José Wilker
(extraído da Revista Globo Rural, 1995, e republicado na edição 85 do JuaOnline, de 7 de janeiro de 2007)
Imagine uma pequena cidade do interior do Ceará aí
pelos primeiros anos da década de cinquenta. Imagine Juazeiro do Norte
nessa época. Aconteceu lá isso que vou contar. Pode ser que não tenha sido
assim, mas é assim que eu me lembro e é assim que eu conto.
Havia lá um príncipe que se chamava Ribamar. Sempre vestido
em seu traje de gala, todas as condecorações derramadas no peito, a solenidade
atrapalhada pelas sandálias de dedo e um chapéu-coco. Com chuva ou com sol, ele
descia a Rua Grande de Juazeiro todas as tardes, vindo de lugar nenhum e indo
para nenhum lugar. Debaixo de um guarda-chuva branco, ele passeava sua solidão.
É que o príncipe era noivo. A noiva morava num lugar distante, do outro lado do
Oceano Atlântico. A viagem era uma aventura e ela demorava a chegar. O navio em
que ela vinha, ele contava, enfrentando piratas, dragões, sereias e a inveja de
outros príncipes preteridos, tardava, mas o amor era imenso e o mar pequeno.
Ela, estava escrito, um dia chegaria.
Conheci o príncipe já perto dos anos 70 e, diziam, desde jovem ele esperava. A quem lhe perguntasse ou duvidasse, ele exibia as apaixonadas cartas de amor que ela escrevia e, para os mais incrédulos, o seu retrato. Com dedicatória: ao príncipe do meu coração, todo o amor da sua Gioconda da Vinci. O príncipe Ribamar era noivo da Gioconda, de Leonardo da Vinci.
Conheci o príncipe já perto dos anos 70 e, diziam, desde jovem ele esperava. A quem lhe perguntasse ou duvidasse, ele exibia as apaixonadas cartas de amor que ela escrevia e, para os mais incrédulos, o seu retrato. Com dedicatória: ao príncipe do meu coração, todo o amor da sua Gioconda da Vinci. O príncipe Ribamar era noivo da Gioconda, de Leonardo da Vinci.
Para muitos, o príncipe era maluco, um pobre coitado com o
cérebro derretido pelo sol do sertão. Riam dele, roubavam e escondiam o retrato
da Gioconda. Nestes momentos, o príncipe se imobilizava, uma explosão de dor o
congelava. Eu me lembro dele, assim privado da sua amada, feito uma estátua no
meio da praça. Parecia tão triste e ausente de si que, eu juro, flutuava a meio
metro do chão, pendurado no guarda-chuva branco. Quando uma alma boa lhe
devolvia seu bem mais precioso, a felicidade saltava dos seus olhos como um
raio na tempestade. Talvez ele fosse realmente louco. Mas uma loucura que fazia
nascer uma tal felicidade e uma felicidade que vinha de um amor tão grande me
deixavam na dúvida.
E, um dia, a dúvida se dissipou. Cansado do descrédito e do
deboche em relação ao seu noivado, ele decidiu apressar seu encontro com a
noiva. Chega de navios, ela viajará por via aérea. Para uma plateia de
invejosos, ele leu o telegrama: “embarco hoje Roma-Juazeiro vg via
Panair do Brasil pt amor pt Gioconda da Vinci”. Depois de um
silêncio cheio de ironias, alguém perguntou: e o avião desce onde? Foi quando o
príncipe resolveu construir um aeroporto. Depois de um tempo lutando para
conseguir adesões, argumentando com uns e com outros para que lhe ajudassem a
preparar o terreno, montou uma pequena tropa de trabalhadores e começou a
construção. Havia quem trabalhasse apenas por farra, mas o príncipe não tentou
enganar ninguém. Todos seriam pagos. Afinal, trazia na sua bagagem o tesouro do
seu dote. Ribamar, sem nenhuma ambição material, todo amor, prometia dividir
aqueles bens entre o que o ajudaram.
Um belo dia, o aeroporto ficou pronto. Ou melhor, uma longa
clareira aberta no Vale do Cariri, delimitada de um lado por um jardim plantado
com capricho e, de outro, por um pomar onde faziam sombra juazeiros e
mangueiras. E Ribamar esperou com seus companheiros. Os dias se passaram, os
companheiros se foram e ele continuou esperando, só. Não sei quanto tempo ele
esperou. Na cidade, ninguém mais falava ou lembrava dele. De repente, num
domingo de sol nordestino, Ribamar reapareceu. Todo de branco, com aquele ar de
quem viu Deus, dirigiu-se para a Matriz de Nossa Senhora das Dores, ajoelhou-se
diante do altar e esperou. Aparentemente ia se casar. Ninguém se preocupou com
ele. Foi esquecido e lá dormiu. Na manhã seguinte segurando um buquê, caminhava
de volta para sua casa, que ninguém sabia onde era.
Depois desse dia, não o vi
mais. Minha família mudou-se para Recife e, durante muito tempo, Juazeiro era
uma lembrança, nada mais. Nunca mais soube do Ribamar. Entretanto, o atual
aeroporto de Juazeiro do Norte, trazido pelo progresso, foi construído sobre o
terreno aberto por Ribamar para a chegada da sua Gioconda. Eu acho que, por
justiça, deveria ser chamado de Aeroporto Príncipe Ribamar.
José Wilker, 1995
Fonte: http://oberronet.blogspot.com.br/2011/07/principe-ribamar-o-sonhador-de-juazeiro.html
Quem passou pelo Cariri nos anos 60 invariavelmente conheceu o príncipe ou as estórias que contavam sobre ele. Entre outras, dizia-se que ele tinha uma fábrica de descascar banana, uma usina de produzir fumaça e coisas do gênero. Lembro sempre dele nas minhas recordações do Crato em meados dos anos 60. Ainda hoje gosto do Crato e sempre digo que se eu tirasse na mega sena moraria na Praça da Sé ainda que para isso gastasse inteirinho o dinheiro do premio. Eita, Cratinho de açúcar!
ML

Foto publicada em http://www.portaldejuazeiro.com/2012/02/viva-o-principe.html
Quem passou pelo Cariri nos anos 60 invariavelmente conheceu o príncipe ou as estórias que contavam sobre ele. Entre outras, dizia-se que ele tinha uma fábrica de descascar banana, uma usina de produzir fumaça e coisas do gênero. Lembro sempre dele nas minhas recordações do Crato em meados dos anos 60. Ainda hoje gosto do Crato e sempre digo que se eu tirasse na mega sena moraria na Praça da Sé ainda que para isso gastasse inteirinho o dinheiro do premio. Eita, Cratinho de açúcar!
ML
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