terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O real significado do Natal



publicado em recortes por João Lopes

Que o Natal traga o que Jesus trouxe à humanidade: o amor. Aquele amor mais livre e libertador que imaginá-lo em nossa época, cega pelo egocentrismo, parece loucura.


Modernamente o Natal ultrapassou as fronteiras do cristianismo – religião histórica que instituiu a data – e ganhou espaço no mundo secular como mais um momento de consumo e, secundariamente, alguma reflexão e comunhão entre famílias e pessoas não necessariamente cristãs, o que é feito em torno do consumo de qualquer maneira.

Originalmente, a data em que hoje se celebra o Natal - 25 de dezembro - era o dia de comemoração ao Deus Sol, no solstício de inverno, que, no século III, foi incorporada pela Igreja Católica a fim de estimular a conversão dos povos pagãos que viviam sob o domínio do Império Romano. Nos países eslavos e ortodoxos a data é comemorada em 7 de janeiro, pois seguem o calendário juliano.

A partir do século III, então, a data torna-se o momento de comemoração pelo nascimento de Jesus de Nazaré: figura histórica mundialmente conhecida que foi capaz de dividir o modo como contamos a história no mundo ocidental. É ele, pois, a centralidade do que se chama de Natal (do latim nāscor, nascer), a festa dá-se em comemoração ao seu nascimento. Sabidamente, não se conhece com exatidão a data do nascimento de Jesus – trata-se apenas de data simbólica.

Algumas pessoas, tanto seguidores do Jesus - também chamado Cristo - quanto não seguidores, podem se perguntar: qual a relevância do pensamento dessa figura histórica Jesus? E essa pergunta se torna realmente importante, sobretudo para aqueles que não compreendem Jesus como um redentor, um salvador da alma, alguém enviado para nos levar ao paraíso. 


A centralidade do pensamento do Nazareno não foi a compaixão ou a felicidade eterna, como acreditam alguns estudiosos; e como afirmou o próprio Nietzsche, em sua crítica mais veemente ao cristianismo, O Anticristo, ser a compaixão o mais nocivo vício. Jesus foi um líder, enquanto compreendido apenas como personalidade histórica, da supremacia do amor. E de qual “amor” estamos tratando ao rememoramos o amor ensinado pelo Cristo? E antes de tratarmos propriamente da resposta, que subverte as lógicas que até então existiam, vale rememorar dois clássicos da filosofia grega que discorreram sobre o amor muito antes de Jesus: Aristóteles e Platão. Assim teremos bons parâmetros para perceber com maior sensibilidade a essência do pensamento deste homem que anualmente nos dá alguns dias de feriado.

O amor de Platão, em termos gerais, é o amor centrado na beleza do caráter, na inteligência de alguém, o que vai ao encontro do amor no conceito de Sócrates, é o amor como sendo a raiz de todas as virtudes e também da verdade. É o amor manifestado na ausência, na falta; o amor que se apresenta mesquinho, do desejo, que se expressa pelo apego. Já para Aristóteles, em termos gerais, o amor é manifestado na presença, é o amor da alegria do encontro com o objeto amado, aquele que se dá pelo atrito. É o amor que traz alegria, leva o homem à perfeição – excelência moral – como acreditava o filósofo.

Finalmente, o conceito de amor de Jesus ganha destaque por dar ao outro a completa primazia. Nas palavras do filósofo Clóvis de Barros Filho “O amor de Jesus é o amor que vai na contramão da animalidade; é o amor que interrompe um nexo normal e material de causalidades, porque quando se dá a outra face deixa-se claro que nem tudo é uma sequência causal-mecânica, pelo menos pode não ser”. Em outras palavras, o amor ensinado por Jesus é aquele em que se considera o outro a partir do modo como consideramos a nós mesmos. A Lei de Talião (reciprocidade rigorosa do crime e da pena) que vigorava à época de Cristo definia algo completamente diferente disso: era a regra do olho por olho.

A mensagem de Jesus, precisamente, sobre o amor, nos ensina a recuar, suportar, não responder mecanicamente nas nossas relações com as outras pessoas, escolher o modo como consideraremos cada ação que nos afete, e não apenas exercer uma atitude de revanchismo. Algo que parece inocente, se tomarmos apenas a concepção simplória das palavras, mas não precisamos refletir muito para observar o modo como nos destruímos pela ausência de um olhar mais compreensível sobre os outros.

O próprio Jesus, quando esteve vivendo em meio a sua cultura, deu um apanhado de exemplos, que contém princípios basilares do pensamento cristão, para o que alguém poderia chamar de vida feliz, ou no sentido filosófico do termo, afirmação da vontade de potência. Ele mesmo subverteu a lógica das leis religiosas de sua época e as resumiu em uma máxima que não poderia ser esquecida em nenhum Natal – sob pena de perder-se todo o sentido deste dia: amar a cada pessoa como se ama a si mesmo. Estabelecendo o conceito máximo de humanidade – em que todos nós somos compreendidos como parte de um todo.

Na época em que viveu, Cristo chocou os religiosos ao se recusar a confirmar e praticar leis que não continham princípios de amor, e andar com as pessoas de pior reputação: em sua companhia estavam doentes intocáveis por costumes religiosos, prostitutas, cobradores de impostos, ladrões, corruptos, pobres e marginalizados de todo tipo, atraídos pelo seu perdão, amor e generosidade inigualáveis, pelos seus ensinamentos que traziam paz e consolo. Jesus não foi um pregador de felicidade. Não nos ensinou passos para uma vida feliz, em que realizações comuns seriam o encontro do significado da vida, mas no remeteu em todos os momentos ao amor, desse modo mais significativo, em que alguma concepção de felicidade consistiria em um caminho de amor, que representa abrir mão de si mesmo em favor do outro, no altruísmo mais elevado que significou para ele perdoar, no momento da sua morte, aqueles mesmos que o matavam.

 
Certamente não se trata de um caminho de amor fácil. Tamanho o desprendimento que se exige. Talvez ele tenha ensinado o seu modo de amar para espíritos mais elevados, no entanto é necessário, antes de assim considerarmos o seus ensinamentos, fazermos uma última reflexão.

Compreendermos o modo de amar ensinado pelo Cristo passa pela compreensão do valor. Se um gato arranha o outro, este revida com outro arranhão àquele, não há valor para eles, reagem puramente com seus instintos. Assim, podemos considerar nossa humanidade, possuímos valores. E sabermos que somos, na natureza inteira, os únicos seres com consciência capazes de refletirmos sobre nós mesmos, inclusive sobre a finitude de nossa existência, nos confere uma espécie de superioridade: a de amar.

Somos parte da humanidade, e embora estejamos em uma relação de interdependência com o resto da natureza, possuímos essa capacidade cognitiva, de reflexão antes de agirmos, não somos o mero instinto de sobrevivência. Não precisamos viver em conflito uns com os outros como único modo de garantir alguma convivência em sociedade. O agir humano sem nenhuma reflexão madura de amor, ou mesmo altruísmo, está nos destruindo. 


Pensem como seria um mundo em que cada pessoa fosse capaz de sair do egocentrismo de suas vontades e desejos para considerar as outras pessoas. Um olhar amoroso sobre cada pessoa, e sobre toda a humanidade – a consideração de que somos esses seres imperfeitos, que podem agir por instintos ruins, mas que atingiremos a maturidade necessária em algum momento, pelo aprendizado e fomento da paz, pela construção não de uma cultura de felicidade, mas sim de amor.

Não haverá melhor Natal que aquele em que o nosso comprometimento for completo com um modo de amar que não seja egoísta, que não amordace a criatura amada, mas a considere em sua totalidade, como parte da nossa humanidade, como parte do que somos por isso também objeto do nosso amor e, consequentemente, até o pior dos homens merecerá ser amado. Experimente fazer um Natal diferente à moda daquele que esquecidamente celebramos. Feliz Natal.

Fonte: © obvious:
http://lounge.obviousmag.org/canteiro/2014/12/o-real-significado-do-natal.html#ixzz3MmFnwHXm Follow us:
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

Som do domingo


CANTE

Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por quê
A noite é muito longa
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer
Será que alguma coisa
Nisso tudo faz sentido
A vida é sempre um risco
Eu tenho medo do perigo
Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê
O mundo é muito injusto
Eu dou plantão dos meus problemas
Que eu quero esquecer
Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos esse instante
Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites
De suspense no meu quarto 

Kid Abelha 

Lágrimas e Chuva





CANTE

Preciso Dizer Que Eu Te Amo

Cazuza

Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei em que hora dizer
Me dá um medo, que medo

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo tanto

E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo tanto

Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando em cada gesto teu
Uma bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira

Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo tanto
Diego Rivera - Casa sobre el puente (1909)

ESPECIAL Uma revolução franciscana

Com diplomacia e carisma, papa influencia mundo dentro e fora da Igreja

Francisco convida à participação:

Francisco convida à participação: "todos têm dons a oferecer"

Edmar Melo / JC Imagem

Carismático. Polêmico. Revolucionário. Em um ano e meio de pontificado, o papa Francisco I consolidou espaço para além da Igreja Católica, mediando a paz entre Cuba e EUA, acolhendo fiéis até então apartados de sua fé e combatendo, de forma enérgica, as mazelas internas da congregação. De hoje até terça-feira, o JC publica uma série sobre o mais importante líder político da atualidade, celebrando sua disposição para o diálogo e seu exemplo de vida.

Francisco tem poder. E quem quer que duvidasse da extensão desse dom teve que aceitar o fato, nesta última semana, ao vê-lo fazer ruir um dos últimos bastiões da Guerra Fria, reunindo Estados Unidos e Cuba. “Ele nos desafia, nos põe diante dos olhos o perigo de nos acostumarmos com a desigualdade e, com uma só frase, atrai a atenção de todo o planeta”, reverenciou-o o presidente americano Barack Obama, até então descrito como o líder mais poderoso do mundo.
Obama já pediu a ajuda do papa em outras questões complicadas, como a tensão com o governo da Venezuela e a guerra entre judeus e palestinos. E Francisco não se nega a essas grandes missões, embora também se dedique às falsamente pequenas. Abriu mão da pompa cerimonial em sua primeira aparição como papa, vestindo apenas uma singela batina branca e desprezando os itens suntuosos que representariam a dignidade do Sumo Pontífice. Optou por não ocupar o Palácio Apostólico e sim morar junto com outros religiosos na Casa de Santa Marta, alegando que “se eu mudar na minha idade, com certeza vou fazer um papel ridículo”.
Numa sucessão de atos simbólicos de grande impacto, batizou o filho de uma mãe solteira, lavou e beijou os pés de criminosos nas prisões e condenou a marginalização dos homossexuais. Qual será a próxima surpresa do papa?, perguntam-se todos. E Francisco dá mostras de constante criatividade ao ampliar os limites do que sua posição poderia fazer supor.
Do alto de sua formação jesuítica, o papa conquista corações e mentes pelas histórias que conta, pela simplicidade de seu modo de vida, pelo bom humor. Mescla em seu nome São Francisco de Assis – símbolo da fraternidade, humildade e dedicação aos pobres – , São Francisco Xavier – missionário e evangelizador jesuíta –, e o eremita São Francisco de Paula, contrário aos abusos eclesiásticos e defensor dos mais puros valores cristãos. 
Francisco é múltiplo: agrega, não divide. E mesmo na posição de grande líder espiritual da mais poderosa congregação religiosa em atividade no mundo, busca a humildade. Rezem por mim, pediu em seu discurso de posse. Rezem por mim, suplicou ao receber a notícia da morte de um sobrinho querido. Rezem por mim, repetiu ao completar um ano de papado e ao se despedir da multidão de fiéis brasileiros, após a Jornada da Juventude. 
Ele choca os católicos mais puristas ao não reivindicar a propriedade da fé
Uma das facetas mais impressionantes do papa, que é a abertura ao diálogo com outras religiões, se traduz também numa “ausência de posse” sobre Deus. Ele não se investe de verdades absolutas e choca os católicos mais puristas ao não reivindicar a propriedade da fé, afirmando que “Jesus morreu por todos”. 
Francisco ousa mais, quando declara que os ateus, e até mesmo os animais de estimação, também podem ir para o Céu. E chega a classificar características historicamente vistas pela Igreja e por grande parte da sociedade como “falhas” a serem reparadas (caso da homossexualidade) como “surpresas de Deus”. “Todos têm dons a oferecer”, decreta. E aos poucos, divorciados, gays e outros fiéis desiludidos com a postura da congregação regressam aos bancos das missas, animados com o novo clima.
Ele virou personagem da mídia, é retratado por grafiteiros nas ruas de Roma e em suvenires vendidos em Buenos Aires. Suas homilias são replicadas nas redes sociais. Adolescentes vão ao Vaticano tirar selfies com o papa, que é mais do que pop. É alguém com quem se tem a impressão de intimidade, confiança. E sua principal contribuição diz respeito à leveza e à alegria, o que está explícito numa de suas mais importantes mensagens até o momento, o Evangelho Gaudium – onde conclama a participação de todos numa Igreja viva, profética, na qual os sacerdotes vão ao encontro dos que precisam dela. 
Há quem critique o fato de que existe uma grande lacuna entre o belo discurso libertário de Francisco e a realidade praticada pelos clérigos católicos em todo o mundo. Há muito o que mudar para que as palavras se traduzam em fatos, em mudança. Que ele enfrenta oposições de variados setores, é algo que também não precisa ser discutido. Porém, o milagre de mudar um pouco da estrutura católica, cristalizada através dos séculos, aparentemente está em curso.
Fonte: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/mundo/internacional/noticia/2014/12/21/uma-revolucao-franciscana-161398.php

A velha desordem mundial

A velha desordem mundial
 

Camilo Gomide – Não se iluda com a modernidade. A geopolítica do século XIX continua a alimentar caos e conflitos no século XXI
Ao contrário do que alguns estudiosos modernos esperavam, a aproximação das nações promovida pela tecnologia e a globalização, assim como a democratização induzida pela internet, são fatores bem menos influentes das relações internacionais do que as disputas por territórios, os dogmas ideológicos e religiosos, a busca de recursos naturais, como água e petróleo, e as vantagens geográficas estratégicas. Basta olhar em volta.
Nos últimos meses, uma escalada crescente de tensão e conflitos escancou a fragilidade de acordos e leis internacionais. Na Ucrânia, o governo da Rússia reconquistou a Crimeia, uma antiga área estratégica. No Oriente Médio, Israel deslanchou nova operação militar em Gaza, contra o movimento islâmico Hamas. Guerras de motivação étnica e religiosa esfacelam o Iraque, a Síria, a Líbia, a República Central da África e o Sudão do Sul.
No mundo pós-Guerra Fria havia a expectativa de que o nacionalismo e a expansão territorial fossem deixados de lado em favor do desenvolvimento econômico mútuo e da defesa de valores universais. Belas palavras. Na verdade, o que prevalece nas relações entre as nações ainda é a lógica de que cada país (ou grupo miliatar) deve forçar os limites para satisfazer seus próprios interesses até onde pode.
A crise na Ucrânia nos remete diretamente à febre alta da Guerra Fria. “Quando a União Soviética acabou, a Rússia voltou a seu perímetro de segurança, mergulhou em crise, passou por uma reestruturação forte, mas acabou não sendo absorvida como deveria por EUA e União Europeia”, explica Leonardo Valente, doutor em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O velho sobre o novo

Na recente anexação da Crimeia pela Rússia o que o presidente russo Vladimir Putin fez foi usar a geografia a seu favor, garantindo a posse sobre os portos de água quente da península. Por mais que o Ocidente tente atrair para a sua órbita países da ex-União Soviética, como a Ucrânia, essas nações ainda têm forte identificação étnica com a Rússia, a nação mais poderosa na região. “Em vez de atrair a Rússia, e promover um jogo de colaboração com ela, o Ocidente procurou reduzir a sua esfera de influência. A Rússia é uma grande potência e não pode ser tratada como um país médio. Esse é o erro”, diz Valente.
Alguns estudiosos assinalaram que a crise na Ucrânia induzindo os EUA e a União Europeia a anunciar sanções econômicas contra a Rússia, reativou uma “nova guerra fria”. Mas, embora haja uma confrontação entre os mesmos atores que protagonizaram a polarização geopolítica que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial, o contexto é outro.
“Essa é uma análise muito superficial da situação. Na época da Guerra Fria, nos anos 50, 60 e 70, você tinha a ameaça de um conflito nuclear, a luta pela expansão do comunismo, de um lado, e a expansão do capitalismo de outro”, afirma o ex-embaixador Rubens Barbosa.
É improvável que os cenários das grandes guerras do século XX voltem a se repetir. A invenção de poderosas armas de destruição em massa tornou os atores globais mais cautelosos. Desde a Segunda Guerra Mundial, todos sabem que um terceiro conflito em alta escala, envolvendo armamento nuclear, seria uma catástrofe.
Mas acreditar que os poderes da lei e da informação são capazes de domar as forças geográficas é uma ilusão. Ocorre o contrário, a tecnologia exacerba a geografia tornando-a mais preciosa e claustrofóbica, como na disputa pela posse do petróleo no Iraque e na Líbia, pelos portos da Crimeia e o controle sobre a água na Faixa de Gaza.
Os poderes democratizantes da tecnologia também foram superestimados. Durante meses, por exemplo, celebrou-se a Primavera Árabe, no Oriente Médio e norte da África, como o nascimento da democracia em territórios dominados por regimes autoritários fundamentalistas. Havia a forte impressão de que essa conquista só se tornara possível graças à internet.
De fato, a rede foi uma facilitadora do processo, ampliando os meios de expressão, mas os fenômenos que impulsionam os movimentos sociais independem dela. O que se seguiu às manifestações na maioria desses países islâmicos foram crises profundas e sangrentas guerras religiosas e étnicas na Síria, no Iêmen, na Líbia, no Iraque e uma nova ditadura no Egito.

Cisma religioso

Embora apresentem particularidades específicas, os vários conflitos no Oriente Médio têm motivações religiosas e disputas territoriais em comum. A operação militar desfechada por Israel na Faixa de Gaza, em julho, expôs uma das maiores feridas da região. Milhares de civis palestinos foram mortos pelo Exército israelense. Centenas de mísseis foram jogados em Israel, que dispõe de mais protecão tecnológica (42). A nação judaica culpa o Hamas, movimento islâmico dominante na Palestina, por usar a população como escudo humano contra os ataques. A desproporcionalidade de forças e de vítimas entre  um lado e outro é chocante. Até o fechamento dessa reportagem, 1.867 palestinos haviam morrido e mais de 7 mil foram feridos. De acordo com a ONU, mais de 80% das vítimas fatais do lado palestino são civis (entre elas, 251 crianças), contra 67 mortos israelenses, dos quais 64 eram soldados.
Desde sua criação em 1948, o Estado israelense tem se expandido na região sobre um território originalmente palestino, sufocando 1,5 milhão de árabes com recursos limitados (como água), em zonas ocupadas ou vivendo em guetos. Boa parte do território vem sendo sistematicamente ocupado por assentamentos de colonos judeus, amparados por Israel, que reivindicam direitos territoriais históricos e religiosos.
Eis a confirmação da atualidade da geopolítica clássica fundada em 1905 pelo sueco Rudolf Kjélle, inspirada na Geografia Política, de 1897, do geógrafo alemão Freidrich Ratzel. Em Israel, o Estado age como organismo que mobiliza a sociedade para o objetivo comum da defesa territorial, garantindo a sua coesão por meio da união do povo ao solo.
Ao contrário do movimento Al Fatah, que negociava termos de paz com Israel, o Hamas não reconhece a existência territorial do Estado sionista. O atual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ligado ao partido conservador Likud, por seu lado, também não parece disposto à conciliação. Há um ano, Netanyahu se negava a negociar com Mahmoud Abbas, líder do Fatah, por esse não representar o Hamas. Mas, em junho, quando Abbas organizou com o Hamas um governo de unidade, os israelenses se sentiram ameaçados e Netanyahu se recusou a dialogar com o governo “associado a um movimento terrorista”. “A tragédia dessa região é que os dois lados se sentem com absoluta razão. Assim não há espaço para a colaboração”, analisa o diplomata brasileiro Marcos Azambuja.
A esperança é que o crescimento da percepção mundial sobre situações insustentáveis como a do Oriente Médio contribua para a resolução do conflito. Mas, seja em que século for, os motivos para deflagrar uma guerra continuam basicamente os mesmos. A propósito, o embaixador Azambuja gosta de lembrar uma frase do ex-presidente norte-americano Harry S. Truman: “O que parece novo é a história que você não leu”.
Texto postado originalmente em:
http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/comportamento/velha-desordem-mundial

Fonte:  http://controversia.com.br/12744

Vox Populi: Opinião pública condena todos os partidos




Segundo instituto, 60% acham que governos Lula e Dilma foram mais rigorosos do que FHC (11%) contra corrupção. E dois terços dos entrevistados consideram que há pessoas de todos os partidos enroladas na estatal
São Paulo –Uma pesquisa feita pelo instituto Vox Populi entre os dias 5 e 8 de dezembro apurou que, para 69% dos entrevistados que se consideram informados sobre a crise na Petrobras, as irregularidades na estatal vêm de antes dos governos do PT. Para 7% dos entrevistados, só o PT teria gente envolvida no escândalo e outros 18% responderam que o PT e os partidos da base governistas. Já para dois terços dos pesquisados “todos os partidos, incluindo o PSDB, o PSB e o DEM”, estariam envolvidos, segundo o diretor do instituto, Marcos Coimbra, em artigo publicado na revista Carta Capital desta semana.
Coimbra revela ainda que a pesquisa pediu a opinião sobre qual dos três últimos presidentes da República “mais combateu a corrupção”: 31% responderam Lula, 29% Dilma e 11% Fernando Henrique Cardoso, enquanto 29% disseram “não saber” ou não responderam. “Feitas as contas, 60% escolheram um governante do PT, enquanto FHC nem sequer atinge um quarto do eleitorado que votou no PSDB em outubro”, escreve o analista. A pesquisa entrevistou 2.500 pessoas em 178 municípios. Leia a seguir o artigo completo de Marcos Coimbra na Carta Capital.
A Petrobras e a Opinião Pública
Por Marcos Coimbra, na Carta Capital n˚ 831.
Para quem acompanhou o carnaval da “grande mídia” em torno das pesquisas em 2014, soa estranho o silêncio atual a respeito da crise da Petrobras. Seus veículos trombeteiam o assunto há 3 meses, mas não dedicaram a ele uma única e escassa pesquisa. Exagero. Houve uma, realizada pelo Datafolha no início de dezembro. Ficou famosa pela extravagante manchete gerada a partir da leitura das informações pela Folha de S.Paulo, dona do instituto: “Brasileiro responsabiliza Dilma por caso Petrobras”.
Nenhum outro levantamento foi encomendado. Como se aquele resolvesse a questão e o resultado bastasse. Como se não fosse tão questionável que até a ombudsman do jornal criticaria a despropositada matemática usada pelos editores ao noticiá-la.
Tamanha parcimônia contrasta com o exuberante investimento em pesquisas que a mídia corporativa fez neste ano. Embora tenha sido quase todo bancado pela TV Globo, que financiou as empresas menores, foi uma tal superoferta de pesquisas que, na reta final da eleição presidencial, o cidadão mal conseguia respirar antes de um novo levantamento ser divulgado.
A abundância tinha a ver, é claro, com a torcida para Dilma Rousseff cair nas intenções de voto. Tantas pesquisas refletiam o desejo dos donos de jornal (e seus funcionários) de crescimento de uma das candidaturas a ponto de suplantar a petista. Como sabemos, gastaram dinheiro em vão.
Algo semelhante acontece com as oposições partidárias. Atravessamos o ano a ouvir os líderes oposicionistas citando resultados de pesquisa a torto e a direito: O “desejo de mudança”, a “rejeição ao PT”, a “reprovação do governo”. Seu discurso atual a respeito da crise na Petrobras prescinde, no entanto, de quaisquer referências à opinião pública.
É pena. Todos ganharíamos se ouvíssemos mais e mais frequentemente os cidadãos. Saberíamos o que pensam e compreenderíamos melhor suas manifestações, especialmente as mais importantes, como os resultados eleitorais. Evitaríamos equívocos de interpretação e erros de tomada de posição.
Entre os dias 5 e 8 de dezembro, o Vox Populi fez uma ampla pesquisa nacional, com 2,5 mil entrevistas, distribuídas em 178 municípios. Tratou de vários assuntos e incluiu perguntas sobre a Petrobras.
Ao contrário da tese de alguns próceres tucanos e dos muitos mal informados na sociedade, para os quais a vasta maioria da população ignora o que se passa no Brasil, apenas 13% dos entrevistados não tinham ouvido falar das denúncias de irregularidades na empresa. Em outras palavras, 86% da população as conhecia, sem variações significativas segundo os níveis de escolaridade: 85% entre aqueles com ensino fundamental, 87% no ensino médio e 89% no nível superior.
Entre quem tinha ouvido falar no assunto, 69% acreditavam que “as irregularidades na Petrobras vêm de antes do PT (chegar ao governo federal)”. Dos restantes, 23% disseram achar que “começaram com o PT” e 8% “não sabiam”. Sobre quais partidos estariam “envolvidos nas irregularidades”, 7% dos entrevistados responderam “só o PT” e 18% cravaram “o PT e os partidos da base aliada, como PMDB, PP etc”. Os dois terços restantes disseram que “todos os partidos, incluindo o PSDB, o PSB e o DEM”.
Como se vê, a percepção da grande maioria da opinião pública conflita com o noticiário da mídia hegemônica, que não se cansa de apresentar o PT como o grande vilão no caso. E não poupa as lideranças tucanas, na contramão da imagem de paladinos da moralidade que imaginam possuir.
Aliás, quando a pesquisa pediu a opinião sobre qual dos três últimos presidentes da República “mais combateu a corrupção”, as respostas foram Lula 31%, Dilma 29% e Fernando Henrique Cardoso 11% (os restantes 29% disseram “não saber” ou não responderam). Feitas as contas, 60% escolheram um governante do PT, enquanto FHC nem sequer atinge um quarto do eleitorado que votou no PSDB em outubro.
Por que a mídia prefere não fazer pesquisas sobre o tema? Por que os líderes da oposição se permitem falar ignorando a imagem real que possuem? Hipótese: no fundo, eles não dão o menor valor para o que pensa o cidadão comum.
Fonte: http://jornalggn.com.br/fonte/rede-brasil-atual

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Nossos vizinhos: MEMÓRIA: A RUA LARGA DO ICÓ (ENSAIO)

Imagem: Montagem de Washington Luiz Peixoto Vieira


A Rua Larga do Icó, para as gerações atuais, nitidamente da última década, tem se transformado ou se transfigurado na “Praça do Forricó”. Um sacrilégio a um dos mais antigos logradouros históricos do Ceará. E embora com novas utilidades na cotidianidade perde a sua memória como a estrada geral do Jaguaribe ou a estrada nova das boiadas, como era conhecida no século XVII ao XIX, quando aos poucos vai sendo apropriada pelas habitações e novas utilidades, tais como o mercado público, depois transferido para o local onde encontra no centro comercial e hoje tomada pela grande Igreja de São José e de todas as festividades de grande monta.


Ela também não pode ser designada de "Largo do Théberge ". Ora, quando o famoso médico Pedro Théberge em Icó viveu no século XIX, aquele espaço já existia há duzentos anos, embora Théberge tenha manadado erguer o Teatro e administrado os melhoramentos da Casa de Câmara e Cadeia.

É certo que os tempos são outros e dos velhos tempos do Gado Bovino, quando era por aquele corredor que havia pouso para os vaqueiros, tropeiros e viajantes, com seus comboios. “Das antigas estradas do Ceará colonial, três são de fundamental importância para a compreensão do papel da pecuária na efetiva ocupação do território cearense: a estrada geral do Jaguaribe, a estrada nova das boiadas e a estrada das boiadas. A primeira seguia todo o rio Jaguaribe, do Icó à Aracati. A segunda partia do Rio Grande do Norte, alcançava o rio Jaguaribe e seguia o Anabuiú”. “Chegando em Quixeramobim. Daí partia em duas direções, uma para o lado de Crateús e a outra para o lado Sobral. A terceira alcançava o médio Parnaíba cruzando o sertão cearense. Partia de Icó, passava por Iguatú, Saboeiro, Tauá até o Piauí”. ²

Foi ao longo dessas estradas que de forma geral seguem as margens dos rios (Jaguaribe, Salgado, Acaraú, etc.) foram se estabelecendo as famílias dos colonizadores primitivos do Ceará (à exemplo do Rio São Francisco) e ao longo dos séculos fixaram a sua moradia, vindos de todos os cantos no Nordeste, de Pernambuco ou da Bahia e mesmo de Portugal. Gente que corajosamente embrenhou-se território adentro diante de todas as intempéries das caatingas e de quantas dificuldades advieram. "Aqueles que se aventuraram na empresa do Ceará eram ao mesmo tempo conquistadores, povoadores e colonizadores. Alguns, aventureiros apenas, mas, a maior parte, indivíduos com uma meta, uma vontade de engrandecer a pátria portuguesa e reviver os heroísmos dos primeiros penetradores do solo brasileiro. Carregavam no sangue a herança dos velhos troncos avoengos, a par de uma fé ardente, tanto no fervor da prática religiosa como na crença de que estavam dando um testemunho de tenacidade e firmeza". ³

Nesses territórios desenvolveu-se a cultura do gado e posteriormente a do algodão, que deram bases econômicas ao Ceará, e forneceram à Europa e Estados usidos algumas matérias primas para a sustentação da revolução industrial.

Nesse contexto foi “a cidade do Icó, elevada à condição de vila em 1738, nasceu onde situava-se o arraial da família Monte com uma função eminentemente ligada ao comércio, pois ocupava uma posição estratégica na trama da atividade criatória. Situa-se a meio caminho entre as pastagens do Piauí, no vale do Parnaíba e o porto do Recife, no cruzamento das duas principais estradas das boiadas do Ceará colonial - a estrada geral do Jaguaribe e a estrada das boiadas – o que acentuou a sua importância na rede urbana em formação. Icó segue a lógica das cidades medievais que surgiram com o incremento do comércio e encontravam-se estrategicamente localizadas no cruzamento de dois caminhos. A função comercial de Icó, relacionada em sua origem à atividade criatória, persistiu até à sua estagnação econômica no século XIX. Mesmo com o declínio da economia pastoril em decorrência do surgimento das novas pastagens no sudeste brasileiro, em decorrência das secas de 1777-1778, 1790-1793 e posteriormente, no século XIX, com o aumento da produção algodoeira no vale do Jaguaribe; Icó manteve esta importância”. ²

Desta forma entendo que a Rua Larga merece um resgate de sua memória original talvez se criando ali um memorial ao Vaqueiro, ao gado e ao colonizador primitivo e não se eternizando como a "Praça do Forricó".

REFERÊNCIAS:

1. STUDART FILHO, Carlos. Vias de communicação do Ceará colonial IN : Revista do Instituto do Ceará. TOMO
LI / ANNO LI. Ramos & Pouchain. Fortaleza . Ceará. 1937, citado na obra de Jucá Neto
2. JUCÁ NETO, Clovis Ramiro. No Rumo do Boi - As vilas do Ceará colonial ligadas à pecuária.
3. http://www.angelfire.com/linux/genealogiacearense/index_povoadores.html

Imagem: Montagem de Washington Luiz Peixoto Vieira
Fonte: http://iconacional.blogspot.com.br/2012/04/memoria-rua-larga-do-ico-ensaio.html

O medo das empresas de comunicação


Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Uma das coisas mais interessantes que aprendi lendo "Ab Urbe Condita Libri", de Tito Lívio, foi justamente sobre o medo. O medo é um sentimento comum a todos os homens e, sem dúvida alguma, o maior problema com que se depararam e deparam os comandantes militares. O medo, que pode ser provocado por alguma coisa real ou imaginária, se propaga pelos soldados fazendo-os ficar paralisados e, eventualmente, dar as costas ao inimigo fugindo em desordem. O maior medo de qualquer comandante deveria ter, portanto, era o de perder o controle de seus comandados. 
Os romanos descobriram que a única maneira de fazer isto era obrigar os soldados temerem mais seus comandantes do que os inimigos. As punições impostas aos legionários romanos que agiam como covardes eram cruéis e quase sempre mortais. Antes de uma investida, houve um comandante romano que mandou queimar o acampamento na retaguarda para que os soldados soubessem que se não vencessem os inimigos não teriam para onde voltar.
Quando uma tropa refugava o combate, o comandante submetia-a à dizimação (execução aleatório de um em cada dez soldados). Os soldados acovardados podiam ser enforcados no tronco e vergastados (espancados com varas como se fossem crianças). A punição mais temida pelos soldados romanos, porém, era o banimento do acampamento fortificado (caso em que o soldado ficaria a mercê do inimigo, da fome, do clima e das feras). 
Vencer ou vencer era um lema e para tanto os comandantes romanos sempre colocavam seus soldados entre dois medos: o medo do inimigo e o medo da punição imposta pelo comandante. Além de controlar o medo entre seus comandados, os comandantes romanos faziam de tudo para projetar medo entre os inimigos.   
Ao atacar ferozmente os Blogs as empresas de comunicação (que sofreram perdas econômicas em razão da crescente informatização da economia e da sociedade brasileira) querem projetar medo num adversário mais fraco que tem potencial para se tornar mais forte. O que conseguiram, entretanto, foi exatamente o oposto: quem se sente suficientemente seguro de si não incomoda um adversário supostamente mais fraco que sabe poder destruir completamente quando bem entender. 
O medo das empresas de comunicação é evidente. Mas ele é apenas a ponta de um iceberg de medo enterrado em balanços que provavelmente tem sido  maquiados para permitir sua sobrevivência. Seus donos sabem que se tornaram mais e mais dependentes das verbas estatais de publicidade e que terão que disputá-las com os Blogs num futuro próximo. Antecipando a derrota em razão do temerário ataque que revela apenas seu medo, as empresas de comunicação já se deram por derrotadas. 

Fonte:http://jornalggn.com.br/noticia/o-medo-das-empresas-de-comunicacao

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O significado da indiferença, por Janio de Freitas

da Folha

Por que tantos anos de sofrimento imposto a um povo cujo país nada poderia contra os Estados Unidos?
Os 53 anos do bloqueio americano a Cuba não foram ao regime comunista cubano. Foram a milhões de crianças, e a milhões de mulheres, e a milhões de homens, que compuseram na infância, na juventude, como adultos e como velhos as sucessivas gerações submetidas a mais de meio século do flagelo inútil de carências terríveis.
O regime sobreviveu muito bem, deu-se mesmo ao luxo de derrotar todas as investidas, nas mais variadas formas, que a maior potência bélica não cessou de lhe dirigir. As afirmações de que o regime mudou não são inteligentes, são apenas vulgares. O que mudou foi o mundo, e o regime se adaptou às circunstâncias, como sempre fizera, e por isso sobreviveu. Em Nova York, há 50 anos, ver negros entrando no elevador com brancos era prova de estar na ONU. Hoje a discriminação continua, porque o segregacionismo está na índole do país, mas os brancos vão à Casa Branca (um nome sugestivo) para falar com um negro.
E por que tantos anos de sofrimento imposto a um povo cujo país nada poderia contra os Estados Unidos?
Os motivos do bloqueio e seus antecedentes perderam-se na vaguidão "cultural" da atualidade. Mas não diferem dos outros que têm movido os Estados Unidos mundo afora. Apoiadores da ditadura de Fulgencio Batista --simbolizável nos órgãos genitais mandados à noiva do estudante oposicionista que os perdeu em tortura--, os Estados Unidos exigiam que a revolução democrática de Fidel Castro preservasse os negócios de americanos no seu quintal cubano: a maior concentração de cassinos e bordéis do mundo, bebidas alcoólicas, grandes plantações de cana com mão de obra semiescrava e exportação de açúcar. Cuba era dividida entre negócios e grupos da máfia americana.
Os problemas começaram com o fechamento dos cassinos e bordéis. Os chefes mafiosos haviam sido importantes para a eleição de Kennedy. A escalada foi intensa: reação americana, avanços revolucionários com nacionalizações e com reforma agrária. Kennedy ordenou a invasão, derrotada pelos cubanos, e o bloqueio total a Cuba. Fidel, em seu primeiro grande movimento de manipulação das circunstâncias, compõe-se com a oferta de ajuda da União Soviética, típica da Guerra Fria. Até então, e desde a luta contra Batista, o grupo de Fidel e os comunistas mantinham hostilidade frontal. Também isso mudaria, e mudaria tudo mais.
Dez anos depois da morte de Stálin, o Partido Comunista Cubano conservava o stalinismo em sua forma mais ortodoxa. Integrado a um governo que precisava apegar-se às relações com a União Soviética, o PCC e suas concepções tornaram-se a força predominante na caracterização do regime.
A crise da União Soviética desnorteou o regime cubano, e o fim do comunismo soviético lançou-o em circunstâncias que enfraqueceram a ortodoxia. No tempo das aberturas, o poder voltou ao reformismo, com uma peculiaridade: passou de irmão a irmão, com o sisudo e inflexível Raul retomando o Fidel extrovertido e aberto do princípio. E agora, o papa Francisco, o segundo papa cristão em nosso tempo, com João 23.
A tão longa indiferença americana com o sofrimento de milhões de vítimas do bloqueio não tem originalidade. É a mesma que, em certa manhã de verão, lançou sobre os habitantes de Hiroshima uma tempestade de fogo e gases que os carbonizou, quando o seu país já queria discutir os termos da rendição. E, passadas pouco mais de 48 horas, a mesma indiferença jogou uma segunda bomba atômica, sobre os habitantes de Nagasaki, incandescendo-os todos. É a mesma indiferença que lançou sobre o pequeno Vietnã mais bombas com o fogo pegajoso do napalm do que todas as suas bombas lançadas na Europa e na Ásia durante a Segunda Guerra Mundial. É a mesma indiferença de um país, em palavras recentes do seu presidente, que "está em guerra permanente".
Indiferença pode ser sinônimo de perversão e de perversidade. Significado que, parece provável, os futuros historiadores vão preferir.
http://jornalggn.com.br/noticia/o-significado-da-indiferenca-dos-eua-por-cuba-por-janio-de-freitas

No que consiste o plano para a reaproximação entre EUA e Cuba

Raúl Castro e Barack Obama fizeram seus pronunciamentos nesta quarta-feira 

Os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, deram início a um processo de reaproximação entre os dois países após mais de 50 anos de relações cortadas.
"O isolamento fracassou. É hora de uma nova abordagem", disse Obama em um discurso na Casa Branca. "Estou ansioso para engajar o Congresso em um debate sério e honesto (sobre o fim do embargo). Um comércio intensificado é bom para os americanos e para os cubanos."
"Através dessas mudanças, queremos criar mais oportunidades para americanos e cubanos e começar um novo capítulo nas Américas", acrescentou o presidente americano.
Raúl Castro, por sua vez, disse, em Havana, que "os progressos alcançados demonstram que é possível encontrar solução para muitos problemas...devemos aprender a arte de conviver de forma civilizada com nossas diferenças".
"Isso não quer dizer que o principal foi resolvido. O bloqueio econômico, comercial e financeiro que provoca enormes danos humanos e econômicos tem que acabar".
O anúncio dos mandatários veio poucas horas após a libertação, em Cuba, do americano Alan Gross, preso há cinco anos no país. Os Estados Unidos disseram que libertarão três cubanos condenados por espionagem, e estudam a abertura de uma embaixada em Havana nos próximos meses.
Antes dos discursos, Obama e Castro conversaram durante mais de 45 minutos pelo telefone - a primeira conversação substancial entre líderes dos dois países desde 1961.
Leia mais: Por que o 'New York Times' quer fim do embargo a Cuba?

Os principais elementos

A Casa Branca divulgou uma lista em que apresenta "os principais elementos do novo enfoque do presidente para o estabelecimento de relações diplomáticas com Cuba".
Estes incluem:
- Início imediato de discussões para o restabelecimento de relações diplomáticas, suspensas em janeiro de 1961.
- Restabelecimento de uma embaixada em Havana e de intercâmbios e visitas de alto nível entre os dois governos.
- Fomentar trabalho em conjunto em áreas de "interesse mútuo", como migração, combate ao tráfico de drogas, proteção ambiental e tráfico de pessoas entre outros.
- Incrementar o contato entre as populações e melhorar o livre fluxo de informação "para, desde e entre a população cubana".
- Facilitar a expansão das viagens com emissão de licenças para pessoas autorizadas.
- Estabelecer intercâmbios que permitam que americanos ofereçam treinamento empresarial a empresas privadas cubanas e pequenos agricultores.
- Facilitar o envio de remessas dos EUA para Cuba; o montante máximo que pode ser enviado por trimestre subirá de US$ 500 para US$ 2.000 - e não será mais necessária uma licença especial para o envio de remessas para fundos dedicados ao desenvolvimento de iniciativa privada em Cuba.
- Ampliação nas licenças comerciais para vendas e exportação de certos produtos e serviços dos Estados Unidos, como material de construção e equipamento agrícola para pequenos agricultores.
- Autorização para que cidadãos americanos importem produtos de Cuba, como derivados de fumo e bebidas alcoólicas, até o valor limite de US$ 400.
- Facilitar as transações autorizadas entre EUA e Cuba, como o processamento de transações financeiras e o uso de cartões de crédito para viajantes em Cuba.
- Dar início a esforços para facilitar acesso dos cubanos a meios de comunicação como internet, tanto dentro de Cuba como de Cuba para os EUA e resto do mundo; para isso, será permitida a exportação comercial de certos dispositivos de comunicação, software, aplicações e hardware.
- Revisar a forma como se aplicam sanções contra Cuba a países terceiros; outorgar licenças para que possam ser oferecidos serviços e transações financeiras a indivíduos cubanos em outros países e permitir que embarcações estrangeiras entrem nos EUA depois de cooperar com determinados tipos de intercâmbio humanitário em Cuba.
- Iniciar uma revisão da designação dada a Cuba, em 1982, de "Estado patrocinador de terrorismo"; uma revisão "imediata" será entregue a Obama em seis meses.
- Participação de Obama na Cúpula das Américas no Panamá em 2015, em que direitos humanos e democracia serão assuntos-chave e onde será permitida a participação da sociedade civil cubana - assim como a de outros países.
- Um compromisso maior dos EUA por uma melhora nas condições de direitos humanos e reformas democráticas em Cuba. 
Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141217_cuba_eua_reaproximacao_rm