quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Amanheci assim


 
CANTIGA DA LUCIDEZ INDESEJADA
(Ladjane Bandeira)
 

Meu Deus, não me faças lúcida
 
Que teus pássaros não são.
 
Se quiseres serei fada
 
Como a que vi desenhada
 
No livro do meu irmão.
 
Mas só não me faças lúcida
 
Que meus desejos não são.
 
Também não me tornes anjo
 
Que as asas me pesariam
 
Eu buscaria nas flores
 
A causa dos meus ardores
 
E as flores me negariam.

Então não me tornes anjo
 
Que as flores me perderiam.
 
As estrelas moram longe
 
Mas eu não quero as estrelas
 
Dá-me os pássaros e o rio
 
Dá-me as estações do estio
 
Que eu seu pra que vou querê-las
 
Que aquelas que moram longe

Eu me contento com vê-las.
 
Mas não, não me faças santa
 
Que eu não poderia ser
 
É preciso ter crescido
 
Ter pecado e arrependido:
 
É fazer pra desfazer.
 
Ai, não, não me faças santa
Que eu nem sei o que é viver
E dizem que pra ser santa
A gente morre pra vida
Mas eu não quero morrer.
Meu Deus, não me faças lúcida
Que meus receios não são
E nem dês as estrelas
Deixa, pois, que por sofrê-las
As tenhas sofrido em vão.


Mas nunca me faças lúcida
Que meus desejos não são.
 
E não me ponhas aureola
 
Que por usá-la constante
 
 Me daria obrigação.

 

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