
O beijo, Agusto Rodin.
Na Grécia antiga, a relação entre homens era constante. Isso é
inegável. Entretanto, muitos ainda tendem a assemelhar tal relação na
antiguidade com homosexualismo contemporâneo ou algo vulgar, visto que a
relação era mais presente entre mestre e aprendiz. Naquela época a
relação era pedagógica, e antes de tudo uma declaração da importância do
amor, sem distinção de sexualidade. O amor era livre.
Na antiguidade, no medievo e até em uma parte da modernidade, o amor
ocupou uma preocupação na mente e na vida das pessoas. Mas na
contemporaneidade, alguém já parou pra pensar nesse sentimento? Estamos
na era da informação, as coisas passam muito rápido por nós. Algo surge
hoje e amanhã já está em desuso; obsolescência programada? Também
estamos fazendo isso com as pessoas?

Vênus e Marte Sandro Botticelli.
Na atualidade, ao que tudo indica, a palavra denota um insulto se
alguém a proferir. E o sentimento que dela outrora teve nas pessoas,
secou com o tempo. Muitas foram as canções feitas sobre o amor, muitos
foram os filmes e peças de teatro. Mesmo que não tenham sido extintas,
seu número é quase insignificante se comparado a outros momentos. É
claro que as épocas mudam e as pessoas com ela se acostumam. O que é de
se espantar é a facilidade que isso acontece e a vontade de aceitação.
Ninguém nada contra a maré, mas podemos escolher não nadar.
O Banquete de Platão é sem sombra de dúvida um dos maiores estudos
sobre o amor. Esse texto juntamente com um texto bíblico são grandes
tesouros sobre o tema, para quem tem desejo em estudá-los ou
simplesmente curiosidade. Uma das falas mais belas do Banquete é a de
Aristófanes, vejamos um trecho:
Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humanidade, não como agora, o
masculino e o feminino, mas também havia mais um terceiro, comum a estes dois,
do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gê-
nero distinto (...). Depois, inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso re-
dondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto
das mãos, dois rostos opostos um ao outro era um só, e quatro orelhas, dois se-
xos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor. (...) Eram (...) de uma
força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-
-se contra os deuses (...) Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho que te-
nho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a
intemperança (...) eu os cortarei a cada um em dois (...). Por conseguinte, desde
que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria me-
tade e a ela se unia (...). É então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro
está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua ten-
tativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. (189e, 190a-d, 191a,
191d)2 (Platão, 1995, p. 125-129)

O Amor de Helena e Páris ,de Jacques-Louis David
A natureza do amor se transformou em uma coisa vulgar. Até mesmo quem se
diz grande leitor, quase nunca discute sobre o amor. Desde os gregos,
passando pela Bíblia e chegando até nós. Como citado acima, uma das mais
belas passagens está nesse enigmático livro. Também conhecida como O Cântico dos Cânticos de Salomão.
Muitos historiadores ainda tem dúvidas sobre essa autoria. Entretanto,
poucas pessoas sejam cristãs ou não se debruçam sobre o antigo
testamento.
Parece que aprendemos o medo de amar. Ou melhor, o apreendemos. Um
excelente texto de Santo Agostinho nos remete a tal pavor: "Havia em mim
um gravíssimo tédio da vida e medo de morrer. Creio que quanto mais o
amava, tanto mais odiava e temia a morte, que mo tirara, como
atrocíssima inimiga, e julgava que ela de repente havia de consumir
todos os homens, já que pôde consumi-lo" (Agostinho, Confissões, IV, 6).
Embora nesse texto o filósofo fale sobre o amor a um amigo perdido, ele
tem grande relevância para nossa compreensão.
Nós temos medo. Medo de amar. Mas isso é natural. O que não seria é
permanecermos com tal medo em nossa alma e dele fazermos uma fortaleza.
Nada é mais prejudicial à nossa alma. Já em outra passagem sobre a
Bíblia, Agostinho nos mostra uma referência a João, uma citação sobre o
amor e o medo.
"Se não houver medo algum, o amor (caritas) não tem por onde entrar. A
mesma coisa vemos quando costuramos algo, o fio se introduz por meio da
agulha, mas se ela não sair, o fio não passa. Do mesmo modo, o medo é o
primeiro a ocupar a alma (mentem), mas não é ele que permanece lá,
porque ele só entra para introduzir o amor" (Agostinho, Homilias sobre a
primeira epístola de João, IX, 4)

Tristão e Isolda de John William Waterhouse
Para finalizarmos, apenas imaginemos que às vezes nosso coração e nossa
percepção se enganam. É natural. Lembremos do que nos disse Pascal: "O
coração tem razões que a razão desconhece."
Fonte: © obvious: http://lounge.obviousmag.org/abismo/2013/02/onde-o-amor-se-perdeu.html#ixzz2rzSSDq7M
Nenhum comentário:
Postar um comentário