
Toda a gente sabe a história da
sereia. Da princesa filha do rei dos mares que durante um imenso
temporal salva um rapaz de morrer afogado após o naufrágio do
navio onde navegava. Toda a gente sabe que ela se apaixonou por ele,
afinal príncipe também, mas na terra, e sabe-se que por causa desse
amor trocou a cauda de peixe por um lindo par de pernas — para poder
partilhar desse mundo dele. Mas também toda a gente sabe que as
trocas de natureza têm um preço elevado: as pernas custaram-lhe a
voz. Era uma princesa muda. Assim mesmo também o príncipe terá
gostado dela — só por um bocadinho, pois quando decidiu casar, casou
com a princesa do reino vizinho que tinha voz e reino.
Toda a gente sabe que se a princesa não
casasse com ele não teria lugar na terra pois não era da terra. Mas
para voltar a pertencer ao mar, retomar a sua cauda de peixe, teria
de o matar ela própria antes do nascer do sol sobre a noite da lua de
mel: enfiar-lhe um punhal de osso de tubarão na carne. Isso ou
transformar-se ia em espuma do mar quando entrasse nas ondas. Parecia
fácil matá-lo ao vê-lo tão feliz com a sua noiva, tão esquecido dela.
Porém, amava-o e foi assim que, como toda a gente sabe, atirou o punhal
ao mar e a seguir jogou-se a si mesma nas ondas e se fez espuma na
primeira luz da aurora.
Aos homens tudo é devido porque são as
mulheres que os parem. Eles nunca perguntam porque é que ela me ama?
Perguntam-se: como é que ela não me ama? Essa é chave.
Penso que Sartorio sabia que a história seria diferente se fosse o príncipe a salvar a sereia da morte.
Fonte: http://www.escreveretriste.com/page/5/
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