
Camilo Gomide – Não se iluda com a modernidade. A geopolítica do século XIX continua a alimentar caos e conflitos no século XXI
Ao contrário do que alguns estudiosos modernos esperavam, a
aproximação das nações promovida pela tecnologia e a globalização, assim
como a democratização induzida pela internet, são fatores bem menos
influentes das relações internacionais do que as disputas por
territórios, os dogmas ideológicos e religiosos, a busca de recursos
naturais, como água e petróleo, e as vantagens geográficas estratégicas.
Basta olhar em volta.
Nos últimos meses, uma escalada crescente de tensão e
conflitos escancou a fragilidade de acordos e leis internacionais. Na
Ucrânia, o governo da Rússia reconquistou a Crimeia, uma antiga área
estratégica. No Oriente Médio, Israel deslanchou nova operação militar
em Gaza, contra o movimento islâmico Hamas. Guerras de motivação étnica e
religiosa esfacelam o Iraque, a Síria, a Líbia, a República Central da
África e o Sudão do Sul.
No mundo pós-Guerra Fria havia a expectativa de que o nacionalismo
e a expansão territorial fossem deixados de lado em favor
do desenvolvimento econômico mútuo e da defesa de valores universais.
Belas palavras. Na verdade, o que prevalece nas relações entre as nações
ainda é a lógica de que cada país (ou grupo miliatar) deve forçar os
limites para satisfazer seus próprios interesses até onde pode.
A crise na Ucrânia nos remete diretamente à febre alta da Guerra
Fria. “Quando a União Soviética acabou, a Rússia voltou a seu perímetro
de segurança, mergulhou em crise, passou por uma reestruturação forte,
mas acabou não sendo absorvida como deveria por EUA e União
Europeia”, explica Leonardo Valente, doutor em relações internacionais
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O velho sobre o novo
Na recente anexação da Crimeia pela Rússia o que o presidente russo
Vladimir Putin fez foi usar a geografia a seu favor, garantindo a posse
sobre os portos de água quente da península. Por mais que o Ocidente
tente atrair para a sua órbita países da ex-União Soviética, como a
Ucrânia, essas nações ainda têm forte identificação étnica com a Rússia,
a nação mais poderosa na região. “Em vez de atrair a Rússia, e promover
um jogo de colaboração com ela, o Ocidente procurou reduzir a sua
esfera de influência. A Rússia é uma grande potência e não pode ser
tratada como um país médio. Esse é o erro”, diz Valente.
Alguns estudiosos assinalaram que a crise na Ucrânia induzindo os EUA
e a União Europeia a anunciar sanções econômicas contra a Rússia,
reativou uma “nova guerra fria”. Mas, embora haja uma confrontação entre
os mesmos atores que protagonizaram a polarização geopolítica que
marcou o fim da Segunda Guerra Mundial, o contexto é outro.
“Essa é uma análise muito superficial da situação. Na época da Guerra
Fria, nos anos 50, 60 e 70, você tinha a ameaça de um conflito nuclear,
a luta pela expansão do comunismo, de um lado, e a expansão do
capitalismo de outro”, afirma o ex-embaixador Rubens Barbosa.
É improvável que os cenários das grandes guerras do século XX voltem a
se repetir. A invenção de poderosas armas de destruição em massa tornou
os atores globais mais cautelosos. Desde a Segunda Guerra Mundial,
todos sabem que um terceiro conflito em alta escala, envolvendo
armamento nuclear, seria uma catástrofe.
Mas acreditar que os poderes da lei e da informação são capazes de
domar as forças geográficas é uma ilusão. Ocorre o contrário,
a tecnologia exacerba a geografia tornando-a mais preciosa e
claustrofóbica, como na disputa pela posse do petróleo no Iraque e na
Líbia, pelos portos da Crimeia e o controle sobre a água na Faixa de
Gaza.
Os poderes democratizantes da tecnologia também foram superestimados.
Durante meses, por exemplo, celebrou-se a Primavera Árabe, no Oriente
Médio e norte da África, como o nascimento da democracia em territórios
dominados por regimes autoritários fundamentalistas. Havia a forte
impressão de que essa conquista só se tornara possível graças à
internet.
De fato, a rede foi uma facilitadora do processo, ampliando os meios
de expressão, mas os fenômenos que impulsionam os movimentos sociais
independem dela. O que se seguiu às manifestações na maioria desses
países islâmicos foram crises profundas e sangrentas guerras religiosas e
étnicas na Síria, no Iêmen, na Líbia, no Iraque e uma nova ditadura no
Egito.
Cisma religioso
Embora apresentem particularidades específicas, os vários conflitos
no Oriente Médio têm motivações religiosas e disputas territoriais em
comum. A operação militar desfechada por Israel na Faixa de Gaza, em
julho, expôs uma das maiores feridas da região. Milhares de civis
palestinos foram mortos pelo Exército israelense. Centenas de mísseis
foram jogados em Israel, que dispõe de mais protecão tecnológica (42). A
nação judaica culpa o Hamas, movimento islâmico dominante na Palestina,
por usar a população como escudo humano contra os ataques. A
desproporcionalidade de forças e de vítimas entre um lado e outro é
chocante. Até o fechamento dessa reportagem, 1.867 palestinos haviam
morrido e mais de 7 mil foram feridos. De acordo com a ONU, mais de 80%
das vítimas fatais do lado palestino são civis (entre elas, 251
crianças), contra 67 mortos israelenses, dos quais 64 eram soldados.
Desde sua criação em 1948, o Estado israelense tem se expandido na
região sobre um território originalmente palestino, sufocando 1,5 milhão
de árabes com recursos limitados (como água), em zonas ocupadas ou
vivendo em guetos. Boa parte do território vem sendo sistematicamente
ocupado por assentamentos de colonos judeus, amparados por Israel, que
reivindicam direitos territoriais históricos e religiosos.
Eis a confirmação da atualidade da geopolítica clássica fundada
em 1905 pelo sueco Rudolf Kjélle, inspirada na Geografia Política, de
1897, do geógrafo alemão Freidrich Ratzel. Em Israel, o Estado age
como organismo que mobiliza a sociedade para o objetivo comum da
defesa territorial, garantindo a sua coesão por meio da união do povo ao
solo.
Ao contrário do movimento Al Fatah, que negociava termos de paz com
Israel, o Hamas não reconhece a existência territorial do Estado
sionista. O atual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu,
ligado ao partido conservador Likud, por seu lado, também não parece
disposto à conciliação. Há um ano, Netanyahu se negava a negociar com
Mahmoud Abbas, líder do Fatah, por esse não representar o Hamas. Mas, em
junho, quando Abbas organizou com o Hamas um governo de unidade, os
israelenses se sentiram ameaçados e Netanyahu se recusou a dialogar com o
governo “associado a um movimento terrorista”. “A tragédia dessa região
é que os dois lados se sentem com absoluta razão. Assim não há espaço
para a colaboração”, analisa o diplomata brasileiro Marcos Azambuja.
A esperança é que o crescimento da percepção mundial sobre situações
insustentáveis como a do Oriente Médio contribua para a resolução do
conflito. Mas, seja em que século for, os motivos para deflagrar uma
guerra continuam basicamente os mesmos. A propósito, o embaixador
Azambuja gosta de lembrar uma frase do ex-presidente norte-americano
Harry S. Truman: “O que parece novo é a história que você não leu”.
http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/comportamento/velha-desordem-mundial
Fonte: http://controversia.com.br/12744
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