segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Das capitanias hereditárias aos porões de alguns empreiteiros


Nasce na colônia, por determinação do Rei de Portugal D. João III, segue no Império com outra roupagem, sobrevive na Primeira República e aprimora-se nos dias atuais. As capitanias hereditárias e seus capitães-donatários são marca indelével do Brasil de todos os tempos. E em todas as suas formas com um objetivo comum entre si: a pilhagem do bem público.
As semelhanças entre ontem e hoje são inúmeras. Em outro sistema, os das sesmarias, pagava-se um dízimo à Coroa. Agora, o dinheiro enche os bolsos dos políticos, de quase todos os partidos que compõem e representam o Estado Brasileiro.
Fala-se em 70 parlamentares. Supera-se a história de Ali Babá. Nela eram só 40 ladrões.
Caminhar no tempo da história da corrupção crônica nacional há de tirar dos perplexos  a perplexidade que lhes assalta o espírito com o que vem à tona no escândalo da Petrobras. Resta-lhes a indignação.
O Brasil sempre foi guiado pela imoral e ilegal concessão de bens e serviços a famílias privilegiadas. Disso nos indignamos há séculos.
A quem duvida, um conselho: visite a Biblioteca Nacional, no Centro do Rio, e vasculhe os arquivos da imprensa.
Outro conselho: só faça isso se você tiver muitos, mas muitos cabelos, porque eles vão, um a um, se arrepiar diante de tantos escândalos. Então, se você é do tipo que insinua uma calvície, desista: haverá na biblioteca mais bandalheiras do que cabelos em sua cabeça.
Naquela época, ganhar cartório do poder era um troco.
Então vejamos para  lembrar e refletir: o que aconteceu com os barões do café? O presidente Getúlio Vargas determinou afundar nossos estoques de café para valorizar o preço. Era o nosso mais forte produto na pauta  de exportação. Representava 80% das exportações brasileiras. Afundaram o café e prejudicaram o produtor. Em compensação, o que recebeu aviso para afundar, fundou um dos maiores bancos do Brasil.
E as licenças de importação na época da guerra? Quem tinha esse privilégio? Os amigos dos homens da Cechin?
Quais foram as consequências para os que ganharam na bacia das almas autorizações para exploração de minerais, alguns de grande valor militar como o nióbio? Nenhuma.
E aqueles privilegiados com as cotas de exportação de aço? Pagaram  por seus privilégios? Não se tem notícia.
E as concessões na aviação que impediram nossa competitividade no setor e puniu e pune os consumidores até hoje? Elas vão bem e nelas não há quem ouse mexer.
Como também não se toca nas concessões das comunicações. A concentração de poder de alguns grupos é inimaginável em qualquer democracia avançada ou mesmo abaixo da Linha do Equador, e poderia ser considerada de muito privilégio.
Recentemente, essa interminável cadeia de privilégios manifestou-se na privatização de muitas empresas nacionais, seja na área de telefonia ou de mineração, caso da Vale. Em um caso, escaparam escutas telefônicas em que agentes do estado admitiam estar no limite da irresponsabilidade na condução do processo privatista. Em outro, vendeu-se um ativo de monumental riqueza do povo brasileiro pelo preço de um cacho de bananas em fim de feira.
E as operações de café com o nome de mulheres? O que aconteceu?
Os crimes dos precatórios de Alagoas e Recife, o que aconteceu?
E a operação Banestado? Filhos, mãe de governadores, políticos, empresários que lavaram dinheiro. O que aconteceu? Não houve caducidade. Ainda há tempo de prender esses corruptos.
O que se sucedeu com os autores destas manobras? Nada. Vivem hoje muito bem, estão ricos, entraram para o sistema financeiro, criaram consultorias pagas a preço de ouro e se divertem com seus cavalos de raça no exterior.
Nem D. João III teria ideia lá nos idos de 1534 de todos os males de seu ato. Monarca conhecido com "O Piedoso", qual seria a reação de D. João III se pudesse olhar através dos séculos os danos que sua política de concessões faria àquela longínqua e promissora colônia chamada Brasil? Imaginaria que até emenda para permitir uma reeleição seria comprada no Congresso? Claro que não.
Nem de longe haveria de lhe passar pela cabeça, que mais de cinco séculos depois, rentistas falidos seriam socorridos pelo estado num estranho programa chamado Proer, aquele que se não salvou bancos, salvou banqueiros.
Alguns, que deixaram seus correntistas em apuros e seus funcionários à míngua, estão à porta da felicidade e prestes a tomar do tesouro quantias na ordem de 5 bilhões de reais e com a ajuda de um operador político recentemente condenado. Gente sem qualquer piedade com o semelhante.
Passadores de cheques sem fundo com autoridade de poder ministerial em pleno governo de exceção.
Para ilustrar: um desses banqueiros era contumaz viajante à Europa. Na sede de sua empresa, servia-lhe um elevador particular. Que parava no dia em que se dirigia ao aeroporto e só voltava a funcionar no seu retorno. Não importa se neste período os outros ascensores quebrassem. Que os demais usassem a escada. Mais do que extravagância, pura arrogância e prepotência.
É na corrente desta miríade de falcatruas que o Brasil está chacoalhado, humilhado e avacalhado hoje pelo escândalo da Petrobras.
Empreiteiros que sempre praticaram ilicitudes ao longo de décadas e diferentes governos, são pilhados pela Justiça por uma sangria de bilhões de dólares dos cofres da maior estatal verde-amarela. Alguns flagrados até com simples anúncio de jornal.
Corromperam funcionários públicos, políticos de diversas agremiações e juram, despudoradamente, ter feito as obras dentro das regras e dos parâmetros legais. Quem quiser acreditar nisso, que acredite em qualquer coisa. Especialmente nos cínicos.
Destes empresários, sabe-se agora pelo noticiário, que um  tomou para si a tarefa de organizar o butim contra a Petrobras. Reunia os demais malfeitores e, sob sua liderança, combinava com os pares quem ficava com o "a mais" e em qual obra. A isso ele denominava de O Clube. Sim, talvez o "Clube dos Cafajestes", não aquele de boêmios, mas os cafajestes da contravenção.
Seriam mais de 10 bilhões ilegalmente desviados. Mas o congelamento de seus bens e empresas, pelas primeiras medidas judiciais, chegam a 720 milhões, nem um décimo do total desviado. Por que não bloquear também o patrimônio de suas empresas? No Aeroporto da Pampulha, alguns deles já estão transferindo suas aeronaves de milhões de dólares para outros laranjas. Donos de estádios de futebol, donos de companhias de comunicação, donos de estradas e de aeroportos. Aí, há justificativa porque debocham do superfaturamento, são avisados que vão ser presos, pegam as estradas sem serem molestados e fogem de seus aeroportos sem serem vistos.
Mas seja como for, nesta hora estão quase todos no Paraná, sem champanhe importada, carrões e poucas mudas de roupa.
Mas conta a lenda que mesmo na cela, o Clube continua a atuar e na última ata de reunião destes malfeitores, assinada por todos, cantarolavam o conhecido refrão:
"Oh Zum, zum, zum, zum... está faltando um".
A esta altura o faltoso já perdeu o sono.

* Investidor e Analista de Investimentos 
http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2014/11/15/das-capitanias-hereditarias-aos-poroes-de-alguns-empreiteiros/ 
Fonte :http://assisprocura.blogspot.com.br/  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Título curto


 

por José António Abreu, em 12.11.14

Não sejas assim. Quantas vezes já aconteceu? Uma. Outra. Depois outra. E outra. E ainda outra. E mais outra. Não aprendes. És incapaz de aprender. Estás fora do tempo. Olha o Twitter. 140 caracteres. Nem mais um. Olha as sms. Frases curtas. Palavras abreviadas. Toda a gente lê até ao fim. E percebe. Excepto os velhos do Restelo. A esses as abreviaturas confundem-nos. Resmungam. Protestam. Dizem que o mundo está perdido. k patético. Mas pronto. São poucos. Vão morrendo. Se queres relevância, usa frases curtas. Sem vírgulas. De preferência. Fundamental é que sejam curtas. Arranja poder de síntese. Ideias também curtas, se necessário. Não te será difícil. Já o fazes com regularidade. Através de frases compridas. Aprende. Tudo curto. Que seja o teu mantra. Tens coisas curtas. As erradas. As que deviam ser compridas. Enfim. Tudo trocado. Esquece os parêntesis. E os travessões. Sê sucinto. Melhor: sê breve. Tem menos letras. Um ponto final por cada conjunto de quarenta caracteres. No máximo. Sim, quebraste a regra ao defini-la. És incorrigível. Depois ninguém te lê. As pessoas não querem frases compridas. Não querem frases com montes de orações coordenadas. Mal coordenadas. As pessoas têm dificuldades de coordenação. Têm de coordenar a vida profissional com a familiar. O horário do emprego com o dos transportes. As despesas com o rendimento. Também não querem sequências de orações subordinadas. Andam subordinadas todos os dias. Estão fartas de subordinarices. Sujeito. Tu. Ele. Cães. Gatos. Nada de hipopótamos. Ou de ornitorrincos. Letras a mais. Fala do Passos e do Costa. Esquece o Tribunal Constitucional. Demasiado comprido. Difícil de pronunciar. Cheio de velhos do Restelo. Verbo. Ser. Estar. Fazer. Ir. Vir. Tens sorte. São quase todos curtos. Complemento. Curto. Como os de ordenado. Excepto em certas empresas. E em certos cargos. Esquece. Mas curto. Evita adjectivos. Já o devias fazer nas frases longas. Evita advérbios de modo. Obviamente. Evita termos pouco comuns. Ainda que sejam curtos. Sê breve. Não conciso. Odeia. Não execres. Torna as pessoas felizes. Facilita-lhes a vida. Ler é cada vez mais difícil. O tempo aperta. A concorrência é enorme. O Facebook. O Instagram. A Casa dos Segredos. As opiniões do professor Marcelo. Frases curtas. Fundamental. Desde que não pareçam poesia. Ninguém lê poesia. Mesmo que tenha frases curtas. O que é frequente. A poesia é como o sexo oral. Não. Não posso explicar. Exigia uma frase comprida. Pronto. Está bem. Eu explico. E mostro como se pode ser sintético. Raios. Breve. Breve é que é. Mas então. Gosta-se do conceito. Aborda-se com ligeiro temor. Parece um mundo à parte. Uma lógica estranha. Uma forma errada de usar as palavras. Uma forma blasfema. Aprende-se a gostar. Mas há quem não consiga. E quem nem queira experimentar. Basta de analogias. As analogias fazem pensar. Não faças pensar. Afirma. Nega. Sê claro. Sê breve. Não te armes em intelectual. Os intelectuais são um cancro. Não te armes em político. Os políticos são outro cancro. Maior. Uma ideia tem de passar em poucas palavras. Repara no teu texto de ontem. O do cão. Ridículo. Todo ele. Mas em especial o comprimento das frases. Complicadas. Com derivações. Comentários. Repetições. Exageros. Tentativas de humor. Esquece. Frases curtas. Ou então desiste. Não se perde muito.
Ah. Mais uma coisa. Não basta que as frases sejam curtas. É fundamental que todo o texto o seja.
Fonte: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Entre Tancredo e FHC: Na encruzilhada da vida, Aécio fez a escolha errada

Sergio Saraiva


“E agora, José?”, inescapáveis os versos de Drummond, do mineiro Drummond. Como Shakespeare, universais, pois falam do homem que chegou a uma situação limite e tem, agora, de repensar sua vida. Inescapável relacioná-los com o momento atual de Aécio Neves.


E agora, José? 
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, e agora, José?
Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho. Já não pode beber, já não pode fumar.
A noite esfriou, o dia não veio, não veio a utopia, e agora, José? 
Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta. Quer morrer no mar, mas o mar secou. Quer ir para Minas, Minas não há mais.
José, e agora?

Aécio é um político nascido em Minas Gerais.  É neto de Tancredo Neves que era um político mineiro. Nada os une, no entanto, enquanto políticos.
Lembro-me de memória algumas frases de Tancredo:
“Um louco não é um problema. Em Minas, há muitos loucos. Nascem loucos, são meninos louquinhos, crescem, casam, têm filhos e morrem. Sempre loucos. Um louco não é um problema. Um louco só é problema quando assume o poder."
“Um político, quando assume o Executivo, deve pensar duas vezes em tudo que faz. Até para descer da calçada deve ter cuidado. Pode escorregar e bater a cabeça, morrer e colocar o governo em uma situação de crise." Tristemente profético.
Esse era Tancredo, que, acima de mineiro, soube-se fazer um político brasileiro. Seus contrapontos, Brizola e Ulisses eram apaixonados. Quando o país esteve em crise institucional, soube ser a resposta institucional à crise. A solução ponderada. Seja com Jango, seja ao final da Ditadura.  Sempre apresentou à nação ideias, uma alternativa, quando não um sonho, como solução aos impasses. O parlamentarismo e a “Nova República”, jamais buscou o confronto.  A ideia, a solução ou o sonho eram seus argumentos.
Mas Aécio não foi formado para ser Tancredo. Sua carreira de político não passou pela forja da adversidade, da necessidade de sobreviver e manter a coerência e a integridade ideológica frente a um poder adversário maior e ameaçador. Desde o começo protegido pelo sobrenome, o que construiu, construiu em Minas. Fora de Minas, seu sobrenome não lhe bastou. Parecia ser um conciliador como o avô, seria apenas fraco. Quando não, indolente como os herdeiros da fortuna costumam ser.
Seu desafio não foi os dois mandatos de governador. Estava em Minas. Seu desafio foi o mandato de senador. O de se fazer uma liderança no Congresso. O pensamento conservador estava órfão em 2010. Hoje, têm muitos pais de caras feias e cinta na mão.
Era, então, ter voltado aos livros de economia, às bases do liberalismo americano, aos clássicos do pensamento econômico inglês. Era então, ter ouvido nossos conservadores. Eles estão aí, de Delfim a Bresser-Pereira, passando por Lembo.  Era, então, ter formatado uma proposta alternativa a socialdemocracia encampada pelo PT. Haveria muito espaço e aceitação popular para a centro-direita em um país que passa, já há alguns anos, por viés conservador, inclusive nos costumes. Onde estão os fios-dentais das garotas de Ipanema? Só nos restou a deselegância discreta das meninas de Sampa.
Mas não, passou quatro anos exercendo a política do “besouro rola-bosta”. Nenhuma proposta, só acusações ao partido no poder. Falou dos outros, não falou de si. Tornou-se o anti-PT e não o pró-Aécio.
Na campanha, propriamente dita, cometeu o erro que nem Serra, nem Alckmin cometeram. Permitiu colar sua imagem a imagem de FHC. Trouxe imediatamente para a discussão a comparação dos governos Lula X FHC. Sua adversária era Dilma.
FHC é um buraco negro na política, uma enorme gravidade no centro do PSDB, suga toda a energia que está ao seu redor e não emite nenhuma luz.
A partir desse “pecado original”, não mais conduziu sua campanha. Foi conduzido, paradoxalmente, pelo PT.  Aécio deve ao PT ter chegado ao 2º turno das eleições de 2014. Marina Silva foi destroçada pelo PT. O PT o escolheu, Aécio, como adversário.
No pós-eleição, cometeu seu “pecado capital” – a ira. Aliou-se aos loucos problemáticos. Permitiu sua imagem ser associada ao que não se curva a vontade das urnas, ao antidemocrático – ao golpismo.
Cuspindo na biografia do avô, recusou-se ao diálogo. Sua última esperança. Dilma fez-lhe passar o cavalo encilhado à porta. Ele não montou. Onde a prudência de quem desce da calçada cuidadosamente?

A noite esfriou, o dia não veio, não veio a utopia, e agora, José?

Agora? Agora a roda rodou e é Alckmin outra vez. Alckmin é o delfim da plutocracia paulista, é a sua cara.
Dezembro está logo aí, as festa de fim de ano, janeiro em férias de verão, o carnaval em fevereiro e a nova legislatura em 2015, a partir de março. O velho Senado com outros nomes.
E se Anastasia, agora, tão senador quanto Aécio, mas com fama de bom administrador e com uma trajetória vencedora, em seu primeiro discurso no plenário, trouxer uma proposta viável e independente? O que fazer com ele? Despacha-lo para BH?
O que ser agora, ser o Aloysio Nunes, fazer o serviço sujo? Já há Aloysio Nunes.  E ser o que então, após o leviano dedo em riste?
Fora isso, Aécio é um problema pra a candidatura Alckmin. Será bombardeado pela grande imprensa sediada em São Paulo. Não poderá dar as costas a José Serra – seu escorpião desde sempre e agora no mesmo Senado que Aécio.

Quer ir para Minas, Minas não há mais.

Ser ele o candidato a prefeito em 2016, tentar o governo mineiro em 2018, conformar-se com o Senado? Viver a maldição do eterno retorno de Nietzsche? Um samba de Vanzolini para dar a volta por cima ou a única coisa a fazer é tocar um tango argentino de Manuel Bandeira?
Entre Tancredo e FHC. Na encruzilhada da vida, Aécio fez a escolha errada.

E agora, José?
Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora?
Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José!
José, pra onde?

Fonte: http://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/entre-tancredo-e-fhcna-encruzilhada-da-vida-aecio-fez-a-escolha-errada

sábado, 8 de novembro de 2014

Garimpando os primórdios de Ip




Buscando informações que me levassem a identificar algum registro sobre  famílias que tivessem vivido na área territorial de Ipaumirim quando este ainda pertencia ao município de Lavras da Mangabeira sempre acabo encontrando alguma coisa interessante . O primeiro registro de Alagoinha que conheço  fala numa família Bonfim. Também preciso dizer que não tenho procurado em fontes documentais.

Lendo sobre a história do Ceará, acabei achando no livro Fatos e documentos do Ceará provincial., de José Aurélio Saraiva Câmara, uma informação bastante interessante.  No Anexo II da obra citada, encontrei a relação dos eleitores especiais de senadores da província do Ceará em 1870. Essa lista foi extraída do Almanak Administrativo, Mercantil e industrial da província do Ceará para o ano de 1870, publicado em Fortaleza neste mesmo ano.
Vou transcrever  a introdução do anexo e a seguir a lista de votantes de Lavras da Mangabeira

“Em 1870, como desde há alguns anos, a província do Ceará era dividida em três distritos eleitorais. A cabeça do 1º distrito , constituído de 11 colégios eleitorais, era a cidade de fortaleza, capital da província; a do 2º distrito, com 9 colégios eleitorais, a cidade de sobral e a do 3º., com apenas 8 colégios, era a cidade do crato.

O documento que se segue, constante da relação nominal dos eleitores de senadores, então selecionados, por determinação constitucional, entre cidadão do sexo masculino de comprovada projeção social e econômica, permite-nos conhecer, numa perspectiva de cem anos, as figuras mais representativas do comércio , das profissões liberais, da aristocracia agrária da província cearense naquela época. É que a constituição do Império, no seu Art. 94, impunha aos eleitores de senadores uma expressão econômica que se traduzia pela renda líquida anual mínima de 2004000 “por bens de raiz, indústria, comércio ou emprego”.

Na nota de rodapé, o autor explica. “Considerando, à base de documentos da época, o preço do gado no Ceará comparativamente com o preço atual (explico: o livro é de 1970), podemos admitir que aos 200$000 de então correspondem hoje cerca de NCr$ 5.000,00, ou seja, uma renda mensal aproximadamente de NCr$ 400,00.”

O 3º Distrito – Crato – tinha 359 eleitores distribuídos  pelos colégios eleitorais da cidade do Crato, da vila de Barbalha, da cidade do Icó, da Vila da Telha (Iguatu), da vila de Lavras, da vila do Pereiro, da vila do Jardim e da vila de Milagres.

O Colégio eleitoral da vila de Lavras compreendia a freguesia de S. Vicente (Lavras) e da Freguesia de São Raimundo Nonato (Várzea Alegre.)

Relação dos votantes do Colégio Eleitoral da vila de Lavras.

Raimundo Correia Lima

Ildefonso correia lima

Manoel Bernardo Vieira

Benedito Gonçalves Sobreira

Raimundo Gomes de Araújo

Antônio Pinto Teixeira

Raimundo Nonato de Pontes Pereira

Félix Soares das Neves

Pedro José Crispim

Vicente Gonçalves Leite

José Ferreira da Silva

Valdevino Leite Teixeira

José Antônio do Nascimento

Alexandre Gomes de Lima

José Leandro Correia

Francisco Félix de Araújo

José Alexandre de Oliveira

Félix Alexandre de Almeida

Francisco Martins de Barros

Francisco Pires de Oliveira Mota

Antônio Gonçalves de Araújo

Alexandre Manoel de Oliveira

Manoel Raimundo da Cunha

Vicente Carneiro de Aquino

Cândido José da Costa

Vicente Alves Lima Junior

Antônio Alvares do Nascimento

Vicente Ferreira de Moraes

Antônio Raimundo Duarte

Antônio Guedes da Silva

Manoel Gonçalves da Silva

Tomás Duarte de Aquino

João Paulo Correia

Miguel Gonçalves Pinheiro

João Clementino de Araújo

Tomás Francisco Duarte

Antônio Francisco dos Santos

Manoel Trajano de Sousa

Sabino Ferreira da Silva

Manoel  Antônio  Sobreira

Raimundo Carneiro d’Oliveira

Honório Pereira de Araújo

Manoel da Silva Monteiro

Pedro Gomes Leitão

Joaquim Moreira do Nascimento.”

Fonte: CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Fatos e documentos do Ceará provincial. Fortaleza, Imprensa Universitária. 1970. pp. 309-310.


Nesse período, o território do atual município de Umari que posteriormente se desdobraria  em três municípios (Umari, Baixio e Ipaumirim) ainda integrava o território de Lavras assim como outros municípios da região que foram posteriormente desmembrados do território original.

O que tenho de concreto é que em 1836 já existia o sítio Lagoinha, provavelmente Alagoinha, conforme consta na obra de Joarivar Macedo.
1836 – novembro, 11 – Nasceu  em terras  da  Freguesia  de

                                            São Vicente Ferrer, Pe. Inácio Ferreira do Bonfim. Segundo

                                            o seu processo de ordenação  sacerdotal, era ele  morador do

                                            sítio Lagoinha, filho  legítimo de Vicente Ferreira do Bonfim

                                      e Vicência  Maria do Nascimento, naturais  da  Freguesia de

                                            Lavras. (...) Ali  residiam os Ferreira do  Bonfim.  Um deles

                                            foi  Bernardinho  Ferreira  do  Bonfim ,cuja  viúva  Rosalina 

                                            Maria  da  Conceição,  doou   uma  parte   de  terra  a  Nossa 

                                            Senhora  para  seu    patrimônio  na  mesma  Lagoinha  (  ou

                                                  ou Alagoinha) (MACEDO, São Vicente de Lavras, 1964, P. 80)

Também, por exemplo, a instalação das capelas de Alagoinha  e do sítio Barra já existiam por volta de 1875. Em 1874, segundo o livro Em Família, de Flaucineide Vieira e Raimunda Vieira, há no Livro de Notas de Lavras da Mangabeira, 1871 fls66v., o registro de doação do patrimônio da capela do Olho d’água do Melão, atual Felizardo. A partir destas informações e diante da proximidade temporal com 1870, é possível imaginar que algum desses eleitores sejam oriundos dessa área de Ipaumirim embora seja uma interpretação minha por pura inferência, o que não garante sua veracidade. Se você identificar algum nome nesta relação tanto pode ser um antepassado de sua família quanto um homônimo. Mas se você tiver certeza, por favor, nos dê um retorno porque qualquer informação é importante para nós.
Em relação aos critérios para participar da lista dos votantes, é importante perceber que desde o momento já se delineava de forma clara, entre nós, o poder econômico como elemento de exclusão. Você vê  isso também em outras situações e este caso particular é apenas mais um indicador que este  processo vem sendo construído durante séculos e já se manifestava com uma abrangência muito ampla alcançando inclusive núcleos populacionais inexpressivos ainda nos primórdios da sua formação. 
ML

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cecília Meireles: 113 anos de nascimento e 50 de sua morte

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, 07 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 09 de novembro de 1964)
Antes de se tornar uma das mais potentes vozes da poesia brasileira, Cecília Meireles escrevia seu nome com dois “eles”. Assim mesmo: Cecília Meirelles. Na bem-humorada crônica, “A história de uma letra”, publicada no jornal A Manhã, em 1945, a poeta conta por que aboliu um dos “eles” de seu sobrenome. A causa não foi a mais nova lei ortográfica, bradava ela, mas a superstição ou, melhor, “o valor cabalístico das letras”. A nossa grande poeta acreditava no valor místico do universo. Era supersticiosa, de uma inteligência ímpar e de uma voz poética cristalina. Causava ciúme e admiração por onde passava. Porém, mesmo seus admiradores costumam saber pouco ou quase nada sobre sua vida, principalmente sobre sua infância e juventude.
Por meio de suas crônicas, no entanto, podemos estimar o que seria uma autobiografia assinada por Cecília. Lá ela não escondeu suas mazelas, como o fato de pouco enxergar sem os óculos (“Uns óculos”, A Manhã, 1944) ou, ainda, sua compulsão por guardar papéis, anotações, comprovantes, como admitiu em “Recordações do papel”, publicada em 1945 peloCorreio Paulistano. Em suas crônicas, revelou sua admiração pelo pensador indiano Rabindranath Tagore, bem como por todas as culturas orientais, sobretudo a indiana, pelos poetas brasileiros e latino-americanos, e pela liberdade. Já em 1933, em sua coluna diária sobre educação, chamada “Comentário”, ela ensaiava seu famoso verso do Romanceiro da Inconfidência (1953): “Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!”

Cecília, sem dúvida, passou a maior parte de sua vida diante de uma máquina de escrever. De 1920 a 1964, quando sua última crônica foi publicada na Folha de S.Paulo, a escritora, autora de grandes clássicos da poesia brasileira, escreveu cerca de 2.500 crônicas. O dinamismo intelectual dessa mulher impressiona, tanto quanto sua trágica vida. Aos 18 anos, publicava seu primeiro livro de poemas, Espectros (1919), o qual jamais foi encontrado. Desapareceu. Dele, o que conhecemos são apenas alguns fragmentos. Também pouco se conhece de sua correspondência e de suas anotações pessoais, pois muito do que existe permanece inacessível. Como todos os escritores de sua geração, a poeta foi uma grande missivista. Há notícias de correspondência com Gabriela Mistral, Fernando Pessoa, dentre muitos outros. Mas apenas notícias.
Cecília Meireles nasceu no bairro do Estácio, zona marginal ao Centro do Rio de Janeiro. Segundo os apontamentos do pesquisador Darcy Damasceno, ela nasceu em um sobrado, em cima de um açougue, na rua São Luís, hoje Sampaio Ferraz, e morou até os 34 anos na rua São Cláudio, número 11. Teve sua infância marcada por perdas profundas. Seu pai e sua mãe morreram quando ela ainda era criança. Morte prematura também tiveram seus irmãos Carlos, Vítor e Carmen, que são saudados na crônica “Carta a meus irmãos”. Cecília foi criada por sua avó Maria Jacinta Benevides, açoriana, personagem recorrente em sua obra. A cada perda restava-lha, firme, D. Maria Jacinta.
No início da década de 1920, Cecília casa-se com o ilustrador português Fernando Correia Dias, artista que contribuiu imensamente para o desenvolvimento das artes gráficas no Brasil, autor de caricaturas e desenhos altamente requintados e modernos. Do casamento nasceram as três filhas, três Marias: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda. Após a morte de sua avó, em 1933, Cecília e sua família permanecem no mesmo endereço: entre as ruas São Luís e São Cláudio, onde a poeta passou boa parte da vida. Mudou-se temporariamente, depois do casamento, mas logo retornaria à casa da infância e adolescência. Nesse ambiente de recordações afetivas, encontramos a jovem poeta, professora, jornalista e mãe Cecília Meireles, que após a morte de sua avó faz sua primeira viagem a Portugal, em 1934.
A morte de D. Maria Jacinta sinaliza o início de um dos períodos mais trágicos da vida da poeta, que culminaria com o suicídio de seu marido, em 1935. Esse gesto trágico fez com que Cecília rompesse definitivamente com o ambiente de casas e coisas antigas, de quintais e “jardins de cheiros”. Dedica os últimos anos da década de 1930 à dor, à educação e à poesia, renascendo como cronista apenas nos anos 40. Em 1939, na revista portuguesa Ocidente,encontramos seus últimos textos longos em prosa. Trata-se de “Olhinhos de gato”, uma série de artigos sobre sua infância.
A própria Cecília, em entrevista para a revista Manchete, na década de 1960, declarou ser “Olhinhos de gato” seu “pequeno livro de memórias”, em que predomina uma “narrativa sobre a infância”. Em “Olhinhos de gato” ficou cristalizado o universo do bairro do Estácio, onde a gente simples se misturava à pequena burguesia e aos imigrantes portugueses, encarnando a narrativa formadora da alma carioca. Foi no morro de São Carlos, por exemplo, que surgiu a primeira escola de samba. Cecília foi testemunha de toda essa ebulição popular, tanto que entre 1926 e 1934 dedicou-se ao desenho dos gestos e do ritmo da música e da religião afro-brasileiras.
A maior tragédia, no entanto, foi o suicídio de Correia Dias, fato que transformaria a visão de mundo da poeta. Correia Dias suicidou-se em casa, no dia 19 de novembro de 1935, enquanto as filhas se preparavam para os festejos do Dia da Bandeira. “Há muitas mortes por detrás dessa morte. E não foi apenas um suicídio: foi também um assassinato. Posso eu viver muito tempo; pode minha existência tomar os mais inesperados rumos – mas essa noção da inutilidade humana; esta indiferença pela esperança, este desapego da lógica farão de mim cada vez mais uma criatura sem raízes na terra, prescindindo de tudo e à mercê dos casos que a queiram transportar”, escreveu a poeta a Diogo de Macedo, amigo português. (Carta publicada pela revista Terceira Margem, Porto, Portugal, 1998).
A biografia de Cecília Meireles pode ser dividida, assim, em dois momentos decisivos: a morte da avó e a de Correia Dias. A partir desses eventos cruciais, a poeta refunde sua trajetória e apresenta uma outra Cecília, aquela que conhecemos, dedicada à poesia e à educação. Sua obra reflete as variantes de sua relação com o mundo. A Cecília poeta se impõe apenas em 1937, com a publicação de Viagem. A própria poeta, em sua Obra completa, publicada em 1958 pela Aguillar, elegeu Viagem como livro “inaugural”. Com ele, Cecília ganhou o primeiro grande reconhecimento, o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 1939.
Nas década de 1920, no entanto, ela já havia publicado seus livros de inspiração simbolista, tais como Nunca mais (1923), Poema dos poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925). Depois de Viagem, seguiram-se as obras Vaga música (1942), Mar absoluto e outros poemas(1945), Retrato natural (1949), Doze noturnos da Holanda (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Poemas escritos na Índia, (sem data, mas certamente da década de 1950), Metal rosicler (1960), Solombra (1963), dentre outros. Sem dúvida, o Romanceiro da Inconfidência é o seu grande livro, o épico ceciliano.

Quem ficou para trás na nova história de Cecília Meireles não foi apenas a jovem do Estácio, mas também a jornalista engajada que, entre 1930 e 1933, assinou sua página diária sobre educação – na qual chegou a acusar o então ministro de educação, Francisco Campos, de medalhão e o então presidente, Getúlio Vargas, de Sr. Ditador. Foram mais de mil artigos escritos num período turbulento da nossa história política: o início da década de 1930, quando Getúlio assumiu a liderança no país. Nesse período, Cecília lutava contra a inclusão do ensino religioso e defendia as liberdades, como por exemplo a criação de escolas mistas em que ambos os sexos pudessem dividir o mesmo espaço. É bom lembrar que isso ocorreu entre 1930 e 1933, quando a mulher sequer exercia o direito de voto, uma vez que as urnas passaram a contar com o voto feminino apenas em 1934.
A luta de Cecília foi breve. Depois desse período, em carta ao educador Fernando de Azevedo, a poeta desabafou: tinha horror à política, mas num momento em que as forças autoritárias cresciam no mundo era impossível ficar distante. Mas ficou. Atropelada pelas tragédias da vida pessoal, Cecília se afasta da imprensa, dedicando-se à educação. A década de 1930 passou e no início da década de 1940, mais precisamente no ano de 1940, Cecília casa-se com Heitor Grillo.
Suas posições diante do governo Vargas também mudaram. Agora ela é editora da revistaTravel in Brazil, publicação do autoritário Estado Novo (1937-1945), isto é, do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). A revista, publicada somente em inglês, era chamada por Mário de Andrade, colaborador freqüente, de “a Dip-revista”. Durante esse tempo, os dois poetas trocaram uma curta correspondência, publicada no livro Cecília e Mário(1996).
Neste período de farto intercâmbio entre o Brasil e os Estados Unidos, conhecido como a política de boa vizinhança, a poeta faz sua primeira viagem à América. Lá, profere algumas palestras, na Universidade do Texas, sobre o negro no Brasil e escreve uma série de artigos sobre os negros americanos, principalmente sobre sua visita ao Harlem e a um templo evangélico dirigido pelo reverendo Father Divine. Em uma série de três crônicas, todas publicadas em A Manhã, em 1943, Cecília narra suas desventuras pelo bairro nova-iorquino.
A década seguinte é marcada por mais viagens. É quando ela conhece a Índia. Seus passos pelas cidades de Calcutá, Bombaim, entre outras, podem ser seguidos pelas crônicas que publicava no Diário de Notícias. Cecília foi homenageada na Índia e recebeu do povo indiano o reconhecimento por sua divulgação da cultura e da arte daquele país.
Em 1964 a poeta morre, no Rio de Janeiro, de câncer. Durante a década de 1960 dedicou crônicas às curas, à medicina e às enfermeiras, como podemos ler em “Profilaxia” (1962) e “Ai, os hospitais!” (1964). As lendas em torno da imagem de Cecília Meireles jamais deixaram de crescer no meio literário. Há até aqueles que asseguram que, minutos antes de morrer, ela teria recebido a visita de dois religiosos indianos que, como a poeta, nunca mais foram vistos. A sua biografia, como podemos perceber, ainda está para ser escrita. As pistas são muitas, as lendas inúmeras, mas os verdadeiros fatos estão todos impressos em seus livros de poemas, em suas crônicas, em seus artigos acadêmicos – enfim, nas suas palavras.
Fonte:
Cecília Meireles: 110 anos, Revista Cult, por Valéria Lamego 
Leia mais em:
Cecília em Portugal, por Leila B. V. Gouveia 
Cecília Meireles: imagens femininas, por Maria Lúcia Dal Farra 
Cecília Meireles: poeta e educadora 
A cultura liberta, o catolicismo escraviza: Cecília Meireles e o ensino religioso nos anos 1930, por José Damiro Moraes
Livro Aberto: 50 anos sem Cecília Meireles, a pastora das nuvens
Poema de Mário Quintana em homenagem a Cecília Meireles
A última entrevista de Cecília Meireles, por Carlos Willian Leite 
Uma viagem pelas crônicas, por Celso Castro

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O Governo do então Estado da Guanabara denominou de Sala Cecília Meireles o grande salão de concertos e conferências do Largo da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro. Em São Paulo, tornou-se nome de rua no Jardim Japão. Em 1974, seu nome foi dado a uma Escola Municipal de Educação Infantil, no Jardim Nove de Julho, bairro de São Mateus, em São Paulo. Em 1981, uma cédula de cem cruzados novos, com a efígie de Cecília Meireles, é lançada pelo Banco Central do Brasil, no Rio de Janeiro.
FONTE: http://jornalggn.com.br/noticia/cecilia-meireles-113-anos-de-nascimento-e-50-de-sua-morte