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domingo, 7 de setembro de 2014
Rentismo, fissuras no bloco no poder e as eleições presidenciais
"O
pacto social que Lula construiu, possibilitando avanços econômicos e
sociais sem entrar em confronto com as elites, sofreu fissuras no
governo Dilma.
Como é sabido, apesar da vitória eleitoral de um partido de esquerda e
que historicamente foi opositor das políticas neoliberais, o governo
Lula não mudou, de imediato, as bases da política macroeconômica do
governo FHC. Ainda durante o período eleitoral, diante do terrorismo do
mercado financeiro, o PT divulgou a famosa “Carta aos Brasileiros”,
garantindo que, sendo eleito, não iria mudar a condução da economia.
A
política macroeconômica havia sido capturada pelos interesses do
mercado financeiro. Porém, paulatinamente tais interesses foram perdendo
sua influência, tendo o ápice deste processo se dado no governo Dilma.
Não sem razão, portanto, o mercado financeiro nas eleições de 2014 tem
criticado duramente o governo Dilma e dado apoio aos candidatos da
oposição.
Para entender estas questões, desde a postura
contraditória do governo Lula com relação às posições históricas do PT,
bem como os desdobramentos mais recentes com os ataques do mercado
financeiro ao governo Dilma, é necessário, numa perspectiva de economia
política, sairmos do campo estritamente econômico, com seus embates
teóricos e prescrições de políticas (policy), e nos deslocarmos para o
campo da política (politics) e das relações de classes e grupos de
interesse.
Durante o governo de FHC, consolidou-se a hegemonia da
fração bancário-financeira do capital no interior do Bloco no Poder,
fazendo aqui referência ao conceito do teórico Nicos Poulantzas. Isto se
expressava pelo poder dos interesses ligados ao mercado financeiro,
doméstico e internacional, em ditar os rumos da política econômica,
sobrepujando as demais frações do capital (em especial os segmentos do
capital produtivo). Esta influência era exercida seja indiretamente, por
meio da influência do mercado financeiro nos meios de comunicação, seja
diretamente, com postos-chave do comando da política econômica sendo
ocupados por profissionais francamente favoráveis aos seus interesses ou
mesmo egressos de seus quadros, ou ainda com as constantes ameaças de
fugas de capital e crise cambial (algumas das quais se efetivaram) por
parte de seus atores diante de qualquer sinalização de mudança de rumo
da política econômica. Este poder da fração bancário-financeira
estava fundamentado numa nova dependência, que não tinha mais que ver
com aquela do modelo de desenvolvimento dependente-associado que FHC
havia teorizado nos anos 1970 e que, ainda que de forma dependente,
permitia ao País vislumbrar o desenvolvimento econõmico – a dependência
tecnológica e financeira do processo de industrialização, alicerçada
politicamente em uma aliança entre as elites estrangeiras e parte das
elites domésticas e outros grupos favoráveis à modernização da estrutura
produtiva. A dependência que contava agora era a dos fluxos de capital
volátil, fundamentais para manter a estabilidade do arranjo
macroeconômico então vigente: conter a inflação pela âncora cambial, ou
seja, mantendo a taxa de câmbio sobrevalorizada para baratear as
importações. Não à toa, às vésperas da eleição presidencial de
2002, George Soros, o bilionário representante do capital financeiro
internacional, disse que se Lula fosse eleito, seria o caos. É
sintomático desta hegemonia do setor financeiro que, em 1989, tivesse
sido um industrial da Fiesp, Mário Amato, quem disse que os empresários
abandonariam o Brasil se Lula fosse eleito e, em 2002, tenha sido um
representante da banca internacional a fazer o mesmo tipo de terrorismo
eleitoral. É impossível compreender a mudança na postura do PT na
presidência sem levar em conta a nova dependência na qual a economia
brasileira foi lançada, que havia se iniciado com a abertura de Collor e
que se consolida no governo de FHC. Para além do que poderiam dizer os
indicadores econômicos, a “herança maldita” que o governo FHC deixou
para Lula tinha uma base sociológica e política, assentada na hegemonia
da banca no interior do bloco no poder. Hegemonia que, por sua vez, era
garantida pela dependência financeira do País ante os fluxos
internacionais de capital de curto prazo. O fato é que essa
dependência prevaleceu durante os anos iniciais do governo Lula. Frente à
situação paradoxal, do ponto de vista da esquerda, em que então se
colocou o governo de Lula em seus primeiros anos, muitos defenderam que
não havia outra saída, dada esta “herança maldita”. Outros aderiram ao
discurso dominante e chegaram a dizer que as posições históricas do PT
sobre a condução da política econômica estavam erradas. E um terceiro
grupo defendeu que com a vitória de Lula havia espaço e capital político
para uma mudança na política econômica, ansiando por uma guinada de
viés, mais condizente com as ideias originais do Partido, que continham
críticas severas aos princípios e à política econômica neoliberal de
FHC. Mas o fato é que se optou pela linha de menor resistência contra os
interesses estabelecidos, permanecendo a fração bancário-financeira com
sua hegemonia no interior do bloco no poder. O governo Lula se
inicia então com um viés conservador no campo da política
macroeconômica, buscando imprimir mudanças e sua marca de esquerda por
meio da ampliação da agenda social, com programas como o Bolsa Família,
bem como com a elevação real do salário mínimo, forçando uma melhoria da
distribuição de renda. Uma maior flexibilização da política
fiscal começa a ocorrer a partir do final do primeiro mandato de Lula,
especialmente após a substituição do ministro da Fazenda Antonio
Palocci, em 2005, que havia sido o grande fiador de Lula diante da elite
econômica e em especial do mercado financeiro. A “ala
desenvolvimentista” do governo começa a ganhar espaço, abrindo caminho
para uma política fiscal mais preocupada com a aceleração do crescimento
e com a distribuição da renda, com aceleração dos gastos sociais e uma
política de elevação do salário mínimo. Outra medida nesta
direção foi o lançamento do PAC, no início do segundo mandato de Lula,
apesar das críticas de agentes do mercado financeiro de que os gastos do
programa representariam ameaça à meta fiscal. Mas é com a crise
internacional de 2008 que a política macroeconômica começa a mudar mais
rapidamente. Um conjunto de estímulos como redução de juros, expansão do
crédito dos bancos públicos e do crédito habitacional pelo programa
Minha Casa Minha Vida, continuidade da elevação real do salário mínimo e
dos investimentos públicos planejados no âmbito do PAC e redução da
meta de superávit primário, permitiu que a economia brasileira se
recuperasse da crise mais rapidamente que vários outros países, e após
uma leve queda de 0,2% do PIB em 2009, auge da crise no Brasil, cresceu
7,5% em 2010, último ano do presidente Lula, com manutenção da renda e
do emprego. No governo Dilma, os sinais de enfraquecimento da
hegemonia desta fração ficam ainda mais claros, com medidas de
enfrentamento direto por parte do governo. A partir de agosto de 2011, o
Banco Central inicia uma trajetória de queda da taxa Selic, até atingir
o patamar de 7,25%, com a taxa de juros real chegando à casa dos 2% em
2012, sob críticas do mercado financeiro e aplausos dos representantes
do setor produtivo e dos trabalhadores. Além disso, vendo que a queda da
Selic não estava sendo repassada aos consumidores de crédito, em maio
de 2012 a presidenta dá ordem expressa aos bancos públicos para
reduzirem suas taxas de juros e forçar a redução dos spreads bancários,
que estavam entre os mais altos do mundo. Estas medidas de enfrentamento
seriam impensáveis alguns anos antes. Pode-se dizer que a
situação de dependência financeira e de hegemonia da fração
bancário-financeira no bloco no poder, consolidada no governo FHC,
prevaleceu no primeiro mandato do presidente Lula, levando a uma
situação ambígua para o governo do PT e a acusação de que o partido
havia se convertido ao neoliberalismo, que André Singer descreveu bem
como “as duas almas do Partido dos Trabalhadores”. Esta hegemonia,
entretanto, que possibilitava que esta fração determinasse os rumos da
política econômica, ancorada no sucesso ideológico de seu discurso,
abraçado incondicionalmente pela mídia, bem como na constante chantagem
das fugas de capital, foi sendo minada ao longo do segundo mandato de
Lula e especialmente após a crise internacional. Esta paulatina
perda de influência se deu, até 2008, pela situação internacional
favorável (calmaria nos mercados financeiros internacionais e elevação
dos preços das commodities exportadas pelo Brasil) e pela estratégia do
governo de acúmulo de reservas internacionais. Após a crise
internacional de 2008, continuou a redução da influência e perda da
hegemonia dessa fração de classe. A reversão do padrão dos fluxos de
capital que, nas crises anteriores, originadas nos “mercados
emergentes”, tendiam a fugir abruptamente dos países periféricos em
direção ao dólar, e nesta crise fizeram o caminho inverso, permitiu que o
Brasil pudesse fazer uso de uma política macroeconômica expansionista
para incentivar a atividade econômica, com reduções substantivas da taxa
de juros e expansão fiscal, a contragosto dos representantes do sistema
financeiro. O governo Dilma consolidaria esta perda da hegemonia, cujo
momento mais simbólico foi o discurso da presidenta no 1.º de maio de
2012, Dia do Trabalhador, anunciando em cadeia nacional que os bancos
públicos iam travar uma batalha pela redução dos spreads bancários. Apesar
de perder o apoio da fração bancário-financeira, a presidenta conseguiu
manter o apoio de parte do empresariado, com medidas de desoneração no
âmbito do Plano Brasil Maior e a expansão do crédito ao setor produtivo
com o BNDES. E ainda mais importante, manteve o apoio de amplos
segmentos populares, fenômeno que André Singer chamou de “lulismo”, qual
seja, o apoio, com o qual passou a contar o presidente Lula na sua
reeleição, dos setores mais desfavorecidos, graças principalmente às
políticas distributivas de elevação de salário mínimo e de redução da
pobreza, bem como ao sustentado aumento da renda, do crédito e do
consumo, com a inclusão de dezenas de milhões de pessoas na chamada
classe C. A força eleitoral deste grupo se mostrou decisiva, como bem
aponta Singer, tanto na reeleição de Lula em 2006 – quando, pela
primeira vez, o PT consegue vencer nestas camadas que tradicionalmente
eram reduto do voto conservador – como na eleição de Dilma em 2010. Até
junho de 2013, a alta popularidade da presidenta Dilma parecia indicar
que esta parcela da população, incluindo os que haviam ascendido para a
classe C, permaneceriam dando apoio a ela na reeleição em 2014. Após as
manifestações de junho, entretanto, o apoio a Dilma caiu bruscamente
mesmo neste segmento e não se recuperou. Não é objetivo deste artigo
tratar do impacto das manifestações na avaliação do governo Dilma, mas
parece que foi decisivo o sucesso tanto da mídia como da oposição em
criar um clima de pessimismo e fazer a população acreditar que os
diversos problemas levantados nas manifestações (transporte, saúde,
educação, moradia, corrupção) teriam começado com o governo do PT,
quando na verdade são problemas históricos do País que o partido estava
contribuindo para enfrentar. A presidenta também perdeu apoio em
parcela do empresariado, ligada aos setores de infraestrutura, após os
desgastes com a tentativa de limitar a taxa de retorno das concessões, o
que segundo os críticos teria levado aos atrasos nos investimentos. Por
último, mas não o menos importante, a presidenta também tem a seu
desfavor a oposição aberta de vários veículos da grande mídia
televisiva, digital e impressa, que tem feito coro com os representantes
do mercado financeiro na crítica, pela direita (com viés liberal e
antidesenvolvimentista), à condução da política econômica. Assim,
a fração bancário-financeira do capital, a grande mídia e parte do
empresariado passaram a se alinhar com as duas candidaturas de oposição.
Além disso, como já apontado, parte do eleitorado de baixa renda de
2006 e 2010, que estava alinhada ao PT no fenômeno que Singer chamou de
lulismo, e inclusive a parcela que ascendeu à chamada classe C, deixou
de apoiar a presidenta após as manifestações de junho de 2013,
influenciada pela habilidade com a qual a oposição e a grande mídia
conseguiram usar as manifestações e canalizar a insatisfação e os
anseios da população contra o governo federal. O pacto social que
Lula construiu, possibilitando avanços econômicos e sociais sem entrar
em confronto direto com as elites, em especial sem confrontar
diretamente a hegemonia da fração bancário-financeira, sofreu
significativas fissuras durante o governo Dilma. A fração
bancário-financeira, confrontada diretamente pela presidenta, seja na
redução da Selic, seja na redução à força dos spreads a partir da
atuação dos bancos públicos, já escolheu seu lado na disputa
presidencial, passando a apoiar o candidato da oposição, Aécio Neves, e
ao que parece também Marina Silva, que subiu rapidamente nas intenções
de voto após a trágica morte de Eduardo Campos e já acenou para o
mercado financeiro com a autonomia do Banco Central, velha bandeira
desses interesses. Aécio, assim como Marina, trouxeram de volta para a
linha de frente da defesa de seu programa econômico, e para o ataque à
política econômica do governo Dilma, alguns dos economistas ligados ao
comando da economia durante o governo FHC, muitos dos quais ocupam hoje
postos muito bem remunerados no mercado financeiro. Este é o
quadro que se formou para as eleições de 2014. Temos basicamente dois
projetos em disputa. Um é a continuidade de uma proposta que, se não
avançou no ritmo desejado pelos mais exigentes e necessário para
resolver nosso enorme abismo social, conseguiu obter importantes avanços
em termos de crescimento econômico e inclusão social, e poderia seguir
avançando com a continuidade das políticas de distribuição de renda e
com uma política macroeconômica voltada para o desenvolvimento,
incluindo a forte retomada dos investimentos públicos, uma política
industrial mais ousada e o resgate da capacidade de planejamento
estratégico por parte do Estado. O outro projeto, seja pela via
Aécio, seja pela via Marina, representa uma volta a um passado que foi
enterrado nas urnas em 2002, caracterizado por uma política econômica
liberal-conservadora, com o desmonte das estruturas de planejamento do
desenvolvimento, políticas de juros reais elevados, conservadorismo no
combate à inflação, elevado desemprego e baixo crescimento. Representa
ainda o retorno da submissão da política econômica aos interesses do
mercado financeiro doméstico e internacional, o que indica a provável
volta da fração bancário-financeira à condição de fração hegemônica no
interior do bloco no poder e retrocesso a um padrão rentista de
acumulação que representa um entrave ao desenvolvimento econômico. O
voto dos mais desfavorecidos será decisivo no resultado das eleições,
como nas duas últimas, nas quais eles estiveram alinhados aos candidatos
do PT. Tudo vai depender da capacidade de a candidatura de Dilma
mostrar que a continuidade da melhora do padrão de vida destes milhões
que ascenderam à classe C, bem como a inclusão dos muitos que ainda
precisam ser incluídos, depende não de uma mudança de projeto –
especialmente da volta à política econômica desastrosa dos anos FHC –
mas da continuidade e aprofundamento das políticas sociais e
distributivas e da política macroeconômica voltada para o
desenvolvimento." (*) Doutor em Economia, professor do
Departamento de Economia da PUC-SP e secretário-adjunto de Planejamento,
Orçamento e Gestão da Prefeitura de São Paulo.
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