quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Parabéns, Zê!

Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante!
Paulo Freire
 
Foi isso que vc fez a sua vida inteira, razão pela qual é amada, admirada e respeitada por todos nós que fomos seus alunos.
Que venham muitos anos mais para aprendermos as lições que vc sempre tem para nos ensinar.

Dentro do quadro azul

por Patrícia Reis, em 11.02.15

O soldado mantém-se quieto, calado. Consegue cheirar o seu suor, o seu sexo, a sua boca seca, o azedo do medo. Tem 19 anos. Apenas 19 anos. O carro andou aos solavancos e o homem ao volante, gritou qualquer coisa em árabe. Havia um padrão preto e branco de um kaffiyeh.
Lembrou-se das imagens de Yasser Arafat, cartazes que viu em criança, com a legenda “sempre contigo”, há muito tempo, antes de Ramallah, da velhice, da doença, do hospital em Paris, da morte. Nessa altura ele, o soldado de 19 anos no carro a fugir à vida, tinha beijado e penetrado a sua primeira mulher.
O cheiro a sexo era distinto de tudo o resto. Tinha sido num fim de tarde, em casa dos pais dela, no centro de Telavive, um bairro de gente com dinheiro. Ele dissera:
Não sabia que a tua família tinha dinheiro.
Dizes bem, a minha família. Eles e eu: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Fora um momento erótico, ela a roçar-se nele com os jeans apertados, o soutien preto a despontar da camisa. A erecção doía-lhe. Doía-lhe tanto. As gotas de suor no vale dos seios dela, entre as pernas, na barriga, junto ao mundo que é a forma do umbigo.
Ela disse que não era preciso ter pressa e chupara-o até ao orgasmo e no desalento de tudo aquilo, ali no sofá, com a cnn a dar o boletim meteorológico do mundo, sentou-se em cima dele, no sexo ainda erecto, branco de esperma, e começou a mexer-se em cima dele até que o desejo regressou e ela riu, quase num tom jocoso, celebrando:
Ah, 17 anos.
Ela tinha 20. Uma velha. Uma veterana. Acabara de sair dos dois anos de exército obrigatório, tinha estado em Goa, fumado e metido todo o tipo de pastilhas. Agora, em Israel, ia trabalhar com o pai, dono de uma empresa de ferramentas com contratos milionários com o Japão. De dois em dois anos regressaria ao exército, para reciclagem. Até aos 45 anos o exército seria uma rotina. A ideia de que o país é quem o defende era uma lengalenga desde criança, uma voz constante. Somos um pais jovem, temos inimigos, somos os eleitos do sofrimento de Deus.
Pode ser que tenha sorte e um dia mate um filha da puta de um árabe.
Ele, no sofá, depois do sexo, sem prestar atenção à conversa, sem saber o que dizer, lembrou-se da boca dela e do cheiro do perfume no seu pescoço. Não queria saber de árabes. Não queria saber de autocarros a explodir, sirenes a passar. Desde sempre que fora treinado para aquilo. Viver em Israel. É-se treinado para viver ali, naquele sítio inventado.
Uma bomba caí hoje, amanhã já está tudo normal, não há sinais. Como é que se sabe se a explosão foi grande? Se foi mortal? Espera-se pelas ambulâncias. Quantas mais forem, mais mortos, quantos mais mortos, menos devemos querer saber. Palavras da mãe.
A mãe, olhos azuis, loira, unhas de gel, um passaporte cheios de carimbos dos países do mundo. A mãe que lê para combater as bombas, os árabes, o holocausto e até as 25 horas de jejum do Yom Kipur, o dia perdão, da purificação do espírito. Mãe é um bicho universal, dissera ela, a rapariga ao seu lado. Ele discordou mas calou-se. Antes de ser mãe, é-se judia, antes de ser mãe, é-se israelita, da Alemanha, da Polónia, da Rússia. Como o filho de Isaque, filho de Abraão, Jacob que luta com um anjo do senhor e torna-se o primeiro guerreiro israelita, mudando de nome, tornando-se Israel.
Agora nos carro, depois dos túneis junto a Gaza, Giled lembra-se dela, da voz dela. O medo que sente está para lá da dor no ombro, na mão partida, vermelha e inchada, os dedos que não fecham. O medo faz-lhe lembrar coisas idiotas. Ela, a mãe, o professor a dizer que adiar os estudos para ir para o exercito era uma pausa, uma brincadeira.
No meu tempo é que era à séria.
Nada podia ser mais sério do que isto. Giled já nem tenta abrir os olhos. Fica com eles cerrados a tentar ver outras coisas. Alguém o irá buscar. Alguém o irá salvar. Nunca ficará por ali. Nunca ninguém é deixado para trás. O pai desesperado por trocarem soldados palestinianos, terroristas pretensamente do Hamas, por corpos de soldados israelitas. A mãe a concluir:
Só te desespera a troca dos mortos pelos vivos porque não é o teu filho que tens de enterrar.
Giled percebe agora que toda a vida que planeou pode desaparecer à velocidade de um segundo não contabilizado. Todos os seus planos trocados, embrulhados, desfeitos pela vida. A vida trocou-me as voltas, pensa. O ombro dói cada vez mais e a mão está a latejar. Alguém o arrasta para fora do carro, brutal. Sente o seu corpo magro contra a chapa do carro, a areia da rua, as pedras de uns degraus que sobe trôpego. Nada será como planeou. Nada. Em Israel assumir que a idade é uma bênção parece uma coisa estranha. Giled deixa-se escorregar por uma parede que o arranha. Não tem camisola, a farda, a chapa de identificação, tudo o que é, ou era, o seu nome e origem. O pai dizia, tantas vezes, tantos almoços: um soldado é a sua unidade. Até agora não lhe ocorreu pensar nos companheiros, sente o estômago, sente frio, sente dor, mas não sente preocupação com os outros. Não tem que ver com ser boa pessoa, é sobrevivência. Instinto. Tem a cara inchado do murro que levou, um gesto inesperado.
O homem da kaffiyeh entra no quarto e diz-lhe
Passaram umas horas. Eles dizem que vêm vingar-te. Que nenhum soldado é abandonado. Tu sentes-te abandonado?
Giled não responde. O homem agacha-se lentamente, fica à altura dos olhos dele. Tem um sorriso ligeiro. Olha para a mão inchada, com a ponta do dedo pressiona o ombro. Levanta-se.
Não é desta que vais morrer, soldado. Ainda não é agora. Quando chegar a tua hora, aviso. Não te preocupes. Eu cumpro sempre com a minha palavra.
Giled pensa que não sabe pensar em árabe. Que a diferença essencial entre eles é uma só: eles não têm medo de morrer.
Eu tenho. Eu tenho medo de morrer.
A sua voz, a meia voz, desperta-o por fim para a verdade de tudo aquilo. Ao fundo, na parede, está uma tela grande em tons de azul, rasgados por brancos rosados. Giled começa a chorar. O seu futuro é aquele quadro desconhecido. Não vai ver mais nada.
(Gilad Shalit, 19 anos, foi raptado na Faixa de Gaza em Junho de 2006 pelo Hamas. Voltou a casa em Outubro de 2011, depois da libertação de presos palestinianos.)
Fonte: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

No dia em que Bob Marley completaria 70 anos, conheça sete fatos sobre o artista jamaicano



Na infância, Bob Marley lia mãos, chegou a ser preso duas vezes por porte de maconha e, após atentado político, subiu no palco ainda ferido por tiro
Maior expoente do reggae mundial e um dos principais responsáveis pela difusão da cultura e da religião rastafari, o jamaicano Bob Marley completaria 70 anos nesta sexta-feira (06/05). Para marcar a data, a Jamaica realizou uma semana de celebrações e diversos eventos estão sendo realizados em todo o mundo para homenageá-lo. Um  álbum inédito também será lançado hoje pela Universal Music com as gravações realizadas por um fã durante a turnê promocional do álbum Kaya de 1978. 
Wikicommons
Marley durante apresentação em Dublin em julho de 1980

Bob nasceu em 6 de fevereiro de 1945 na cidade de Saint Ann, no interior da Jamaica. Tornou-se mundialmente conhecido pelo grande senso de justiça em suas letras, pela defesa da libertação nacional, do empoderamento dos negros, da luta contra o racismo e pela universalização dos direitos civis. Como reconhecimento desse papel, as Nações Unidas lhe concederam a Medalha da Paz do Terceiro Mundo, em 1978. Na Jamaica, também recebeu as três maiores condecorações: Honra ao Mérito da Jamaica, “Order of Merit”, Herói Nacional e o “Order of the National”, que é reservado para governadores, generais e premiês.

A qualidade musical de Bob Marley e do grupo que o acompanhava, o The Wailers, foi reconhecida com diversos prêmios. A BBC classificou a música "One Love" como sendo a canção do milênio e o cantor e compositor foi eleito o 11º maior artista de todos os tempos pela revista Rolling Stones.

Divulgação/ Adrian Boot

Durante apresentação em Londres, em 1976


Na única visita que fez ao Brasil, declarou: "Músicos devem ser porta-vozes para as massas oprimidas. No nosso caso, a responsabilidade é ainda maior por causa de nossas crenças religiosas. A filosofia do reggae explica tudo isso. O reggae se propagou a partir dos guetos, e tem sido sempre fiel a suas origens, trazendo ao mundo uma mensagem de revolta, protesto e luta pelos direitos humanos".
Abaixo, conheça sete fatos sobre o astro do reggae:

1) Criança sensitiva
Quando tinha quatro anos, Bob começou a pressagiar a partir da leitura da palma da mão. Como as previsões invariavelmente eram acertadas, ficou conhecido na região. Um dia, quando já era famoso, voltou a Kingston e uma mulher pediu que ele lesse a mão dela. Diante do pedido, respondeu: "Eu não estou mais lendo mãos. Estou cantando agora".

2) Prisão 
Em 1968, Bob passou um mês na prisão na Jamaica por porte de maconha. Durante este tempo, conheceu alguns prisioneiros com os quais criou forte relação. Eles o motivaram a escrever músicas com mensagens políticas mais contundentes. Em 1977, voltou a ser detido pelo mesmo motivo, em Londres. Devido ao uso religioso da maconha pelos rastafaris, Bob foi um ativo defensor de sua legalização.  
[Em 1977 durante jogo de futebol em Londres]

3) Futebol 
Bob nutria uma grande paixão pelo futebol e chegou a jogar na equipe jamaicana House of Dread. Em uma de suas fotos mais famosas no Brasil, aparece com o cantor Chico Buarque após uma "pelada" no Rio de Janeiro em 1980, com os funcionários do selo Ariola contra alguns dos artistas contratados pela gravadora no Brasil, como Chico Buarque, Alceu Valença e Toquinho. Na ocasião, ganhou e vestiu a camisa 10 do Santos. 



4) Atentado
Em 3 de dezembro de 1976, em meio à efervescência política e à violência causada por gangues na Jamaica, que vivia um clima de guerra urbana, Bob Marley decide fazer uma apresentação gratuita como forma de pregar a paz e a unidade da juventude país. O primeiro-ministro jamaicano Michael Manley apoiou o evento como forma de apaziguar os ânimos às vésperas das eleições. Durante um ensaio em sua casa, ele, a esposa, Rita Marley, integrante da banda, e o empresário Don Taylor foram baleados e levados ao Hospital Universitário. As motivações do atentado nunca foram esclarecidas.

Dois dias depois, Bob, mesmo sabendo dos riscos que corria, resolveu fazer sua apresentação durante o evento "Smile Jamaica". Ele e Rita subiram ao palco com os curativos e, ao ser questionado sobre o fato de comparecer ao show mesmo baleado, o músico disse a célebre frase: "As pessoas que estão tentando destruir o mundo não tiram um dia de folga. Como posso, eu, tirar, se estou fazendo o bem?" Após o ocorrido, o casal decidiu ir morar em Londres, por questão de segurança, e ficou oito meses sem tocar na Jamaica.

5) Cultura rastafari 
Além de ser o maior expoente do gênero musical reggae, Bob Marley também é considerado o responsável por disseminar a cultura rastafari pelo mundo. Em suas falas e canções, Bob transmitia o estilo de vida da religião da qual era adepto, cujos valores mais fundamentais eram: a supremacia negra e valorização das raízes africanas, além do desejo de retorno à África, a terra prometida.   
[Bob mostrava aptidão musical desde a infância]
Na Etiópia, terra de Haile Selassie I, considerado um deus e a máxima encarnação do poder da religião rastafari, Bob é considerado herói nacional. Em 2005, Rita Marley afirmou que iria exumar os restos de Bob e enterrá-lo em um "local de descanso espiritual" na Etiópia. A declaração gerou fortes protestos na Jamaica.

6) Estupro 
Um dos pontos mais controversos da história de Bob Marley veio à tona em 2004 quando Rita, que lançava o livro "No Woman No Cry: Minha Vida com Bob Marley", deu depoimentos controversos à imprensa britânica sobre seu relacionamento com Bob. Na ocasião, tabloides ingleses deram uma ampla repercussão à declaração em que ela dizia ter sido estuprada pelo marido. Após a história ter tomado grandes proporções, Rita concedeu novas entrevistas esclarecendo que suas declarações foram retiradas do contexto e que seu marido "não era um estuprador".

Divulgação/ bobmarley.com

Bob durante apresentação em Nova York em 1975


7) Morte 
Durante uma partida de futebol em Londres em 1977, Bob machucou o dedão do pé direito e, como consequência do ferimento não tratado, a unha do pé caiu. Somente em 1980, quando o ídolo passou mal no palco em uma turnê nos EUA, descobriu-se que na verdade ele tinha uma espécie de câncer de pele, chamado melanoma maligno, que se desenvolveu sob sua unha. A recomendação médica foi para que amputasse o dedo, mas ele recusou o procedimento devido à crença rastafari.  
O câncer se espalhou para o resto do corpo, afetando cérebro, pulmão e estômago. O músico foi se tratar na Alemanha com o médico naturalista Joseph Issels, mas após oito meses de tratamento, foi desenganado. Decidiu, então, voltar à Jamaica para morrer junto a família e amigos, mas no meio da viagem teve que ser internado às pressas em Miami, onde morreu no dia 11 de maio de 1981, na companhia da mãe, quando estava no auge da carreira, aos 36 anos de idade.        
Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/cultura/39409/no+dia+em+que+bob+marley+completaria+70+anos+conheca+sete+fatos+sobre+o+artista+jamaicano.shtml

Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais

Catedrático emérito da Universidade Duke comandou a redação da ‘bíblia’ dos psiquiatras


Allen Frances neste mês, em Barcelona. / JUAN BARBOSA

Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.

Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.

P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.

 Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de criar novas doenças

P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.

P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.

 Os seres humanos sobrevivem há milhões de anos graças à capacidade de confrontar a adversidade

P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?
R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.

P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.

P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.

P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.

P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.

P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.

P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/26/sociedad/1411730295_336861.html

Chegamos ao fim da Educação, por Eliana Rezende


“A escola acabou. É preciso encontrar outro lugar.”
(Michel Maffesoli)

Aqui uma interessante perspectiva é que a que defendo. O modelo de escola que temos está falido!

E não creio que tenha que ver com dinheiro e subsídios em primeiro lugar, antes sim tem que ver com motivação, objetos e objetivos. Neste modelo que conhecemos a educação não serve nem como elemento formador, inovador, nem criador. Há tempos este modelo deixou de tomar o individuo como um todo holístico inserido e integrado ao seu mundo e a seus tempo. Isto é, inserido em um contexto social, cultural, político, econômico, produtivo.

Desde que a escola e seus sistemas supostamente inciaram a compartimentação, e pretensa especialização, os indivíduos começaram a atrofiar-se enquanto pessoas capazes de entender e propor alternativas ao seu tempo. E aí que todos os problemas surgiram.

A escola começou a ser vista, e funcionar, como um local onde conteúdos são dispostos e perfilados...apresentados um a um sem relação ou conexões. Tudo parece nada e nada precisa ser pensado, interpelado, questionado. O espirito crítico, criativo e elucubrador não é mais incentivado e cada vez mais, programas e conteúdos, são apenas dispostos como uma amassa amorfa a ser decorada. E aí que entram os elementos de desencanto, desinteresse e desmotivação não apenas de alunos, mas também de professores. Ninguém sabe ao certo porquê mesmo é que está ali, nem para quê.

A escola transformou-se em um local de metas e obrigações a cumprir e não um espaço criativo de vivências e oportunidades de convívio com o que é novo, diferente, instigante... infelizmente.

Daí que para este modelo, não há recursos que possam dar conta do esgotamento, desencanto e desmotivação.

O professor teria que ser apenas e tão somente um mentor a instigar e não um conteudista regurgitando conteúdos, números, dados, gráficos, tabelas, textos, poemas....precisaria ser capaz de transformar isso tudo em algo que estivesse conectado com o mundo em que estamos com a vida que tais discentes têm, rodeados de estímulos visuais, sonoros e, de que forma levá-los ao mesmo tempo a ver-se inseridos em uma sociedade que age e se reproduz desta ou daquela forma. Enquanto isso não ocorrer, não há reformas de currículos e verbas que darão conta de todo o sistema falido em que se pensa a Educação.

Vejo como única possibilidade de salvar a Educação o professor voltar a ser um iniciador!
Aquele que mostrará as ferramentas para que o discente descubra o mundo à sua volta. Só que mentores não são formados em escolas! Ser um mentor exige Sabedoria interior, visão holística aguçada, sensibilidade, perspicácia, generosidade intelectual. Todas características e qualidades que exigem cultivo, dedicação, disciplina. E aquí a minha pergunta: "quantos docentes tem estas qualidades?"

De novo insisto: estas qualidades não estão nos currículos de formação e não se adquirem por incentivos financeiros governamentais. Aí as "desculpas" cessam, já que precisam ser de inciativa individual daquele que chama para si a responsabilidade de ser um mentor intelectual.
Quantos agentes teríamos?
Boa pergunta!

A Educação precisa, e deve, ser pensada holisticamente. Sem este olhar terá chegado ao seu fim!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

As vozes moderadas

por Luís Naves, em 03.02.15
 
Livros como Os Sonâmbulos, de Christopher Clark, ou The War that Ended Peace, de Margaret MacMillan, mostram que no período anterior ao início da Primeira Guerra Mundial foram criados climas beligerantes que tornaram difícil a tarefa dos governos. Políticos demagogos e movimentos nacionalistas agitaram a opinião pública, atribuindo todos os males da sociedade a questões territoriais ou à competição com potências vizinhas. Lentamente, foi subindo o tom dos insultos e houve uma corrida aos armamentos. A retórica racista e patriótica conduziu à mentalidade de tudo ou nada. Antes de 1914 houve várias crises, nomeadamente nos Balcãs, mas sempre por razões que hoje nos parecem irrelevantes. Em certa medida e com temas alternativos, a situação parece hoje repetir-se: num ambiente de histeria que se torna mais intenso, as vozes da moderação são abafadas pela gritaria dos radicais, levando o discurso moderado a adoptar a própria linguagem extremista.
Tal como aconteceu no período que levou ao suicídio da Europa, os agitadores das consciências e os autores mais indignados tentam convencer a opinião pública de que os problemas só podem ser solucionados por uma ruptura da ordem estabelecida. As sociedades contemporâneas não são imunes a vagas de mudança impostas por grupos radicais, mas o sistema democrático é resistente e a retórica nacionalista não cabe num contexto de integração europeia. No entanto, em muitos comentários sobre a crise do euro, é espantoso verificar que a ideia do combate até à última gota de sangue está bem viva. Nos últimos dias, os argumentos extremaram-se. Defender, por exemplo como propõe a Alemanha, que a Grécia deve cumprir as regras da zona euro e as promessas anteriores de continuar as reformas, merece textos indignados, com críticas semelhantes aos apelos patrióticos de recuperação imediata da Alsácia-Lorena.
Começam a ser raros os autores que defendem a União Europeia ou a estratégia de permanência na moeda única. Em breve, haverá quem afirme que todos os problemas são criados pela Alemanha e que esta deve ser a primeira a sair da Europa. O facto é que, na crise das dívidas soberanas, Berlim cedeu em todas as suas linhas vermelhas e, desta vez, a pressão parece de novo irresistível. A reestruturação da dívida grega já atingiu os limites e não parece possível um novo perdão sem união política. Provavelmente, os gregos querem mesmo sair do euro e culpar a Alemanha pelo desenlace. Essa será a única forma de cumprirem o programa radical de nacionalizações e aumento da despesa, mas o jogo de culpas só pode dividir irremediavelmente o bloco europeu. Rússia e EUA não desejam outra coisa, sobretudo Moscovo, que continua a transformar o leste ucraniano numa espécie de balcânia sem solução.
Fonte: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/as-vozes-moderadas-7092045

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Indiferença em Política

 

Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional. 
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia. 
Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade! 

in, Prosas da Época Coimbrã , Antero de Quental
Fonte:http://maravista-anamar.blogspot.com.br/ 

sábado, 31 de janeiro de 2015

ÁLBUM DA SEMANA

Seleção Master de Ipaumirim

 (???) e Olga

Doca Moreira
Laura Nóbrega Gonçalves
Garotas 90 de IP - Zenira e D. Maria de Dino
Gerlane Lemos
Gesilda Morais

Evandro de Maria de Afonso
Ana Luiza Gonçalves da Nóbrega
Titica, Mércia e Jarismar Gonçalves
João Castelar e Dona Zefinha
Ronaldo Sarmento, Rita Vieira e filhos
Luciene e Pedro Jorge
Scorro Vieira, Salete Vieira,  Conceição e Luzanira

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A volta do pêndulo e os tempos de pré-Collor


O grande músico e mestre Hans-Joachim Koellreutter dizia que a história é como uma espiral: sempre volta-se para o mesmo lugar alguns degraus acima.
De certo modo a espiral brasileira remete para 1989.
O primeiro ponto em comum é o desencanto, o fim das utopias e a gravidade das crises que se prenunciam.
Lá, havia a interrupção do sonho da redemocratização e dos pacotes econômicos e o fantasma da hiperinflação; aqui, o desencanto com o sonho do desenvolvimento com equidade social e o fantasma da crise da água.
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O segundo ponto é a decepção com as instituições públicas. Aliás, nos dois momentos, o raio-x nítido das razões porque o país sempre se fez tão lentamente: a pobreza das instituições públicas, partidos políticos, três poderes e mídia; a imensa dificuldade em pensar grande, em desenvolver uma visão estratégica.
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O terceiro, a ausência de figuras referenciais. Lá, a desmoralização da oposição com a enorme caça ao butim que se seguiu à posse de Sarney. Aqui, a falta de propostas do governo e da oposição e a pobreza de lideranças.
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Em cima desse quadro, nos próximos anos se enfrentará a crise de água, problemas econômicos, radicalização social, a crise do velho modelo de articulação da informação, com o advento das redes sociais e, principalmente, a falta de perspectivas.
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Dependendo do desenrolar da crise, estarão feridos de morte os dois partidos que dividiram a hegemonia política brasileira nas últimas décadas: PT e PSDB. A paciência do eleitor não suportará por tanto tempo o discurso do “mal menor”.
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De quem é o protagonismo político?
Do lado do governo, da presidente Dilma Rousseff. Nas últimas eleições Dilma foi premiada com a segunda oportunidade – uma tradição no jogo político brasileiro, mas que tornará o eleitor muito mais exigente – e com a extraordinária fragilidade do seu opositor, o PSDB.
Indicou um Ministério político para se defender das tentativas de impeachment que virão, mas terá que desenhar um projeto de país para se defender do alastramento do anti-petismo e do anti-governismo.
Terá os próximos meses para mostrar a cara de seu governo.
O balanço do primeiro governo não sugere uma obra à altura dos desafios atuais de um país convivendo com múltiplas crises. Até poderá emergir uma nova Dilma, com uma estatura política até agora impressentida. Mas seria uma surpresa.
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O PT tornou-se um partido político sebastianista, agarrado à imagem de Lula. Lula de 2018 será como Getulio de 1950: novos tempos, novas circunstâncias com o peso da idade contando.
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Do lado da oposição, vai sobrar quem? Mesmo que mantenha os votos do antipetismo, Aécio Neves não demonstrou fôlego para assumir a empreitada de liderar a oposição. A crise de água irá expor em toda intensidade o nível do provavelmente mais medíocre governador da história moderna de São Paulo, Geraldo Alckmin.
Entre as lideranças alternativas, Marina Silva tem a consistência de uma libélula perdida.
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Em 1989 surgiu a surpresa Fernando Collor, embalado nas ideias de Margareth Tatcher.
Agora, não apenas o Brasil mas o mundo está perdido na ausência de propostas.
Vem tempos bicudos pela frente.
Fonte:  http://jornalggn.com.br/noticia/a-volta-do-pendulo-e-os-tempos-de-pre-collor

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

"A Arte da Vida", por Bauman

"No mundo pós-romântico", como assinalam Ehrenreich e English,  em que os antigos vínculos não mais se sustentam, tudo que interessa é você: você pode ser o que quiser; você escolhe sua vida, seu ambiente, até mesmo sua aparência e suas emoções. ... As velhas hierarquias de proteção e dependência não existem mais, só existem contratos abertos, rescindidos livremente. O mercado, que há muito tempo se expandiu para incluir as relações de produção, agora se expandiu para abarcar todos os relacionamentos. 

 "A cultura do sacrifício está morta", declarou bruscamente Gilles Lipovetsky no posfácio de 1993 a seu estudo pioneiro, de dez anos antes, sobre o individualismo contemporâneo. "Deixamos de nos reconhecer na obrigação de viver em nome de qualquer coisa que não nós mesmos." 
Não que tenhamos ficado surdos às nossas preocupações com os infortúnios de outras pessoas, ou com o triste estado do planeta, nem que tenhamos deixado de ser sinceros sobre tais ansiedades.  

Também não deixamos de declarar nossa disposição de agir em defesa dos oprimidos, assim como na proteção do planeta que eles compartilham conosco, nem de atuar (ao menos ocasionalmente) a partir dessas declarações.  

O oposto parece ser o caso: a ascensão espetacular da auto-referencialidade egoística, paradoxalmente, caminha de par com uma crescente sensibilidade à miséria humana, a execração da violência, dor e sofrimento que afligem o mais distante dos estranhos, e as erupções regulares de caridade focalizada (terapêutica).  

Mas, como Lipovetsky corretamente observa, esses impulsos morais e essas explosões de magnanimidade são casos de "moralidade indolor", moralidade privada de obrigações e sanções executivas, "adaptada à prioridade do Ego". Quando se trata de agir "em nome de outra coisa que não de si mesmos", as paixões, o bem-estar e a saúde física do Ego tendem a ser tanto as considerações preliminares quanto as derradeiras. Também tendem a estabelecer os limites do caminho que estamos preparados para percorrer em nossa disposição de ajudar.  
Via de regra, as manifestações de devoção àquele "algo (ou alguém) que não nós mesmos", ainda que sinceras, apaixonadas e intensas, não chegam ao auto-sacrifício.  

Por exemplo, a dedicação à causa verde dificilmente chega a ponto de se adotar um estilo de vida ascético, ou mesmo uma forma parcial de abnegação. Com efeito, longe de estarmos prontos a renunciar a um estilo de vida caracterizado pela tolerância consumista, frequentemente relutaremos em aceitar o menor inconveniente pessoal.  

A força-motriz de nossa indignação tende a ser o desejo de um consumo superior, mais protegido e mais seguro. No resumo de Lipovetsky, "o individualismo disciplinar e militante, heroico e moralizante" deu lugar ao "individualismo à la carte", "hedonista e psicológico", que "faz das realizações íntimas o propósito principal da existência".  Parece que não sentimos mais que temos uma tarefa ou missão a desempenhar no planeta, e aparentemente não há nenhum legado que nos sintamos obrigados a preservar, por termos sido nomeados seus guardiões. 

A preocupação com a forma como o mundo é administrado deu lugar à preocupação com a “auto-administração”. Não é a situação do mundo, juntamente com seus habitantes, que tende a nos incomodar e a nos deixar preocupados, mas sim aquilo que é de fato um produto final da reciclagem de seus ultrajes, futilidades e injustiças em desconfortos espirituais e inconstâncias emocionais que prejudicam o equilíbrio psicológico e a paz de espírito do indivíduo interessado.  

Isso pode ser, como Christopher Lasch foi um dos primeiros a observar e articular, o resultado de transformar "queixas coletivas em problemas pessoais suscetíveis à intervenção terapêutica".   
"Os novos narcisistas", como Lasch memoravelmente chamou os "homens psicológicos" capazes de perceber, esmiuçar e avaliar a condição do planeta unicamente através do prisma dos problemas pessoais, são "assombrados não pela culpa, mas pela ansiedade". Ao recordarem suas experiências "interiores", eles "procuram não fornecer um relato objetivo de um fragmento representativo da realidade, mas seduzir outros" a lhes darem "sua atenção, aplauso ou simpatia", e assim sustentar seu inseguro senso de eu [self]. A vida pessoal tornou-se parecida com a guerra e tão cheia de estresse quanto o próprio mercado. O coquetel "reduz a sociabilidade ao combate social". 
 Sem muito mais em que basear a ansiada segurança de sua posição social, ressoando como autoconfiança e autoestima, exceto os ativos pessoais de propriedade pessoal ou a serem adquiridos pessoalmente, não admira que as demandas por reconhecimento, como diz Jean-Claude Kaufmann, "inundem a sociedade". "Todo mundo busca ansiosamente a aprovação, a admiração ou o amor nos olhos dos outros." E observemos que as bases para a autoestima fornecidas pela "aprovação e admiração" de outros são notoriamente frágeis. Como se sabe, os olhos se movem, e as coisas sobre as quais eles recaem ou pelas quais deslizam são conhecidas por sua propensão a virar e revirar de maneiras impossíveis de prever, de modo que o impulso e compulsão de "observar atentamente" na verdade nunca cessam. O calor da vigilância atual pode muito bem transformar a aprovação e aclamação de ontem na condenação e no ridículo de amanhã.  

sábado, 24 de janeiro de 2015

Falando do que vi



Fonte da imagem: FB Pedra de São Sebastião

Uma semana  numa cidade pequena, por mais que  vc a conheça, não é o bastante para mergulhar na sua rotina mas alguma coisa percebe-se  com relativa facilidade. Há quatro anos eu não ia pra festa de São Sebastião por vários motivos principalmente de natureza profissional.

Após esse tempo, algumas coisas permanecem absolutamente iguais porque estão cristalizadas na cultura local e acho difícil que mudem. Sua transformação só chegaria por milagre, por  alguma coisa de muito impacto e efeitos duradouros ou muito lentamente de forma que três ou quatro gerações adiante talvez pudessem fazer esse registro.

A questão da melhora considerável nas condições de habitação já era uma informação que eu tinha visto no último Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil com os resultados do PNUD. Mas, uma coisa é ler um gráfico ou tabela que nos oferece dados sobre o real, outra coisa é ver e sentir a realidade pulsante no cotidiano das pessoas. Não andei em todos os bairros mas passei por muitas ruas e pude ver como as casas, em geral, estão melhores, mais bem cuidadas. Observa-se uma preocupação com o bem estar. Isso representa qualidade de vida, cidadania e um aporte positivo para a saúde principalmente se, paralelamente, existe uma incorporação de hábitos mais saudáveis de higiene e alimentação. Também é preciso esclarecer que essas iniciativas são de natureza privada embora saiba que muitas ações do Governo Federal propiciaram os avanços.

No que diz respeito à limpeza urbana, a cidade está muito limpa  mas o lixão a céu aberto permanece no mesmo lugar de sempre. Precisei ir ao hospital e também encontrei-o muito limpo porém em condições precárias de funcionamento. Paredes arrebentadas pelo salitre, mobiliário antiquado, instalações hidráulicas precárias, janelas muito pequenas e altas não permite a ventilação adequada aos ambientes. Sinceramente, são da altura de janelas de cadeia. Só falta tirar os vidros e botar as grades. Não sei quem construiu o hospital mas qualquer um que tenha sido não observou questões fundamentais. Talvez um bom mestre de obra fosse mais atento à algumas demandas que ajudariam muito a tornar o ambiente mais arejado. Mesmo nas precárias condições, o atendimento é bom, os funcionários são atenciosos e isso já é alguma coisa positiva. A minha indagação é: por que o Posto de Saúde da Fazendinha não funciona? Não vi por dentro mas por fora as instalações aparentam ser muito boas. Ainda que não fossem ideais mas um posto de saúde fechado numa comunidade com uma população instalada que necessita de assistência é algo a ser explicado de forma convincente.

Na prefeitura,  me surpreendeu a qualidade do atendimento. Muito bom, pelo menos no setor que precisei resolver algumas coisas. A máquina burocrática entretanto ainda é muito limitada e há uma desorganização na atualização de dados à disposição da população. Creio que uma revisão geral modernizando o setor seria importante. No século em que a informação é tudo, é fundamental aproveitar a tecnologia disponível para facilitar a vida de todos, tanto funcionários quanto usuários. Não é um site apenas que altera essa realidade cotidiana mas um investimento significativo na modernização dos processos de informação oferece melhores condições de trabalho e agilidade na resolução das demandas internas e externas. Numa prefeitura de um município de mínimo porte acredito que não demandaria altos investimentos para atualizar a estrutura burocrática bastante emperrada. Um dia, as pessoas descobrirão que transparência, competência e marketing são coisas diferentes embora possam estar juntas em alguma ocasião.

Há algum tempo atrás,  estive na biblioteca pública de IP e vi que haviam excelentes livros, uma infra estrutura mínima e me animei bastante. Dessa vez, precisava de um livro que me informaram que lá existiam alguns exemplares disponíveis para consulta. Procurei a biblioteca como quem busca uma agulha no palheiro. Não achei. Fui na antiga casa de Jerônimo Jorge, no antigo prédio lá na praça do posto, na prefeitura, na secretaria de cultura que estava fechada e ainda num departamento não sei de que - ali mesmo no prédio da CVT - procurando a biblioteca. Todas as pessoas me atenderam muito bem mas ninguém sabia onde estava a biblioteca pública.  A biblioteca Zenira Gonçalves Gomes deve ter sido abduzida porque nem mesmo os órgãos oficiais responsáveis sabem dela. Isso é um retrocesso inaceitável. Já não se investe em cultura e, pra completar, até a biblioteca some?

O comércio cresceu um pouco com a instalação de pequenas lojas de artigos diversificados predominando o setor de vestuário disponibilizando produtos de bom gosto e qualidade. Em compensação,  o mercado público está literalmente acabado. No interior, há uma desorganização geral e uma infraestrutura destruída. As edificações ao redor da parte central estão desafiando o mínimo conceito de harmonia e bom gosto. Cada um faz o que quer, uns prédios em forma de caixotes em superposição, um diferente do outro, descaracterizaram totalmente a construção original e não trazem nada em troca nem em inovação nem em qualidade estética. O mau gosto e o descaso dinamitou a única construção antiga da cidade. Agora, vai ficar como está, talvez ficará pior quando todos resolverem colocar mais um caixote em cima do prédio original.

A administração das prefeituras, ao longo dos anos em que o processo de descaracterização do mercado vem acontecendo, é responsável pela incompreensão da importância de preservação de monumentos públicos. Modernização fora de hora e lugar é tolice. Na minha modesta compreensão, isso tem a ver principalmente com duas coisas: o desconhecimento do conceito de público e privado e de como estas duas áreas podem se relacionar civilizadamente e, por outro lado,  a politicagem que não bota ordem nas coisas com medo de perder votos.

Outra coisa que me impressionou foram os preços nas lojas de vestuário onde passei, com exceção daquelas  voltadas exclusivamente  ao comercio popular. As roupas estão a preços de shoppings das grandes cidades. Tudo bem, cada um é livre para consumir o que deseja mas o que me espanta é a relação contraditória entre os preços que eu vi e as informações sobre trabalho e renda apresentados no último PNUD divulgado. Isso pode ser um indicador de um  endividamento aguçado, o que parece particularmente complicado diante de  um ano que não promete muita coisa. O fetiche do consumo estimulado pela mídia e pela publicidade me impressiona porque está cada dia mais associado à inclusão social, poder e qualidade de vida em detrimento de coisas essenciais que não apresentam resultado imediato e sequer se prestam à ostentação ingênua como forma de distinção social.

A tentativa de organizar o trânsito é uma coisa positiva principalmente em tempos de excesso de veículos trafegando pela cidade. As motos são insuportáveis e não respeitam nem automóveis nem pedestres, em qualquer lugar está assim. A própria localização do DETRAN é inadequada porque não há espaço para a demanda de veículos tornando o trânsito naquela área mais congestionado e desordenado. Isso repercute na mobilidade principalmente de idosos e crianças que ficam mais expostos à ousadia irresponsável de condutores apressados.

Agora junte: a movimentação do trânsito com seu barulho característico + os carros de som que madrugam gritando histericamente seus anúncios e recados no mais alto volume + a difusora da igreja + som de carros que passam em altíssimo volume. Fechando o circuito, as bandas nas festas noturnas não deixam ninguém dormir enquanto a festa não acaba. Quando não tem banda, tem o relógio da igreja que invariavelmente, de meia e meia hora, toca uma sequencia de sons desnecessários. Isso é Ipaumirim. Vai ver a biblioteca sumiu porque ninguém consegue mesmo ler com aquela barulheira sem controle nenhum. Quem é mesmo o órgão responsável pela ordenação e controle da poluição sonora? Já que civilidade passou longe, pelo menos, devia existir  algum órgão que normatizasse esse descontrole prejudicial ao conforto e a saúde de todos.  O processo civilizador nunca foi bonzinho em nenhum lugar do mundo. Para viver em sociedade é preciso regras que disciplinam e enquadram os excessos que prejudicam coletivamente. Para isso o poder público tem instrumentos à vontade e não usa se não quiser.

O dia 18 foi um dia insuportavelmente barulhento. Se tivesse algum aparelho para medir os decibéis com certeza teria estourado, pelo menos naquela área em volta da praça e da igreja. A orgia sonora absoluta e soberana reinou o dia inteiro.

Falar no dia 18 é falar  do abortamento da iniciativa mais saudável que IP conheceu nos últimos tempos. Implodiram a ACRI e a sua proposta idealizada por Zenira, com o apoio de filhos e amigos de Ipaumirim, quando da sua fundação como uma organização que agregaria a todos. Se a coisa começou assim, não seguiu assim. Se alguém lembrar das críticas que fiz no blog há algum tempo atrás vai saber exatamente quando as coisas começaram a degringolar e a politicagem miúda, varejista, barateira e míope acabou afastando as pessoas que efetivamente gostavam e encaravam a festa como um espaço de todos. Desde essa época, a ACRI teve a sua morte anunciada. Saiu da iniciativa dos amigos e caiu no esgoto da politicagem. Daí, o destino era ir ladeira abaixo mesmo. Pra mim, naquele momento a ACRI foi abortada. Não foi nessa festa chinfrin de 2015 com essa bandinha bate estaca que a ACRI acabou. Ela acabou quando perdeu a sua razão de ser que era exatamente ser uma festa de todos para todos.  Até uma banda que tocou na praça, de tarde, foi infinitamente superior a banda da noite. Manter uma festa no nível que foi essa última para desqualificar cada vez mais uma iniciativa já defunta é um escárnio.

As outras festas públicas devem ter sido ótimas até porque acabaram bem tarde mas eu não posso falar do que não vi.

Dia 20, dei umas voltas pelas áreas de maior movimento onde ficam o comercio informal e o parque. Vale salientar que o parque melhorou um pouco. As instalações ainda são precárias, tanto dos brinquedos quanto na parte elétrica, mas eu seria injusta se não reconhecesse que estão infinitamente melhores que as últimas que eu vi por lá em anos anteriores. O comercio informal continua muito bagunçado e, ano após ano, ninguém toma uma providência para melhorar as condições da romaria. Esse ano, eu não vi nenhuma equipe de apoio e informação instalada na praça do posto, o que muito facilitaria a vida dos romeiros.  Pra um evento  popular onde não se conhece investimento, nem na infraestrutura turística nem na divulgação, além do mais acontecendo durante a semana, a festa religiosa foi de bom tamanho. A procissão foi muito bonita e bem organizada. Não foi das melhores que eu  vi em temporadas passadas mas teve muita gente.

O setor de alimentação avançou um pouco com a instalação de  pizzarias, restaurantes e alguns bares mesmo os mais distantes. É preciso valorizar e estimular essas iniciativas não só porque são lugares de divertimento mas porque dão ocupação a várias pessoas. A praça do posto parece que já se consolidou como um local de encontros sociais.

Uma juventude bonita e bem cuidada circulou pela cidade, de lá mesmo e/ou visitantes. 
Houve a festa da Família Gonçalves bastante concorrida com muita gente de fora vindo especialmente para o evento. 
Durante o período da festa, fiquei com pena porque não vi muita gente que estava na cidade  e que eu gostaria imensamente de ter encontrado.

O melhor é que ocorreu tudo em paz com exceção de um grave  acidente de moto com duas vítimas fatais. 
Até a politicagem que rolou, ficou bem apagadinha. Não deu pra impressionar porque as pessoas estavam atentas a coisas mais interessantes.
ML