quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

"Erótica é a alma"


Sobre a passagem do tempo e nossa resposta ao envelhecimento


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Adélia Prado certa vez escreveu: "Erótica é a alma". Além de poética, a frase é redentora, pois alivia o peso da sensualidade a qualquer custo, a busca desenfreada pela juventude perdida, a corrida pelos últimos lançamentos da indústria cosmética.
E nos autoriza a cuidar mais da alma, a viajar pro interior, a descobrir o que nos completa. Pois se os olhos são as janelas da alma, de que adianta levantar pálpebras se descortinam um olhar de súplica?
Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios; erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.
Porque não adianta sex shop sem sex appeal; bisturi por fora sem plástica por dentro; lifting, botox, laser e preenchimento facial sem cuidado com aquilo que pensa, processa e fala; retoque de raiz sem reforma de pensamento; striptease sem ousadia ou espontaneidade.
Querendo ou não, iremos todos envelhecer_faz parte da vida. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos_ se você permitir.
O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior_ tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte pra suportar.
Não tem problema cuidar do corpo. É primordial ter saúde e faz bem dar um agrado à auto estima. O perigo é ficar refém do espelho, obcecado pelo bisturi, viciado em reduzir, esticar, acrescentar, modelar_ até plástica íntima andam fazendo! Aprenda: Bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.
Vivemos a era das emergências. De repente tudo tem conserto, tudo se resolve num piscar de olhos, há varinha de condão e tarja preta pra sanar dores do corpo, alma e coração. Como canta Nando Reis, "O mundo está ao contrário e ninguém reparou..." Desaprendemos a valorizar aquilo que é importante, o que é eterno, o que tem vocação de eternidade. E de tanto lustrar a carapaça, vivemos a "Síndrome da Maça do Amor": Brilhantes por fora e podres por dentro. O tempo tornou-se escasso, acreditamos que "perdemos tempo" quando lemos um livro inteiro, quando passamos horas com nossos filhos, quando oramos ou viajamos com a família. E nos iludimos achando que poderemos "segurar o tempo" cuidando da flacidez, esticando a pele, preenchendo espaços.
Cuide do interior. Erotize a alma. Enriqueça seu tempo com uma nova receita culinária, boas conversas, um curso de canto ou dança. Leia, medite, cultive um jardim. Sinta o sol no rosto e por um instante não se preocupe com o envelhecimento cutâneo. Alongue-se, experimente o prazer que seu corpo ainda pode lhe proporcionar. Não se ressinta das novas dores, da pouca agilidade, dos novos vincos. Descubra enfim que a alegria pode rejuvenescer mais que o botox. E não se esqueça: em vez de se concentrar no lustre da maçã, trate de aproveitar o sabor que ela ainda é capaz de proporcionar...

Fonte: http://lounge.obviousmag.org/fabiola_simoes/2015/02/erotica-e-a-alma.html

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Lugares da infância dos quais o ser humano é feito

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Brinquedos, roupas, fotos, músicas, cheiros.
Há várias maneiras de fazer com que as memórias da infância venham à tona. Basta que um desses itens apareça para que o cérebro seja invadido por uma torrente de imagens aparentemente esquecidas. É como vasculhar aquele quartinho da bagunça. Só tirando todas as coisas que estão lá empilhadas para se ter noção do que há de esquecido e remoto.
Não há período que carregue maior valor nostálgico. É o único momento em que não se acha que a grama do vizinho é mais verde. A meninice alheia nunca é melhor que a sua própria. Os gibis em formatinho, com papel tipo jornal, sempre serão melhores que os de hoje, feitos de papel couché. Naquela época havia o Intercine, que sempre trazia uma boa surpresa nas madrugadas. Era muito melhor jogar bola ou andar de bicicleta na rua do que ficar entretido com uma infinita variedade de jogos com gráficos mais realistas do que nunca. Os programas humorísticos eram muito melhores e mais criativos que os de hoje.
Mas talvez não há força motriz reativadora de lembranças maior que os lugares frequentados durante a pequenez. O ser humano tem essa coisa meio estranha de ter o cordão umbilical cortado no momento em que chega ao mundo para depois criar raízes no lugar onde mora. A rua da casa em que a família morou por muito tempo até ter que se mudar por conta do novo emprego arranjado pelo pai na filial da firma  localizada numa cidade distante ainda trás à tona a lembrança de amigos que nunca mais foram vistos. A quadra da antiga escola foi reformulada, está coberta, mas ainda consegue reavivar aquelas tardes em que havia cinco times se revezando em disputas que terminavam com o selecionado que fizesse dois gols de vantagem. A praça da igreja, que teve a maior parte de suas árvores arrancadas, remete aos primeiros beijos escondidos e proibidos para tão pouca idade.
Essa ideia de ligação entre o indivíduo e o espaço em que viveu (ou vive) experiências simbólicas é muito bem retratada no excelente romance Mãos de Cavalo, de Daniel Galera. O narrador conta alternadamente a história de um mesmo personagem, mas em períodos diferentes de sua vida. Enquanto o Hermano adulto passeia a esmo pelas ruas onde viveu suas primeiras e mais traumáticas experiências de vida, o Hermano menino/adolescente leva seus tombos e passa por situações que o marcarão para sempre. E em todas essas ocasiões, os cenários onde tudo aconteceu é o que fazem o Hermano adulto refletir e tentar reparar o irreparável, reverter o irreversível. Galera ainda possui outro trunfo: ao contrário de autores já consagrados, ele não trata de literatura em seus romances, mas de ícones pop, como o filme Mad Max 2, histórias em quadrinhos de super-heróis e a banda Led Zeppelin, aproximando sua obra do leitor que teve uma infância tão saudosa quanto a de seu protagonista.
Alice, personagem do conto A caixa, pertencente ao livro Pó de Parede, de Carol Bensimon, tem sua infância marcada pela moderna estranheza arquitetônica da casa em que cresceu.  Uma construção futurista com o formato de uma caixa que incomoda os vizinhos ao mesmo tempo que atrai a curiosidade de todos para saber o que há lá dentro, o que há dentro da cabeça de Alice, essa menina tão estranhamente especial? De alguma maneira, essa casa a acompanhará e estará em seu âmago até mesmo quando ela for para longe, passar um tempo na França e for obrigada a voltar por conta de uma tragédia que remete ao seu passado.
A infância, no fim das contas, talvez seja isso mesmo, algo inerente e colado, que está sempre dentro do ser humano para lembrá-lo do que ele realmente é feito.
Fonte:http://homoliteratus.com/revisado-lugares-da-infancia-dos-quais-o-ser-humano-e-feito/ 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Domingo de manhã




«Sou uma escrava das palavras… Tenho uma absoluta fé nas palavras. Presto sempre atenção às palavras que os outros pronunciam, mesmo as dos desconhecidos. Principalmente as dos desconhecidos. Dos desconhecidos podemos sempre esperar ainda alguma coisa.»
Do testemunho de Maria Voïtechonok, 57, em La Fin de l’Homme Rouge (Actes Sud, 2013).
 
Fonte: http://www.aterceiranoite.org/

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O escândalo dos outros

CASO HSBC

Por Luciano Martins Costa 

 
Um dos maiores escândalos financeiros de todos os tempos se desenrola na Suíça e tem como epicentro o braço de finanças privadas do HSBC, banco britânico com origem em Hong Kong, e suas repercussões ecoam por quase todo o mundo. Menos no Brasil.
O pedido público de desculpas, distribuído pelo banco a toda a imprensa mundial, foi publicado no domingo (15/2) em jornais, revistas, portais e boletins especializados. No Brasil, pode-se ler uma nota na Folha de S. Paulo de segunda-feira (16/2) citando o assunto. Ainda assim, o texto curto do jornal paulista não faz referência à extensão do caso e, no que se refere ao Brasil, apenas observa que “na lista de contas secretas do banco vazada no Swiss Leaks há ao menos 11 pessoas ligadas ao escândalo da Petrobras”.
Swiss Leaks não é um endereço na internet: é o nome dado à investigação jornalística independente sobre a gigantesca operação de fraude fiscal de que é acusada a subsidiária do HSBC em Genebra. Mais de 180 bilhões de euros teriam passado pelas contas de 100 mil clientes e operadas por 20 mil empresas offshore em transações do banco no período até aqui investigado.
A reportagem foi produzida pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) a partir de vazamentos produzidos por um ex-funcionário do banco, o engenheiro de software Hervé Falciani, e entregue a autoridades da França em 2008 (ver aqui). Desde então, mais de 130 jornalistas vêm trabalhando na apuração dos dados, em 49 países.
Somente esse esforço jornalístico deveria merecer da imprensa brasileira muito mais do que uma nota curta perdida num pé de página ou o interesse restrito em nomes de empreiteiros e doleiros envolvidos na Operação Lava Jato. Se não fosse pela grandiosidade dos números, que revelam a extensão das fraudes que sustentam grandes fortunas por todo o mundo, seria de se esperar que um jornalismo minimamente objetivo se interessasse ao menos por um fato revelado na investigação: são muitos os milionários brasileiros citados nos documentos, e não apenas os 11 nomes ligados de alguma forma ao escândalo da Petrobras.

O mapa da lavagem

O que os jornais brasileiros temem revelar? Não erra quem imaginar que entre as 6.066 contas suspeitas de 8.667 clientes que ligam o banco suíço ao Brasil podem ser encontrados nomes surpreendentes. Sabe-se, por exemplo, que os donos do grupo argentino de comunicação Clarín estão na lista.
Para se ter uma ideia da extensão do escândalo, basta citar que as contas ilegais, pelas quais foram fraudados os tesouros de dezenas de países, incluem políticos da Inglaterra, Rússia, Ucrânia, Geórgia, Quênia, Romênia, Índia, Liechtenstein, México, Líbano, Tunísia, República do Congo, Ruanda, Zimbábue, Paraguai, Djibuti, Senegal, Venezuela, Filipinas e Argélia.
Trata-se de um mapa precioso para o rastreamento de dinheiro desviado por políticos corruptos, ditadores, além de contrabandistas de armas e diamantes e traficantes de drogas.
O banco privado onde circulava esse dinheiro era parte do conglomerado Republic Bank de Nova York, que foi comprado pelo grupo britânico do banqueiro Edmond Safra, judeu de origem libanesa que se naturalizou brasileiro. Safra morreu em dezembro de 1999, quando era finalizada a negociação, em um incêndio provocado por dois supostos assaltantes que invadiram seu luxuoso apartamento em Montecarlo.
O noticiário da época conta que Safra havia informado autoridades dos Estados Unidos que o Republic Bank estava sendo usado pela máfia russa para lavar dinheiro. O enredo inclui ainda agentes do serviço secreto israelense, que treinaram seus seguranças particulares, e outros detalhes instigantes, entre eles o fato de os supostos ladrões terem entrado e saído com facilidade de um dos edifícios mais protegidos da capital do principado de Mônaco.
Mas nada disso parece interessar a brava imprensa brasileira. A mídia nacional não parece curiosa, por exemplo, com o fato de que o Brasil é o nono país na lista dos maiores valores encontrados nas contas suspeitas: US$ 7 bilhões pertencentes a brasileiros ou estrangeiros com negócios no Brasil foram encontrados no HSBC Private Bank.
O texto da reportagem do ICIJ observa que nem todo dinheiro listado nos documentos é ilegal, mas autoridades de vários países estão examinando todos os negócios do banco.
No Brasil, o assunto é acompanhado apenas por um ou outro blogueiro: nossa imprensa entende que esse é um escândalo dos outros.
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_escandalo_dos_outros

Velha mídia brasileira esconde escândalo mundial das contas secretas do HSBC na Suíça

Por Patricia Faermann, do Jornal GGN

A lista de nomes de mais de 100 mil correntistas da filial do HSBC em Genebra, que construiu uma indústria de lavagem de dinheiro, intermediada por empresas offshore como forma de fugir da fiscalização dos países de origem, está correndo pelo mundo. Aos poucos, cada uma das pessoas e entidades estão sendo reveladas. França, Espanha, Suíça, Dinamarca, Índia, Angola, Bélgica, Chile, Argentina, e outros países, divulgam reportagens detalhadas a cada dia, com novas informações. Menos o Brasil.
O primeiro jornal a ter conhecimento foi o francês Le Monde. Ele teve acesso aos dados secretos de uma investigação iniciada em 2008, pelo governo da França, por meio de informações vazadas do ex-funcionário do HSBC, franco-italiano especialista em informática, Hervé Falciani.
Percebendo que o esquema envolvia mais de 200 países, o Le Monde decidiu compartilhar todo o material com o ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), uma rede que integra 185 jornalistas de mais de 65 países, que investigam casos em profundidade. Do Brasil, são cinco membros: Angelina Nunes, Amaury Ribeiro Jr., Fernando Rodrigues, Marcelo Soares e Claudio Tognolli.
Os cinco, portanto, teriam acesso à considerada maior base de investigações fiscais do mundo, até hoje, de posse inicial do Le Monde. Nesses arquivos estão os nomes, profissões e valores de ativos de todos os clientes da filial do HSBC na Suíça. O ponto fraco dos documentos é delimitar quando houve indícios de participação de ilegalidades, uma vez que não é proibido ter uma conta bancária na Suíça. Estão incluídos nomes da realeza, figuras públicas, políticos, celebridades, empresários.
O ICIJ formou um grupo menor de jornalistas para investigar os documentos do projeto denominado como Swiss Leaks. Participam todos os países do Consórcio. Do Brasil, Fernando Rodrigues, do Uol, é o único que tem em mãos as apurações dos clientes brasileiros.
Até o momento, as informações divulgadas pelo ex-repórter da Folha de S. Paulo são de que os dados do HSBC indicam 5.549 contas bancárias secretas de brasileiros, entre pessoas físicas e jurídicas, em um saldo total de US$ 7 bilhões. Nenhum nome. Fernando Rodrigues explica que entrou em contato com autoridades brasileiras, para saber se há ilegalidade nessas operações bancárias, ou se os valores foram declarados à Receita. E que estaria desde novembro aguardando a resposta.
Essa desculpa não bate com o histórico do jornalista. O fato de divulgar a existência da lista e segurar os nomes dá margem a toda sorte de interpretações.
Enquanto isso, o jornalista investigativo argentino, Daniel Santoro, também membro do ICIJ,publica nomes e sobrenomes: os empresários Juan Carlos Relats, Raúl Moneta, e pessoas próximas ao governo, como o grupo Werthein. Os chilenos Francisca Skoknic e Juan Andrés Guzmán, também jornalistas, divulgam os conhecidos de alto patrimônio local: Andrónico Luksic, José Yuraszeck, Ricardo Abumohor, Óscar Lería, Álvaro Saieh, José Miguel Gálmez e o clã Kreutzberger, com filhos e parentes do apresentador de televisão “Don Francisco”.



“O Instituto de Religiosas de San José de Gerona chegou a ter 2,7 milhões na Suíça”, foi a última manchete do jornal espanhol El Confidencial, que horas antes também publicou que a família de empresários Prado figuravam na lista. Nas reportagens, o jornal indica: “a lista Falciani foi descoberta”.



Da Bélgica, o Mondiaal Nieuws mancheta: “entre os 722 belgas da lista do HSBC, estão novamente um monte de diamantes industriais bem conhecidos e descendentes de famílias nobres”. A mesma linha segue o folhetim indiano The Indian Express: “77 dos 1.195 indianos na lista suíça do HSBC estão ligados à indústria de diamantes. O jornalista Appu Esthose Suresh viajou à Mumbai para descobrir como uma pequena empresa familiar controla a indústria”.
O Paraguai denunciou o próprio presidente Horacio Cartes, que tem uma conta na filial do banco na Suíça. Egito, Dinamarca, Rússia, os países não param. O que pode ser o maior esquema de rombo fiscal está paralisando o noticiário mundial.



No Brasil, o jornalista que poderia trazer as melhores investigações publicou quatro reportagens em sua página do blog. Três delas (aqui, aqui e aqui) são a tradução de artigos de outros jornalistas estrangeiros, sem nenhuma referência ao que ocorre aqui, e quem está envolvido.
Na quarta reportagem, enquanto aguarda a resposta das autoridades brasileiras, Fernando Rodrigues deu espaço a dados latino-americanos: “na América Latina, nacionais de vários países estão na lista do HSBC. (…) O saldo total máximo mantido nessas contas secretas de latino-americanos ultrapassa US$ 31 bilhões”.
O Brasil figura como o 9º no ranking de países com a maior remessa de dólares, de acordo com os arquivos vazados da Suíça. A quantia máxima de dinheiro associada a um cliente ligado ao Brasil foi de US$ 302 milhões. Foram abertas 5.549 contas de clientes brasileiros entre 1970 e 2006. Essas informações estão no site do ICIJ.



Os documentos ainda mostram que 8.667 clientes são vinculados ao Brasil. Destes, 55% tem um passaporte brasileiro ou a nacionalidade. No gráfico, é destacada a distribuição entre os tipos de contas: 70% numeradas, 10% contas vinculadas a companhias Offshore, e 20% vinculadas a uma pessoa.


As investigações, partindo de jornalistas pelo mundo, está permitindo recuperar centenas de milhões de dólares em impostos não pagos.
Como bem frisaram os jornalistas chilenos Francisca Skoknic e Juan Andrés Guzmán, “o interesse em divulgar o conteúdo destas contas não é baseado na curiosidade em conhecer os segredos dos milionários. Este projeto de jornalismo internacional – que participam mais de 140 jornalistas de 45 países – busca trazer luz sobre o dinheiro depositado na Suíça, uma jurisdição utilizada pelo alto sigilo sobre os ativos, que os protege e, em particular, sobre os clientes do HSBC, o banco que já foi objeto de uma investigação do Senado dos EUA que revelou que tem sido usado para proteger os fundos de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, entre outras irregularidades. Além disso, um grande número de contas – incluindo as de muitos chilenos – estão ligados ao uso de empresas sediadas em paraísos fiscais, uma das maneiras mais comuns de esconder quem são os verdadeiros donos”.

FONTE: http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/forca-da-grana/velha-midia-brasileira-esconde-escandalo-internacional-das-contas-secretas-hsbc-n

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Faada Freddy - We Sing In Time (SENEGAL)

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2015


Casa que abriga, terra que produz, direitos que reconhecem a cidadania. Enquanto não entendermos isto como política, vamos continuar fazendo pequenas caridades, prestando solidariedade apenas aos que são objetos de campanhas midiáticas de propósitos oportunistas, aguardando elogios, cultivando dependências e vivendo no nosso pequeno mundo cada dia mais desigual, mais violento e menos fraterno.
ML

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Papa: “Jesus não se escandaliza com abertura ou outra forma de pensar”


O Papa na Basílica de São Pedro. / Franco Origlia (Getty Images)

Neste domingo, o Papa Francisco reduziu todo seu pontificado em duas folhas e meia. Durante a homilia dirigida aos 20 novos cardeais nomeados no sábado, Jorge Mario Bergoglio admitiu que a Igreja se encontra em uma encruzilhada de “duas lógicas de pensamento e de fé”, a de se afastar do perigo “por medo de perder os que foram salvos”, e a de “alcançar e curar os que estão distantes”. Francisco, mais contundente do que nunca, colocou Deus como testemunha para deixar claro qual é o caminho a seguir: “Jesus não tem medo do escândalo, não tem medo como pessoas fechadas que se escandalizam com qualquer abertura, com qualquer passo que não entre em seus esquemas mentais ou espirituais, com qualquer carícia ou ternura que não corresponda à sua forma de pensar e à sua pureza ritualística”. Bergoglio pediu aos novos cardeais—com a mensagem também entregue aos veteranos— que “não se isolem em uma casta” e fez uma advertência de que a Igreja está colocando em risco sua credibilidade em relação à atenção aos marginalizados: “Não fiquem olhando o sofrimento do mundo de forma passiva”.

Quase dois anos depois de sua eleição, as velhas estruturas do Vaticano continuam rangendo sob os passos experientes de Bergoglio. Até o argentino chegar, a Igreja oficial vivia tão confortável em seus palácios que, quando se perguntava a algum alto mandatário sobre um assunto que parecia exigir uma decisão urgente, a resposta vinha com inércia romana: “Já tivemos esse problema no século XIII...”. Mas a piada já não funciona. Bergoglio tem pressa e—na Cúria sabem muito bem disso—ai de quem não acompanhar o ritmo.
A homilia do domingo não será esquecida. Na cópia que a assessoria de imprensa do Vaticano distribuiu para os jornalistas, é possível constatar que foi minuciosamente trabalhada: as duas folhas e meia foram fundamentadas em 22 passagens das sagradas escrituras. Talvez para deixar claro —para os que estão dentro, que é onde costumam estar os inimigos mais perigosos— que sua mensagem está construída sobre os princípios autênticos— frequentemente esquecidos pelos donos da franquia— do cristianismo.
Jesus não escandaliza por qualquer carícia
que não corresponda à sua forma de pensar
Apoiando-se na passagem evangélica do leproso do qual Jesus se aproximou, contrariando as leis e os preconceitos da época, Francisco explicou qual deve ser a atitude da Igreja diante daqueles que sofrem marginalização física ou espiritual. “Jesus”, explicou Bergoglio, “responde à súplica do leproso sem demora e sem os costumeiros atrasos para estudar a situação e todas suas eventuais consequências. Para Jesus, o que conta, acima de tudo, é alcançar os que estão distantes”. E aí está o xis da questão. Alcançar os marginalizados. Não são poucos os que, vestidos de roxo ou não, continuam arrancando os cabelos diante das tentativas de abertura de Bergoglio em relação, por exemplo, aos divorciados que se casam novamente, os homossexuais ou os novos modelos de família. É aí que começa em boa medida o desafio que, segundo o Papa, a Igreja tem pela frente: “Nos encontramos na encruzilhada dessas duas lógicas: a dos doutores da lei, ou seja, afastando-se do perigo ao se distanciar da pessoa contaminada, e a da lógica de Deus que, com sua misericórdia, abraça e acolhe reintegrando e transformando o mal em bem, a punição em salvação e a exclusão em inclusão”.
Os doutores da lei se afastam do perigo para não se contagiar
Em um momento da homilia Francisco lembra os cardeais —aos que nomeou no sábado e também aos presentes— que, apesar da aparente encruzilhada, eles não terão escolha a não ser enfrentar a intempérie: “O caminho da Igreja, desde o concílio de Jerusalém em diante, é sempre o caminho de Jesus, da misericórdia e da integração. Isso não significa menosprezar os perigos ou deixar que os lobos entrem no rebanho, mas acolher o filho pródigo arrependido; curar com determinação e valor as feridas do pecado; atuar decididamente e não ficar olhando de forma passiva o sofrimento do mundo (...) Não descobriremos o Senhor, se não acolhermos genuinamente o marginalizado”. E algo que desagradaria aqueles antigos pregadores do “nacionalcatolicismo”, tão adeptos da ameaça do fogo eterno e do ranger de dentes: “O caminho da Igreja é o de não condenar ninguém para sempre”.

 Fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/15/actualidad/1424028421_109866.html

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Príncipe Ribamar da Beira Fresca



José Wilker

(extraído da Revista Globo Rural, 1995, e republicado na edição 85 do JuaOnline, de 7 de janeiro de 2007)



Imagine uma pequena cidade do interior do Ceará aí pelos  primeiros anos da década de cinquenta. Imagine Juazeiro do Norte nessa época. Aconteceu lá isso que vou contar. Pode ser que não tenha sido assim, mas é assim que eu me lembro e é assim que eu conto.

Havia lá um príncipe que se chamava Ribamar. Sempre vestido em seu traje de gala, todas as condecorações derramadas no peito, a solenidade atrapalhada pelas sandálias de dedo e um chapéu-coco. Com chuva ou com sol, ele descia a Rua Grande de Juazeiro todas as tardes, vindo de lugar nenhum e indo para nenhum lugar. Debaixo de um guarda-chuva branco, ele passeava sua solidão. É que o príncipe era noivo. A noiva morava num lugar distante, do outro lado do Oceano Atlântico. A viagem era uma aventura e ela demorava a chegar. O navio em que ela vinha, ele contava, enfrentando piratas, dragões, sereias e a inveja de outros príncipes preteridos, tardava, mas o amor era imenso e o mar pequeno. Ela, estava escrito, um dia chegaria.
Conheci o príncipe já perto dos anos 70 e, diziam, desde jovem ele esperava. A quem lhe perguntasse ou duvidasse, ele exibia as apaixonadas cartas de amor que ela escrevia e, para os mais incrédulos, o seu retrato. Com dedicatória: ao príncipe do meu coração, todo o amor da sua Gioconda da Vinci. O príncipe Ribamar era noivo da Gioconda, de Leonardo da Vinci.

Para muitos, o príncipe era maluco, um pobre coitado com o cérebro derretido pelo sol do sertão. Riam dele, roubavam e escondiam o retrato da Gioconda. Nestes momentos, o príncipe se imobilizava, uma explosão de dor o congelava. Eu me lembro dele, assim privado da sua amada, feito uma estátua no meio da praça. Parecia tão triste e ausente de si que, eu juro, flutuava a meio metro do chão, pendurado no guarda-chuva branco. Quando uma alma boa lhe devolvia seu bem mais precioso, a felicidade saltava dos seus olhos como um raio na tempestade. Talvez ele fosse realmente louco. Mas uma loucura que fazia nascer uma tal felicidade e uma felicidade que vinha de um amor tão grande me deixavam na dúvida.

E, um dia, a dúvida se dissipou. Cansado do descrédito e do deboche em relação ao seu noivado, ele decidiu apressar seu encontro com a noiva. Chega de navios, ela viajará por via aérea. Para uma plateia de invejosos, ele leu o telegrama: “embarco hoje Roma-Juazeiro vg via Panair do Brasil pt amor pt Gioconda da Vinci”. Depois de um silêncio cheio de ironias, alguém perguntou: e o avião desce onde? Foi quando o príncipe resolveu construir um aeroporto. Depois de um tempo lutando para conseguir adesões, argumentando com uns e com outros para que lhe ajudassem a preparar o terreno, montou uma pequena tropa de trabalhadores e começou a construção. Havia quem trabalhasse apenas por farra, mas o príncipe não tentou enganar ninguém. Todos seriam pagos. Afinal, trazia na sua bagagem o tesouro do seu dote. Ribamar, sem nenhuma ambição material, todo amor, prometia dividir aqueles bens entre o que o ajudaram.

Um belo dia, o aeroporto ficou pronto. Ou melhor, uma longa clareira aberta no Vale do Cariri, delimitada de um lado por um jardim plantado com capricho e, de outro, por um pomar onde faziam sombra juazeiros e mangueiras. E Ribamar esperou com seus companheiros. Os dias se passaram, os companheiros se foram e ele continuou esperando, só. Não sei quanto tempo ele esperou. Na cidade, ninguém mais falava ou lembrava dele. De repente, num domingo de sol nordestino, Ribamar reapareceu. Todo de branco, com aquele ar de quem viu Deus, dirigiu-se para a Matriz de Nossa Senhora das Dores, ajoelhou-se diante do altar e esperou. Aparentemente ia se casar. Ninguém se preocupou com ele. Foi esquecido e lá dormiu. Na manhã seguinte segurando um buquê, caminhava de volta para sua casa, que ninguém sabia onde era. 
Depois desse dia, não o vi mais. Minha família mudou-se para Recife e, durante muito tempo, Juazeiro era uma lembrança, nada mais. Nunca mais soube do Ribamar. Entretanto, o atual aeroporto de Juazeiro do Norte, trazido pelo progresso, foi construído sobre o terreno aberto por Ribamar para a chegada da sua Gioconda. Eu acho que, por justiça, deveria ser chamado de Aeroporto Príncipe Ribamar.

José Wilker, 1995
Fonte: http://oberronet.blogspot.com.br/2011/07/principe-ribamar-o-sonhador-de-juazeiro.html


 
Foto publicada em  http://www.portaldejuazeiro.com/2012/02/viva-o-principe.html

Quem passou pelo Cariri nos anos 60 invariavelmente conheceu o príncipe ou as estórias que contavam sobre ele. Entre outras, dizia-se que ele tinha uma fábrica de descascar banana, uma usina de produzir fumaça e coisas do gênero.  Lembro sempre dele nas minhas recordações do Crato em meados dos anos 60. Ainda hoje gosto do Crato e sempre digo que se eu tirasse na mega sena moraria na Praça da Sé ainda que para isso gastasse inteirinho o dinheiro do premio. Eita, Cratinho de açúcar!
ML

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ipaumirim-CE – TAC regulariza abastecimento de água na cidade


 

O Ministério Público do Estado do Ceará, através da promotora de Justiça da comarca de Ipaumirim, Camilla Rolim de Medeiros, celebrou, no dia 12, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com as empresas CAGECE, COELCE, COGERH e PRIMOR, a fim de regularizar o abastecimento de água naquele município, bem como garantir uma utilização consciente da água na região. Através do TAC, ficou acordado que a empresa Primor arcará com os custos provenientes da ligação de energia elétrica necessária para ativação da adutora. A CAGECE, por sua vez, realizará a mudança de titularidade da ligação elétrica para o seu nome, bem como realizará a ligação direta entre a adutora e a rede de água da cidade de Ipaumirim.
 Há anos a cidade de Ipaumirim vivencia uma precariedade no abastecimento de água e estava à espera da finalização e ativação da adutora do Jenipapeiro para amenizar esta situação. Isso porque a adutora em questão tem como cidades destinatárias Ipaumirim, Baixio e Umari. O Ministério Público constatou que as obras estavam finalizadas, entretanto, existia um impasse entre as empresas supramencionadas acerca das atribuições de cada uma para a ativação da adutora, notadamente com relação à instalação da rede elétrica no setor.
No TAC ficou definida, ainda, a necessidade de apresentação de um plano de racionamento de água para a região até o dia 20 de março de 2015.  A Coelce, por sua vez, terá até o dia 21 de fevereiro de 2015 para realizar a instalação da rede elétrica que propicia o funcionamento imediato da adutora do Jenipapeiro. Já a COGERH ficou responsável por realizar uma campanha educativa de utilização consciente da água, destinada à população da cidade em comento, a qual terá início em 13 de março de 2015.
Todas essas medidas garantem que o abastecimento de água da cidade de Ipaumirim ocorrerá, através da adutora do Jenipapeiro, ainda no mês de fevereiro de 2015. Em caso de descumprimento das obrigações avençadas, as empresas acordantes ficarão sujeitas ao pagamento de multa diária no valor de R$ 1.000,00, a qual será revertida em favor do Fundo Estadual de Direitos Difusos do Ceará.

O que é TAC – Termo de Ajuste de Conduta
É um documento utilizado pelos órgãos públicos, em especial pelos ministérios públicos, para o ajuste de condutas contrárias à lei.
FONTE:http://ipaumirim.diariojovem.com/33995/ipaumirim-ce-tac-regulariza-abastecimento-de-agua-na-cidade/





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Parabéns, Zê!

Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante!
Paulo Freire
 
Foi isso que vc fez a sua vida inteira, razão pela qual é amada, admirada e respeitada por todos nós que fomos seus alunos.
Que venham muitos anos mais para aprendermos as lições que vc sempre tem para nos ensinar.

Dentro do quadro azul

por Patrícia Reis, em 11.02.15

O soldado mantém-se quieto, calado. Consegue cheirar o seu suor, o seu sexo, a sua boca seca, o azedo do medo. Tem 19 anos. Apenas 19 anos. O carro andou aos solavancos e o homem ao volante, gritou qualquer coisa em árabe. Havia um padrão preto e branco de um kaffiyeh.
Lembrou-se das imagens de Yasser Arafat, cartazes que viu em criança, com a legenda “sempre contigo”, há muito tempo, antes de Ramallah, da velhice, da doença, do hospital em Paris, da morte. Nessa altura ele, o soldado de 19 anos no carro a fugir à vida, tinha beijado e penetrado a sua primeira mulher.
O cheiro a sexo era distinto de tudo o resto. Tinha sido num fim de tarde, em casa dos pais dela, no centro de Telavive, um bairro de gente com dinheiro. Ele dissera:
Não sabia que a tua família tinha dinheiro.
Dizes bem, a minha família. Eles e eu: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Fora um momento erótico, ela a roçar-se nele com os jeans apertados, o soutien preto a despontar da camisa. A erecção doía-lhe. Doía-lhe tanto. As gotas de suor no vale dos seios dela, entre as pernas, na barriga, junto ao mundo que é a forma do umbigo.
Ela disse que não era preciso ter pressa e chupara-o até ao orgasmo e no desalento de tudo aquilo, ali no sofá, com a cnn a dar o boletim meteorológico do mundo, sentou-se em cima dele, no sexo ainda erecto, branco de esperma, e começou a mexer-se em cima dele até que o desejo regressou e ela riu, quase num tom jocoso, celebrando:
Ah, 17 anos.
Ela tinha 20. Uma velha. Uma veterana. Acabara de sair dos dois anos de exército obrigatório, tinha estado em Goa, fumado e metido todo o tipo de pastilhas. Agora, em Israel, ia trabalhar com o pai, dono de uma empresa de ferramentas com contratos milionários com o Japão. De dois em dois anos regressaria ao exército, para reciclagem. Até aos 45 anos o exército seria uma rotina. A ideia de que o país é quem o defende era uma lengalenga desde criança, uma voz constante. Somos um pais jovem, temos inimigos, somos os eleitos do sofrimento de Deus.
Pode ser que tenha sorte e um dia mate um filha da puta de um árabe.
Ele, no sofá, depois do sexo, sem prestar atenção à conversa, sem saber o que dizer, lembrou-se da boca dela e do cheiro do perfume no seu pescoço. Não queria saber de árabes. Não queria saber de autocarros a explodir, sirenes a passar. Desde sempre que fora treinado para aquilo. Viver em Israel. É-se treinado para viver ali, naquele sítio inventado.
Uma bomba caí hoje, amanhã já está tudo normal, não há sinais. Como é que se sabe se a explosão foi grande? Se foi mortal? Espera-se pelas ambulâncias. Quantas mais forem, mais mortos, quantos mais mortos, menos devemos querer saber. Palavras da mãe.
A mãe, olhos azuis, loira, unhas de gel, um passaporte cheios de carimbos dos países do mundo. A mãe que lê para combater as bombas, os árabes, o holocausto e até as 25 horas de jejum do Yom Kipur, o dia perdão, da purificação do espírito. Mãe é um bicho universal, dissera ela, a rapariga ao seu lado. Ele discordou mas calou-se. Antes de ser mãe, é-se judia, antes de ser mãe, é-se israelita, da Alemanha, da Polónia, da Rússia. Como o filho de Isaque, filho de Abraão, Jacob que luta com um anjo do senhor e torna-se o primeiro guerreiro israelita, mudando de nome, tornando-se Israel.
Agora nos carro, depois dos túneis junto a Gaza, Giled lembra-se dela, da voz dela. O medo que sente está para lá da dor no ombro, na mão partida, vermelha e inchada, os dedos que não fecham. O medo faz-lhe lembrar coisas idiotas. Ela, a mãe, o professor a dizer que adiar os estudos para ir para o exercito era uma pausa, uma brincadeira.
No meu tempo é que era à séria.
Nada podia ser mais sério do que isto. Giled já nem tenta abrir os olhos. Fica com eles cerrados a tentar ver outras coisas. Alguém o irá buscar. Alguém o irá salvar. Nunca ficará por ali. Nunca ninguém é deixado para trás. O pai desesperado por trocarem soldados palestinianos, terroristas pretensamente do Hamas, por corpos de soldados israelitas. A mãe a concluir:
Só te desespera a troca dos mortos pelos vivos porque não é o teu filho que tens de enterrar.
Giled percebe agora que toda a vida que planeou pode desaparecer à velocidade de um segundo não contabilizado. Todos os seus planos trocados, embrulhados, desfeitos pela vida. A vida trocou-me as voltas, pensa. O ombro dói cada vez mais e a mão está a latejar. Alguém o arrasta para fora do carro, brutal. Sente o seu corpo magro contra a chapa do carro, a areia da rua, as pedras de uns degraus que sobe trôpego. Nada será como planeou. Nada. Em Israel assumir que a idade é uma bênção parece uma coisa estranha. Giled deixa-se escorregar por uma parede que o arranha. Não tem camisola, a farda, a chapa de identificação, tudo o que é, ou era, o seu nome e origem. O pai dizia, tantas vezes, tantos almoços: um soldado é a sua unidade. Até agora não lhe ocorreu pensar nos companheiros, sente o estômago, sente frio, sente dor, mas não sente preocupação com os outros. Não tem que ver com ser boa pessoa, é sobrevivência. Instinto. Tem a cara inchado do murro que levou, um gesto inesperado.
O homem da kaffiyeh entra no quarto e diz-lhe
Passaram umas horas. Eles dizem que vêm vingar-te. Que nenhum soldado é abandonado. Tu sentes-te abandonado?
Giled não responde. O homem agacha-se lentamente, fica à altura dos olhos dele. Tem um sorriso ligeiro. Olha para a mão inchada, com a ponta do dedo pressiona o ombro. Levanta-se.
Não é desta que vais morrer, soldado. Ainda não é agora. Quando chegar a tua hora, aviso. Não te preocupes. Eu cumpro sempre com a minha palavra.
Giled pensa que não sabe pensar em árabe. Que a diferença essencial entre eles é uma só: eles não têm medo de morrer.
Eu tenho. Eu tenho medo de morrer.
A sua voz, a meia voz, desperta-o por fim para a verdade de tudo aquilo. Ao fundo, na parede, está uma tela grande em tons de azul, rasgados por brancos rosados. Giled começa a chorar. O seu futuro é aquele quadro desconhecido. Não vai ver mais nada.
(Gilad Shalit, 19 anos, foi raptado na Faixa de Gaza em Junho de 2006 pelo Hamas. Voltou a casa em Outubro de 2011, depois da libertação de presos palestinianos.)
Fonte: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/