ou nos beijos dados na
cozinha vestida de louças de um almoço qualquer.
Estes pequenos gestos e abraços engolem o sexo mais indomado e o
presente mais caro. Não que o sexo e o presente mais lindo não sejam
bem-vindos, mas as pequenas delicadezas têm um poder incrível de
sobreviver ao tempo. Sacanagens são deliciosamente prazerosas, mas a
certeza da conversa a qualquer tempo é ainda mais reveladora e
prazerosa, é ela quem nos afasta da solidão das multidões, que nos
transmite certezas, se é que estas existem, de que as coisas seguem por
um caminho quase perfeito.
O riso solto e sem protocolos conseguidos com o aumento da
intimidade, sem os quais a gente murcha um pouco, está nestas pequenas
delicadezas. São estas miudezas do amor que nos engrandecem e muitas
vezes a gente sequer se dá conta disto.
O amor é cheio de vocações desconhecidas e conexões profundas e
delicadas. Pequenas delicadezas são na verdade a mais profunda forma de
amor e que nos é revelada, também, em pequenas coisas.
Há momentos na vida em que ficamos por um triz, temos vontade de
chorar, gritar, bater; do mesmo modo temos vontade de dividir alegrias,
belezas, conquistas, mas quando vamos desmoronar queremos conosco ou do
outro lado da linha, aquele que dividiu com a gente as pequenas
delicadezas; é nesta pessoa que pensamos, é neste colo que queremos
descansar. É naquela conexão profunda e delicada que mora o sossego dos
nossos anseios.
Às vezes esta pessoa só precisa dizer um “alô” para o mundo ficar
reconhecível outra vez. É que as coisas incomensuráveis da vida moram
nas lembranças, gestos e amores gentis.
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