domingo, 13 de abril de 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Cora Coralina, de Goiás

Por Tamára Baranov - Rio Claro/SP

‘Este nome eu não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina... Gosto muito deste nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira.’ (Carlos Drummond de Andrade)
Cora Coralina (Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
(Goiás, 20 de agosto de 1889 - Goiânia, 10 de abril de 1985)

Poetisa e contista, doceira de profissão, Cora Coralina não teve muito estudo, fez apenas o primário. Teve seu primeiro livro ‘Poemas dos Becos de Goiás’ publicado quando tinha quase 76 anos de idade, uma obra poética sobre o cotidiano dos becos e ruas de Goiás. Cora foi ousada; fugiu de Goiás com um homem casado com o qual viveu em São Paulo e teve seis filhos; casaram-se quando ele enviuvou e apenas idosa e viúva retornou a Goiás, à mesma casa velha da ponte, residência ancestral de sua família, hoje seu museu. Ali residiu até a morte em 10 de abril de 1985. Embora hoje seja um grande nome da nossa Literatura, Aninha, já conhecida como Cora Coralina, só foi realmente reconhecida pelo povo brasileiro quando saudada por Carlos Drummond de Andrade no Jornal do Brasil, a 27 de dezembro de 1980.

Das Pedras

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.

(Meu Livro de Cordel, 8. ed., p. 13, 1998)

Cora Coralina, de Goiás
Por Carlos Drummond de Andrade
(Caderno B - Jornal do Brasil - Rio de Janeiro, sábado, 27 de dezembro de 1980 - Pagina 7)


Este nome não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina.
Cora Coralina, tão gostoso pronunciar este nome, que começa aberto em rosa e depois desliza pelas entranhas do mar, surdinando música de sereias antigas e de dona Janaína moderna.
Cora Coralina, para mim a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o Governador, as excelências, parlamentares, os homens ricos e influentes do Estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada.
Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária. Escutemos:
“Vive dentro de mim/uma cabocla velha de mau olhado/acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo.” “Vive dentro de mim/a lavadeira do rio Vermelho. Seu cheiro gostoso dágua e sabão.” “Vive dentro de mim/a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem-feito.” “Vive dentro de mim/a mulher proletária./Bem linguaruda,/desabusada, sem preconceitos.” “Vive dentro de mim/a mulher da vida./Minha irmãzinha.../tão desprezada,/tão murmurada...”
Todas as vidas. E Cora Coralina as celebra todas com o mesmo sentimento de quem abençoa a vida. Ela se colaca junto aos humildes, defende-os com espontânea opção, exalta-os, venera-os. Sua consciência humanitária não é menor do que sua consciência da natureza. Tanto escreve a Ode às Muletas como a Oração do Milho. No primeiro texto, foi a experiência pessoal que a levou a meditar na beleza intrínseca desse objeto (“Leves e verticais. Jamais sofisticadas./Seguras nos seus calços de borracha escura. Nenhum enfeite ou sortilégio”). No segundo poema, o dom de aproximar e transfigurar as coisas atribui ao milho estas palavras: “Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece./Sou o cocho abastecido donde rumina o gado./Sou a pobreza vegetal agradecida a vós, Senhor.”
Assim é Cora Coralina: um ser geral, “coração inumerável”, oferecida a estes seres que são outros tantos motivos de sua poesia: o menor abandonado, o pequeno delinquente, o presidiário, a mulher-da-vida. Voltando-se para o cenário goiano, tem poemas sobre a enxada, o pouso de boiadas, o trem de gado, os becos e sobrados, o prato azul-pombinho, último restante de majestoso aparelho de 92 peças, orgulho extinto de família. Este prato faz jus a referencia especial, tamanha a sua ligação com usos brasileiros tradicionais, como o rito da devolução: “Às vezes, ia de empréstimo à casa da boa Tia Norita/E era certo no centro da mesa de aniversário, com sua montanha de empadas bem tostadas. No dia seguinte, voltava,/conduzido por um portador que era sempre o Abdenago, preto de valor,/de alta e mútua confiança./Voltava com muito-obrigados/e, melhor cheinho de doces e salgados./Tornava a relíquia para o relicário...”
Relicário é também o sortido deposito de memórias de Cora Coralina.
Remontando à infância, não a ornamenta com flores falsas: “Éramos quatro as filhas de minha mãe./Entre elas ocupei sempre o pior lugar.” Lembra-se de ter sido “triste, nervosa e feia./Amarela, de rosto empalamado. De pernas moles, caindo à toa. “Perdera o pai muito novinha. Seus brinquedos eram coquilhos de palmeira, caquinhos de louça, bonecas de pano. Não era compreendida. Tinha medo de falar. Lembra com amargura essas carências, esquecendo-se de que a tristeza infantil não lhe impediu, antes lhe terá preparado a percepção solidária das dores humanas, que o seu verso consegue exprimir tão vivamente em forma antes artesanal do que acadêmica.
Assim é Cora Coralina, repito: mulher extraordinária, diamante goiano cintilando na solidão e que pode ser contemplado em sua pureza no livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Não estou fazendo comercial de editora, em época de festas. A obra foi publicada pela Universidade Federal de Goiás. Se há livros comovedores, este é um deles. Cora Coralina, pouco conhecida dos meios literários fora de sua terra, passou recentemente pelo Rio de Janeiro, onde foi homenageada pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, como uma das 10 mulheres que se destacaram durante o ano. Eu gostaria que a homenagem fosse também dos homens. Já é tempo de nos conhecermos uns aos outros sem estabelecer critérios discriminativos ou simplesmente classificatórios.
Cora Coralina, um admirável brasileiro. Ela mesma se define: “Mulher sertaneja, livre, turbulenta, cultivadamente rude. Inserida na gleba. Mulher terra. Nos meus reservatórios secretos um vago sentido de analfabetismo.” Opõe à morte: “aleluias festivas e os sinos alegres da Ressurreição. Doceira fui e gosto de ter sido. Mulher operaria.”
Cora Coralina: gosto muito deste nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira.

Fonte: http://jornalggn.com.br/video/cora-coralina-de-goias

terça-feira, 8 de abril de 2014

sábado, 5 de abril de 2014

Corridas


Pronta como a felicidade é na arte do escape, em vez de correr atrás dela fatiga menos, e dá maior a satisfação, deixar que venha ao nosso encontro. Também de nada adianta querê-la grande, como sonham os poetas e os amantes, pois é a miudinha a que com mais frequência se repete.
Sei do que falo, o gráfico da minha vida apresenta cumes e fundos muito semelhantes aos extremos da febre de quem sofre de sezões. Com eles descobri que um pico de felicidade, por intenso que seja, não faz contrapeso ao conforto e à segurança dos momentos de bem-estar, os quais dependem de pequenas coisas, muitas vezes até da rotina.
Prego no deserto. Também eu corri atrás dela, e muitas vezes me esfalfei.
Fonte: http://tempocontado.blogspot.com.br/

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O que são 80 anos?



Não sei ao certo o que são 80 anos. Numa operação matemática, posso contá-los em anos, dias, minutos, segundos mas seria só isso 80 anos? A matemática é fundamental para a ciência.  Ajuda a criar modelos, hipóteses, previsões, índices. Mas não dá conta da vida. Poderíamos imaginar que seriam as conquistas concretas ao longo desse tempo, elas são importantíssimas, alimentam perfis e biografias. Servem para a autoestima, acariciam a vaidade e ajudam a viabilizar operacionalmente as nossas aspirações. Resolvem os problemas concretos, o lado prático da vida.  Oportunizam bons empregos, pagam colégios, planos de saúde, alimentam nossos ideais de consumo, promovem viagens, sugerem planos para o futuro. Enquanto foco principal da vida tem prazo de validade.

Podemos pensar 80 anos em termos de história. O mundo virou pelo avesso de 1934 até agora. Guerras, ditaduras, novas configurações no mapa mundi, mudança de século, novos paradigmas, inovações tecnológicas, as inquietações de cada tempo. A gente atravessa tudo isso enquanto cuida do cotidiano sem se dar conta dos seus efeitos em nossas vidas. Como seria bom se parássemos um pouco para apreciar o tempo em que vivemos. Somos testemunhas das mudanças e isto faz toda diferença porque, percebendo ou não, os tempos também vão mudando a nossa forma de perceber o mundo, deslocam o foco dos nossos interesses e vão construindo uma sabedoria que o conhecimento por si mesmo não oportuniza.

Mas 80 anos é muito mais do que isso. Representam a grande luta  interior entre a segurança da tradição e o desafio das novidades. Como compor esse novo equilíbrio que sabemos temporário porque logo adiante precisamos fazer novos arranjos para não perdermos o bonde da vida?

E depois, ahhhhhh, depois temos que lidar com o nosso próprio combustível, os afetos, a pessoa que somos e que está presente em todos os momentos, juiz e  testemunha privilegiada dos nossos acertos e desacertos. Companhia que de nós não se separa, que dá ordens, que quer fugir quando a vida aperta mas que fica,  nunca nos abandona e nos dá o infinito prazer de ser único, ou como diria Drummond de Andrade, esse "estranho ímpar” que somos cada um de nós ao longo das nossas vidas.

Tudo isso e muito mais cabe em 80 anos que acabam multiplicando-se indefinidamente no legado que deixamos aos filhos, netos e a quem mais chegar.

Parabéns, que vc viva muitos anos mais  conservando a capacidade de se surpreender diante do mundo novo que brota a cada instante e que  instiga a nos fazer presentes. Acredito que é isto que  dá vontade de acordar no dia seguinte.
ML

Singela homenagem do nosso blog a Jarismar Gonçalves nos seus 80 anos

Jarismar Gonçalves - 80 anos

 
Nascido em 04 de abril de 1934, no sítio Unha de Gato, lugar denominado Poço Preto, às margens da BR 116, município de Ipaumirim. Filho de Alexandre Gonçalves da Silva e Maria Gonçalves de Melo.

Alexandre Gonçalves
(pai)
Licor Gonçalves (mãe)
Jarimas, Titica (esposa) e irmãos: José Sílvio, Vanda, Valquíria,
 Maria e Jarisvalda
Irmãos: Zé Gonçalves e Maria


Jarismar Gonçalves e Titica Felinto (esposa)
Alexandre Trineto (filho)
Jarismar e filhas: Márcia, Mércia e Marciana
Jarismar Segundo e família
Jarismar, Titica e netos

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Até que enfim encontro alguém que pensa como eu

Não gosto de efemérides. As efemérides montam um circo insuportável em torno de feitos, personagens ou valores importantes. Não gosto de um dia para celebrar José Afonso porque todos os dias são de celebrar José Afonso. Não gosto de calendários para ser feliz, horas para ser solidário, datas para celebrar a mulher, o livro ou o lince ibérico. Preferia sentir que as pessoas se importam realmente com as coisas, que reflectem os seus valores e ponderam as suas opções, a ficar com esta sensação repisada de uma memória colectiva que anda de empurrão. Hoje é dia de partilhar músicas do Zeca no facebook, ontem foi dia de relembrar Amália, amanhã será dia de partilhar Carlos Paredes, depois de amanhã choraremos a morte de Mandela e elogiaremos o talento de Eusébio e assinalaremos a enorme perda para a cultura portuguesa que será o desaparecimento de Manoel de Oliveira. Faremos tudo isto com um currículo miserável de profundo desrespeito e desinteresse pelas obras, pelos feitos, pelo sentido, pelo significado, faremos por fazer, porque fica bem, porque é dia de, porque o respeito e os ventos massivos de uma sociedade ordenada a tal obrigam. Deixamo-nos impelir pelas tendências como se fôssemos um catavento. Devíamos acabar com as efemérides e transformar cada segundo das nossas vidas num exercício de reflexão íntima sobre valores e referências pessoais.
Fonte:  http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com.br/search/label/Livro%20de%20estilo

segunda-feira, 31 de março de 2014

Aos amigos

Juarez e Bosco Macedo
Estamos com uma pessoa muito querida com um seríssimo problema de saúde. O nome dele é Juarez Macedo. Os mais jovens de Ip não devem conhece-lo, ele é filho de José Macedo e Soledade, irmão de Bosco, Giseldina, tio de Irma. Com estas informações dá para ter uma referência mais concreta. Esta é uma foto dele com Bosco e os mais velhos, com certeza, vão lembrar. Peço a todos que puderem, dentro da sua fé e conforme suas crenças, que intercedam a Deus por ele e pela família neste momento complicado. Desde já, muito obrigada.

sábado, 29 de março de 2014

Da beleza das mulheres




Uma mulher não é amada porque é bela, é bela porque é amada. Numa mulher que é amada, qualquer pequena coisa é uma perfeição absoluta: o azul das veias à transparência duma pele clara, um reflexo dourado e fugaz numa pele escura, um secreto sorriso, a unha roída, a prega na cinta quando roda o torso, o mamilo molhado que o bebé largou.

Isto, quanto ao principal. Depois, muito depois, vêm as preferências: o gosto de andar descalça, a entrega do corpo à música, o gosto de cozinhar e de comer, a capacidade de comer sem culpa, a gargalhada franca, o cabelo livre, a pose coquette que já nasceu sabendo ou, pelo contrário, a ausência completa de pose.

E é claro: o ser mulher.

Fonte: http://legoergosum.blogspot.com.br/

sexta-feira, 28 de março de 2014

A escolha de Kiev (Mauro Santayana)


(Hoje em Dia) - O Presidente Obama afirmou, em entrevista, para a imprensa holandesa, que Kiev “não precisa escolher entre leste e oeste”, e que é importante que o povo ucraniano tenha boas relações com a Rússia, os EUA, e a Europa.
Os ucranianos deveriam agradecer penhoradamente esse conselho, e lembrar que era exatamente isso que estavam fazendo antes que o Ocidente se metesse no país.
Kiev poderia ter sobrevivido, por muito tempo, com seu território intacto, se tivesse continuado seu movimento pendular tradicional, inclinando-se ora para o Ocidente, ora para a Rússia, buscando obter vantagens dos dois lados.
Ao dar ouvidos à OTAN, esticando a corda ao máximo, a ponto derrubar o governo, os neonazistas que assumiram o poder obrigaram a Ucrânia a queimar seus navios, sem olhar para trás.
Com isso, Kiev perdeu a Criméia, o mercado russo para seus produtos, o dinheiro prometido por Putin, e muito mais.
Depois de botar fogo na fogueira, o Ocidente - como se pode ver pelas declarações de Mr. Obama, está, apesar da retórica agressiva somada a “sanções” praticamente inócuas, tentando salvar a cara enquanto pensa em um jeito de se afastar do atoleiro  ucraniano.
Kiev deve 170 bilhões de euros, e precisa de 50 milhões de metros cúbicos de gás, todos os dias, para tocar a economia e não congelar.
Mesmo que fosse possível convencer a população europeia a pagar a conta, quando ainda sofre com as graves consequências da crise econômica, ainda haveria a questão do gás.
O engenheiro enviado pelos EUA para estudar a situação, disse que seria possível assegurar sete milhões de metros cúbicos de gás, até o fim do ano, desviando parte do gás russo fornecido à Europa, o que representaria apenas 14% da demanda ucraniana, para enfrentar um inexorável inverno, que, neste ano, como em todos os outros, vai chegar.
E isso, se a UE pudesse prescindir desse gás, que teria de ser pago pelos ucranianos, ao mesmo preço de mercado cobrado por Moscou dos próprios europeus.  
Ao dizer que Kiev não precisa escolher, necessariamente, entre Leste e Oeste, depois de tê-la empurrado contra Putin, os EUA estão lavando, olimpicamente, as suas mãos, como se nada tivessem a ver com a situação.
O seu recado, e o da OTAN, para os ucranianos, é o mesmo que o Coronel Pedro Tamarindo deu aos seus soldados, ao abandonar a Coluna de Moreira César, na Guerra de Canudos: em tempo de Murici, cada um cuide de si.
O que pode servir de advertência, para aqueles que, a exemplo de parte do exército de famintos, órfãos e refugiados da Primavera Árabe, se deixam seduzir pelas sinuosas sereias do Ocidente.
Elas não trazem Liberdade ou Prosperidade. Seu objetivo é destruir e fragmentar, com o seu canto – como fizeram nos Balcãs, no Iraque, no Afeganistão, no Egito e na Líbia, a unidade e a estabilidade – desde que não tenha armas atômicas - de qualquer nação que possa vir a ameaçar seus interesses no futuro.
Fonte: http://www.maurosantayana.com/

Pedala IP



A quantidades de novos ciclistas em Ipaumirim vem crescendo cada vez mais, alguns praticam o esporte para tentar emagrecer e se manter em forma, outros pelo prazer, mas uma coisa é certa pedalar faz bem.
Ontem, um grupo de ciclistas de Ipaumirim, Baixio e Cajazeiras (Paraíba),  fizeram uma rota um pouco maior do que o de costume, eles saíram de Ipaumirim em destino à Lavras da Mangabeira.
Segundos informações de um comentário de Acrisio Junior:
Foram 17 bikes, dois carros de apoio
A organização ficou por conta de Diego Lynamon e Ellere.

Mais detalhes sobre a rotina da cidade no Ipaumirim.com 

Fonte: Ipaumirim.com

quinta-feira, 27 de março de 2014

A última entrevista de Vinícius de Moraes


O poeta e compositor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista Narceu de Almeida Filho, em 1979
Quando o jornalista Narceu de Almeida Filho bateu este longo papo com Vinícius de Moraes, em sua casa, bem situada numa tranquila rua da Gávea, no Rio de Janeiro, não poderia imaginar que, no momento da edição da entrevista, o Poetinha já não existisse mais. Vinícius estava todo animado, layout novo, de cabelos cortados, barba raspada, vestido elegantemente e sem o seu famoso boné que o acompanhou durante muitos anos. Havia emagrecido vários quilos e abandonado temporariamente as excursões musicais para dedicar-se, novamente, à poesia. Poeta do amor, Vinícius estava ainda em lua-de-mel com sua mulher, Gilda, a quem conheceu na Europa, onde ela estudava. Entre pilhas de livros, discos, um violão, dois conjuntos de som e objetos de arte, ele falava de seu objetivo maior no momento — “fazer feliz essa moça” — e olhava, apaixonadamente, para a mulher sentada ao seu lado. A entrevista foi publicada no livro “As Entrevistas de Ele Ela”, editora Bloch.
Vinícius, você andou meio desaparecido, ultimamente, viajando muito. Como você está agora?
Eu estou bem, de um modo geral. Tenho uns problemas de dieta, para regularizar o metabolismo do meu açúcar, que é um pouco alto. Agora vou tirar umas férias e passar um mês em Punta del Este, dar uma descansada e terminar meus livros de poesia, que estão parados há quatro anos por causa desse negócio de shows. Foram quatro anos de pauleira o tempo todo, muita viagem, principalmente no Brasil e na Argentina, mas também na Europa. No ano retrasado estivemos na Itália e de novo no Olympia, em Paris. Agora fizemos mais ou menos o mesmo roteiro e incluímos Londres, onde eu não havia trabalhado ainda. Para mim foi uma surpresa muito boa, porque o show teve bastante sucesso. Do ponto de vista profissional, o ano foi ótimo, ainda que tenha me deixado um pouco de língua de fora… Mas tudo bem.
E agora você entra em férias para trabalhar?
É, férias para ver se escrevo um pouco. Esses livros estão realmente muito atrasados.
Quais os livros?
São dois livros. Um deles é o que venho escrevendo sobre o Rio de Janeiro. Há uns 25 anos que trabalho nesse livro. O outro são os poemas escritos de 1960 para cá, porque nesse tempo todo eu não publiquei nada de poesia, a não ser algumas edições especiais que fiz na Bahia, na editora do Calazans Neto. Uma delas é a “História Natural de Pablo Neruda”, que fiz quando ele morreu. Agora vou reunir esses poemas escritos a partir de 1960 e completar o livro, que tem um título meio contabilístico — “O Dever e o Haver”. É uma prestação geral de contas, do que foi feito, do que deixou de ser feito.
Esses dois livros que você vai publicar serão, em termos de poesia, a sua palavra final?
Eu considero esses dois livros uma espécie de limpeza geral da casa, sabe. Depois disso, se ainda tiver alguma coisa a dizer, terá de ser uma coisa realmente nova. Do contrário, eu paro de escrever. Para mim não é mais fundamental escrever. O que foi dito foi dito, e é, digamos, o meu recado de poeta. Não sei se terei algo de importante a dizer. E, se não tiver, prefiro não dizer. Escrever por escrever, simplesmente, é uma coisa que não farei em hipótese alguma.
Você tem algum método de trabalho permanente, periódico, ou escreve somente quando baixa a inspiração?
É, eu escrevo somente quando a coisa vem. Teve uma época da mocidade, até aí pelos 30 anos, em que eu escrevia muito, tinha necessidade, aquela compulsão de pegar o papel e sentar para escrever. Até os 40 anos foi mais ou menos assim. Depois começou a escassear, a rarear. E veio o período de música popular, que foi muito importante para mim.
Você ficou famoso como poeta muito cedo, antes dos 20 anos, não foi?
Muito cedo. Meu primeiro livro, “O Caminho Para a Distância”, teve uma ótima crítica. Eu tinha 19 anos quando o publiquei. Com 22 anos ganhei o Prêmio Nacional de Poesia — chamava-se Felipe de Oliveira e premiava todas as artes literárias. Ganhei uma disputa com o Jorge Amado, e por um focinho apenas de frente.
O fato de ter ficado famoso muito cedo foi bom ou ruim para você?
Para mim não foi muito legal, não, sabe. Me deu uma certa soberba, eu achava que era um poeta genial, essas coisas. Mas depois, uns dois ou três críticos me puseram no meu lugar, direitinho. Um deles foi o João Ribeiro, com relação a esse primeiro livro. Ele fez uma crítica muito boa, mas também muito severa, como quem diz: “Olha, menino, trabalhe mais com o verso livre, os seus sonetos não são muito bons”. Outro foi o Manuel Bandeira, que fez uma crítica bastante severa. Finalmente, quando ganhei o Felipe de Oliveira, o Otávio Tarquínio de Sousa escreveu também um rodapé muito bom, me colocando em minha devida posição. O Mário de Andrade, igualmente, me deu umas podadas muito bem dadas. Isso tudo me ajudou muito.
Na época você recebeu bem essas críticas?
Não recebi muito bem, não. Recebi mal, sabe. Porque, além do mais, havia todo o grupo do Otávio de Farias que me incensava. Para eles, era assim como se eu fosse o poeta que todo mundo esperava. Era o grupo da faculdade de Direito. Essas coisas me subiram um pouco à cabeça. Mas com aquelas críticas, a própria vida, a experiência com o conhecimento maior dessas pessoas, aí eu comecei a me situar. Processou-se também uma evolução política muito grande. Eu tinha sido formado para ser um intelectual de direita. Mas em 1942 aconteceu uma coisa muito importante em minha vida, que foi a vinda ao Brasil do escritor americano Waldo Frank. O José Olympio ofereceu um coquetel a ele e todos os escritores compareceram. Começamos a conversar e, lá pelas tantas, ele me confessou que achava coquetel de intelectuais uma coisa chatíssima e perguntou se não podíamos sair por aí. Saímos, era dia de São Jorge e eu levei o Waldo para ver as putas do Mangue. Havia um delírio lá, ele ficou impressionadíssimo. Aliás, a origem da minha “Balada do Mangue” foi esse dia. Depois eu o levei à favela do Pinto, aquela que havia no Leblon. Hoje eu não faria mais uma coisa dessas, não há condições. Mas foi tudo bem, ficamos lá numa tendinha, pagamos umas cervejas para os crioulos e eles tocaram para nós. Ele achou tudo ótimo, queria mesmo era ver esses ambientes e fugir das cerimônias oficiais. Daqui ele foi para a Argentina, acabou se envolvendo em política lá — era um socialista, mas com uma grande dose de filosofia hindu, bastante maluco. Era um judeu, muito amigo do Hemingway e do Chaplin. Na Argentina, um grupo de fascistas aplicou-lhe uma tremenda surra e ele ficou três meses no hospital. Depois, voltou ao Brasil e pediu ao Oswaldo Aranha, o chanceler da época, que eu fosse indicado para acompanhá-lo na viagem que faria pelo interior do país. Eu ainda não era do Itamaraty, mas o Aranha sabia que eu ia fazer o concurso para ingressar na carreira diplomática e me designou para ciceronear o Waldo. Para mim, a viagem foi maravilhosa, escutei histórias fantásticas dele, inclusive a de quando foi martirizado pela Ku Klux Klan. Foi a primeira vez que andei armado em minha vida, porque chegou a notícia de que uns tiras argentinos tinham vindo matá-lo no Brasil.
Até essa época você era bastante católico e místico, não?
Não era tão católico, não, mas era um cara muito mistificado, não só pela formação, mas também pelo grupo que orientava, sobretudo o Otávio de Faria. Eram todos caras de direita, muitos haviam aderido ao integralismo. Não sei como consegui me safar disso. Acho que foi meu lado de moleque de praia que reagiu na hora certa. Mas essa viagem com o Waldo Frank representou para mim, em um mês, uma virada. Saí um homem de direita e voltei um homem de esquerda. Foi o fato de ter visto a realidade brasileira, principalmente o Nordeste e o Norte, aquela miséria espantosa, os mocambos do Recife, as casas de habitação coletiva na Bahia, o sertão pernambucano, Manaus. A barra me pesou mesmo.
Essa virada se manifestou em sua obra?
Logo em seguida, porque aí eu já tivera também a experiência inglesa. No Brasil, pouca gente havia tido essa experiência com exceção de Gilberto Freyre, que também estudou em Oxford. Para mim, a leitura dos poetas ingleses foi muito importante, especialmente no sentido de certa simplificação e desmistificação e todo aquele arcabouço aristocrático, metafísico. Veio tudo por água abaixo.
E quando você começou a fazer música?
A música começou mesmo na década de 1950, quando voltei de meu primeiro posto diplomático no exterior, em Los Angeles. Agora, eu sempre fazia minhas músicas, antes, mesmo sozinho, mas sem nenhum intuito de editar ou ver cantar. Aos 15 anos tive uma experiência interessante: eu me liguei a uma dupla vocal que havia aqui, chamada Irmãos Tapajós, e comecei a compor com eles. Fizemos várias músicas, das quais duas tiveram muito sucesso. Uma era um foxtrote brasileiro, chamado “Loura ou morena” (que foi regravado há uns 10 anos), e a outra era uma “berceuse”, “Canção da amante”. Foi o primeiro dinheiro que ganhei em minha vida, produzido por essas músicas.
Quando você foi exonerado do Itamarati, em 1968, houve alguma alegação específica?
O Otto (Lara Resende) sabe de uma história muito engraçada que aconteceu: quando o decreto veio de Brasília, assinado pelo presidente Costa e Silva, o despacho dizia: “Ponha-se esse vagabundo para trabalhar”. Aí, dizem que o Magalhães Pinto botou a mão na cabeça e chamou o Otto imediatamente, comentando: “Ih, isso vai dar um barulho dos diabos. Escreve um arrazoado aí para mandarmos para Brasília”. O Otto escreveu e, por isso, o despacho não se tornou público. Mas a exoneração veio de qualquer maneira. O que para mim foi ótimo, porque eu já não aguentava mais aquilo, mas tinha um problema moral devido aos filhos, pois com 24 anos de carreira eu estava mais ou menos próximo da aposentadoria. Tinha certo medo de jogar aquilo tudo pra o alto. Mas quando me livraram desse problema moral, fiquei muito satisfeito.
Voltando à música: você teve parcerias históricas. Por que lá pelas tantas, a parceria acaba?
É como um casamento, sabe. É parecido. Acho que há um desgaste. Além disso, no tempo da bossa-nova, por exemplo, havia milhares de compositores fazendo música, e apenas uns poucos letristas. De maneira que eu não chegava para as encomendas: era o Tom, o Baden Powell, o Carlinhos Lyra. Depois, na geração 1963, pintaram o Edu Lobo, o Francis Hime. Tanto assim que eu sou um dos pouquíssimos compositores brasileiros que atravessou essas gerações todas. Eu fiz música com o Pixinguinha, o Ary Barroso, com o pessoal da geração do Antônio Maria, o Paulinho Soledade; depois peguei o Tom, o Baden, o Carlos Lyra, o Edu, o Francis e, em 1969, o Toquinho. E mesmo com caras mais jovens que o Toquinho eu já fiz música, como o Eduardo Souto Neto, o João Bosco.
Com quais parceiros você acha que houve mais criatividade?
Com o Tom, sobretudo, mas também como o Carlinhos Lyra e o Baden. O Baden tem uma produção muito boa, e foi ele quem me introduziu o elemento africano, o que não havia antes na bossa-nova — eram todos brancos, arianos.
O que você acha das críticas que o Tinhorão faz à bossa-nova?
Aquilo é burrice total do Tinhorão. É o negócio dos guarda-costas do samba. Como existe também, aliás nos Estados Unidos, com relação ao jazz. Lá tem cara que acha que a música só é jazz se for tocada com aquelas cornetas dos confederados. Se não for, não é puro. E tem que ter também a tábua de lavar roupas (washboard) verdadeiras, para marcar o ritmo. É muito sectarismo. Embora seja um excelente pesquisador, o Tinhorão tem esse lado insuportável.
Você acha que a influência do jazz foi boa para a bossa-nova?
Acho que foi uma influência muito boa. No samba tradicional, os instrumentistas não improvisavam, em geral as harmonias eram rígidas, as formações eram standard. Com a influência do jazz, abriu tudo isso, você podia introduzir qualquer instrumento num conjunto de samba, os instrumentistas improvisavam, as harmonias melhoraram muito e se enriqueceram, os instrumentistas tornaram-se excelentes e conheciam profundamente seus instrumentos, como é o caso de Baden e Tom. A influência foi benéfica porque houve uma descaracterização de nossa música. O samba estava sempre presente na bossa-nova. Além disso, a bossa-nova trouxe mais alegria e bom humor à nossa música, que andava muito voltada para a tristeza, a dor de corno, a fossa, naquela época do Antônio Maria. Com a bossa-nova a coisa ficou mais sadia, mais otimista, os sentimentos eram mais de comunicação, mais legais.
Depois da bossa-nova, o que houve de mais importante na música popular brasileira, em sua opinião?
Da chamada geração de 1963, tivemos dois nomes importantes, que são o Francis Hime e o Edu Lobo, o primeiro mais urbano, o segundo pesquisando coisas de Pernambuco. Depois veio o Milton Nascimento, pesquisando a toada mineira. O que se perdeu foi aquela organicidade que havia no movimento da bossa-nova.
E os baianos, Caetano e Gil?
Os baianos já são outro esquema, um negócio mais próximo da geração dos Beatles. Eles quiseram misturar esse troço todo, fizeram o tropicalismo, rock e samba. Acho que os dois são compositores muito bons. Talvez eu goste mais das coisas iniciais deles, embora ache que até hoje continuam a fazer bons trabalhos.
E o Chico Buarque?
O Chico eu acho fora de série, realmente. Esse tem aquela estrela, um talento que não pode ter mais tamanho. E o Chico é bom de letra, é bom de música, sabe cantar. Tem tudo, o cara. São uns poucos casos isolados que existem na música brasileira — um Noel, um Caymmi, um Chico, que se distinguem muito.
O que você acha desse debate que tem havido atualmente nos meios artísticos brasileiros, com a cobrança de definições políticas por parte de artistas pelas chamadas patrulhas ideológicas?
São pequenas desavenças ideológicas para as quais eu não dou a menor importância. Acho uma burrice o artista ser engajado politicamente e fazer uma música ruim — isso não tem o menor valor. O que adianta você ser o maior comuna e fazer sambas ruins? Aí eu acho que seria preferível ser alienado e fazer música boa. Acho que o engajamento político o cara só deve ter quando aquilo é tão importante para ele que passa a ser sua própria razão de existir, ele não pode viver fora daquilo. É um compromisso que assume consigo mesmo e com a sociedade, e ponto. Eu tenho um envolvimento político bastante grande, mas nunca o expressei em minha poesia, exceto quando surgiu como uma coisa válida, como em “Operário em construção”, “Os barões da terra” e “Mensagem à poesia”. Mas são bons poemas. Eu fiz também muita coisa política que era uma merda e joguei fora.
Como foi seu encontro com Deus e depois seu desencontro, seu desencanto?
Bom, o encontro foi normal: família católica, colégio de padres, aquele negócio de confessar aos domingos, de comungar. Mas acho que a vocação para o pecado era maior. As confissões eram sempre as mesmas: “Bati três esta semana, bati quatro”. Os castigos também eram os mesmos, de modo que aquilo acabou me cansando, me aporrinhando. Mas eu me meti a católico porque toda aquela fase de direita era muito ligada ao problema de Deus, principalmente por causa da influência do Otávio de Faria. Ele era aquele cristão dramático, lia muito Pascal, Claudel, os filósofos sofredores, me deu os primeiros livros para ler. Até hoje eu tenho uma grande admiração e estima por ele, embora as divergências ocorridas fossem graves demais para permitir que mantivéssemos um relacionamento estável. Mas gosto muito dele, quero um grande bem a ele. Depois a vida foi em frente, me liguei muito ao Bandeira, Dru­mmond, Pedro Nava e outros, que tinham uma consciência cristã, mas não levavam aquilo como um cartaz na testa. Alguns eram francamente agnósticos. De toda essa mistura nasceu um desencanto, um desinteresse que acabou sendo total. Eu não acreditava mais.
Hoje você não tem mais qualquer preocupação com o problema de Deus ou de religião?
Num plano assim de vida, não. Restou talvez certa religiosidade, própria de meu temperamento. Por exemplo, eu me interesso por candomblé, certas superstições. Isso é sinal de que tem algum fogo na cinza. Mas aqui, na cuca, não tenho mais grandes indagações. Ao mesmo tempo, me recuso a elas um pouco. Não me interesso mais por coisas que não sei explicar.
Você andou muito metido com candomblé na Bahia. Você acredita mesmo nisso?
Eu prefiro acreditar do que não acreditar, mas realmente não acredito. Quando penso de modo puramente cerebral, não acredito. Deixei também de fazer aquele gênero de indagações, olhar para o céu e perguntar: “Onde está Deus? Afinal alguém fez esta merda toda, não foi?” Mas jamais vou ter respostas a essas perguntas, a não ser talvez depois da morte. Mas também não sei o que há do outro lado, de modo que não penso mais nessas coisas. Além disso, à medida que fui perdendo a religiosidade e o misticismo, o ser humano cresceu muito em mim, tomou conta de tudo. O que me interessa hoje é gente.
E a morte?
Bem, a morte sempre me preocupou, e ainda me preocupa. Mas hoje, de uma maneira muito mais simples, como uma espécie de saudade da vida, uma pena de deixar isso aqui com todas as cagadas e confusões, porque sempre vivi dentro de uma grande plenitude. Sobretudo por causa das mulheres: tenho muita pena de deixá-las. Sei que a velhice pode ser uma coisa legal, mas não gosto da ideia de envelhecer porque perderia tudo o que as mulheres ainda podem me dar.
Você nunca conseguiu, ou quis, viver sozinho, não?
Não. Eu aceito a solidão bem, mas não por muito tempo. Realmente, para mim, a mulher é um ser indispensável. Não posso viver sem mulher. Houve uma época de minha vida que achei que esse negócio havia terminado, que as coisas não estavam dando certo, que talvez fosse melhor eu me isolar e parar de brincar com esse bicho tão perigoso. Mas não deu. Não deu mesmo. Eu sou um namorador inveterado.
Você vê muita diferença entre o Vinícius dos 18 anos e o Vinícius de hoje?
Não vejo muita diferença entre os meus sonhos de ontem e de hoje, entre certa parte lúdica que sempre tive, sempre em fermentação. Acho que hoje eu sonho mais do que sonhava antigamente. Quer dizer, a viagem é permanente, não é uma coisa de um dia ou um momento, com paradas e fases de descrença. Não sou de ter fases de descrença.
Você está satisfeito consigo mesmo?
Bem, eu gostaria de mudar algumas coisas de mim, mas de um modo geral não sou um sujeito de jogar fora. Tenho uma estima por mim bastante grande, sabe. Uma estima que vem da constatação das coisas que fiz, das pessoas que eu amei, dos amigos que tive e tenho. Considero tudo conquistas consideráveis, no cômputo geral. Às vezes tenho a imodéstia de dizer a mim mesmo: “Você vale a pena”. Isso sem nenhum sentimento de vaidade. Não tenho qualquer preocupação com a glória literária. Se tivesse essa preocupação, eu trataria muito melhor das minhas coisas. A publicação de antologia dos meus poemas pela Aguilar (editora) foi um dos partos mais difíceis e demorados que já houve, tudo por despreocupação minha. Hoje em dia tenho uma preguiça enorme de trabalhar, escrever.
Você se tornou mais exigente?
Muitíssimo mais exigente. Hoje eu leio muito pouco, porque a maioria das coisas publicadas me parece ruim. Atualmente, quando encontro um escritor que me interessa, para mim é uma festa. Mas, em geral, mal consigo passar das primeiras quatro ou cinco páginas.
Qual era a visão que você tinha do Brasil quando começou a fazer poesia?
Eu achava o Brasil um país ideal, realmente, e essa visão durou até lá pelos meus 40 anos. O primeiro choque que o Brasil me provocou foi quando voltei dos Estados Unidos, em 1951, e vi aqueles bares americanos que começavam a proliferar, o bar vermelhinho desaparecendo, as pessoas comendo em pé nas lanchonetes, a penetração do estilo de vida americano.
E hoje, como você vê o Brasil?
Eu digo sempre uma coisa: tenho uma grande fé no Brasil. Uma fé meio estúpida, meio instintiva, por causa do povo. Realmente, a minha fé no Brasil não vem das instituições, nada disso. Pelo contrário, acho que elas têm sido extremamente negativas para o país. Agora, eu acredito neste povo. E cada vez que eu volto ao Brasil, de alguma viagem ao exterior, essa crença aumenta, compreende. E como essa crença é um bem gratuito, eu prefiro tê-la a não tê-la.
Que tipo de sociedade você gostaria que houvesse no Brasil?
Acho que uma volta a uma democracia relativa já seria muito bom! O povo ter liberdade — isso me parece fundamental. Quer dizer, ver as pessoas felizes, contentes, com as caras alegres, sem angústia. E, sobretudo, haver a realização, ou pelo menos um arremedo de realização, de uma organização social mais justa, com uma melhor distribuição da riqueza, uma reforma agrária legal. Isso eu gostaria de ver: os problemas sociais mais graves resolvidos ou, no mínimo, colocados num bom caminho. Isso já me daria um pouco de paz, de calma, de uma tranquilidade bastante maior do que aquela que eu tenho hoje. Eu não consigo me destacar do problema humano.
Já falamos de seus casamentos com parceiros musicais. E com os seus casamentos de verdade, quantos foram?
Estou agora no meu nono casamento.
Há quanto tempo?
Há três meses. A Gilda vivia na Europa, era estudante lá. É uma moça ótima, maravilhosa. Eu tinha saído de um casamento também muito bom, muito feliz, com aquela moça argentina, a Martinha. Mas ela estudava na Argentina, o que nos obrigava a viver numa verdadeira ponte aérea. Não deu para continuar.
Você diria que suas mulheres influenciaram sua obra?
Bom, todas foram premiadas, né. Todas ganharam poemas, canções, uma coisa ou outra.
Houve alguma que tivesse exercido uma influência maior sobre o nível de seu trabalho?
Nesse sentido, acho que a influência maior foi a Tati, minha primeira mulher. Quando me casei com ela, eu estava começando a me desgrudar de minhas influências direitistas. Havia ainda muita confusão mental em mim, muita influência da minha formação, muito colégio. E a Tati já era uma pessoa bastante progressista. Mas, no começo, ainda quebrávamos um pau firme em discussões políticas. Depois, o relacionamento melhorou em todos os sentidos, inclusive no político, porque houve também aquela minha viagem pelo Brasil.
Seu casamento mais longo durou quanto tempo?
Onze anos. Foi exatamente esse, o primeiro, com a Tati.
E o mais curto?
O mais curto durou um ano.
Você mantém boas relações de amizade com as ex-mulheres, ou é do gênero que rompe relações?
Com a maioria, mantenho boas relações; mas não com todas. O relacionamento foi pior com as que engrossaram durante a separação, especialmente com duas que engrossaram mesmo, para valer.
Com sua experiência, o que acha mais fácil: conquistar e casar-se com uma mulher, ou separar dela?
O difícil é separar. Casar é facílimo. Separar é sempre uma experiência dolorosa, porque são duas pessoas que vivem juntas, amam juntas, têm aquele contato diário. Isso tudo forma uma espécie de hábito, uma coisa que não é mecânica — quando existe amor, é claro. E, se há amor, é sempre muito dolorosa a separação.
Como foi sua iniciação sexual? Poética, traumática, normal?
Foi o normal de menino da minha idade, de seus 13 anos. Foi na rua Rio de Janeiro, em Belo Horizonte. Tudo providenciado por um tio meu. Foi com uma putinha, né, uma menina de 14 anos ou 15.
E correspondeu às suas expectativas?
Ah, correspondeu plenamente. Foi uma experiência muito boa. Depois o filho da puta inventou que eu tinha deixado a menina grávida. Eu tinha aquela ingenuidade de garoto e acreditei piamente; fiquei apavorado. Ele era um homem de muito mais idade, andava com um grupo de boêmios, era um seresteiro. E me dizia que eu ia ser obrigado a me casar.
E como foi aquela história de um amor fulminante que nasceu numa sala de museu, entre você e uma jovem loura que se viam pela primeira vez?
Era uma exposição de Portinari. A menina era muito interessante, uma graça. Eu dava uma olhada num Portinari e outra nela. E ela também. Eu sei que viemos de lados opostos e, quando a gente se encontrou, foi até um troço emocionante. Eu falei assim: “Eu te amo sabe?” Ela começou a chorar. Aí, pronto. Ela estava noiva, mas acabamos tendo um romance que durou um ano mais ou menos.
Quais os principais planos para o futuro?
Meu plano principal, no momento, é fazer essa moça feliz, a Gilda. Quero aprimorar esse relacionamento conjugal até ele se tornar uma coisa muito sólida. Para mim, seria um terrível desgaste ter de me separar novamente e procurar outra mulher. Inclusive estou chegando a uma idade em que isso fica cada vez mais difícil. Então, gostaria que a Gilda fosse realmente a última. E quando falo última, falo: “Que ela fosse a primeira”. A Gilda tem as qualidades para isso. Naturalmente, vai chegar um dia em que teremos de nos separar por problemas de idade. Mas quanto a esse problema, não posso fazer nada. É um problema da vida, sou mito mais velho que ela, uma moça bastante jovem. Mas como sou um sujeito muito dialético, procuro resolver os problemas na hora. Não penso muito neles antes que pintem.
Além desse plano principal, você tem outros?
Bem, estou um pouco saturado de shows, excursões, música. Vou terminar esses dois livros de poesia e procurar viver minha vida dentro de uma felicidade possível. Se você me perguntar se sou um homem feliz, eu vou dizer que não sou. Não sou porque não sei ser feliz dentro de uma sociedade tão injusta como a nossa. Esse é um problema que me afeta diretamente, me afeta não só como homem de esquerda, mas também como homem, simplesmente, como um ser humano. Então, esse ônus eu vou carregar pelo resto de minha vida, não há saída, porque não tenho a menor esperança de ver as coisas se normalizarem e se equilibrarem ainda no meu tempo.
Fonte: http://www.revistabula.com/369-a-ultima-entrevista-de-vinicius-de-moraes/