- “Minha filha, a gente casa pra isso mesmo, pra servir a eles”.
A intimidade se fazia penosa e difícil. O noivo inseguro recebe uma orientação de Dori Ferrer para uma abordagem mais convincente. Necita e as mulheres mais velhas orientam Júlia para aceitar o marido. Julia aprendeu que precisava cumprir os deveres de esposa, porque essa era sua obrigação.
- “Era o jeito!”
Teve uma lua de mel de insegurança e medo, chorava e logo ficou grávida. A camisola aberta, na frente, transpassada ao lado e fechava com tira que se encerrava num laço. O marido apenas abaixava a cueca. Nunca se viram totalmente despidos. A exposição do seio só era possível na amamentação. O marido era carinhoso, mas ela não gostava. Não sabe se não gostava dele ou do carinho. Ficou grávida aos 13 anos. Na gravidez, a sexualidade é esporádica e reservada. Tiveram cinco filhos seguidos. Após o banho dos 15 dias de resguardo, reiniciava a atividade sexual e imediatamente começava outra gravidez. Só ficaram dois: Elza e Rizomar. Ela lembra que o mais velho, Luiz Gonzaga, morreu desidratado.
O marido foi empreitado pra fazer um trabalho em Miguel Calmon, em Mombaça. Lá, ele botou uma roça e defronte a casa onde moravam, vivia um casal. A mulher, bem mais velha, passa a ter um relacionamento com seu marido. Ele chegava do trabalho e ia para casa da mulher onde tocavam viola. Um dia, ele diz a Júlia que vem pra Lavras terminar uma casa que tinha começado no Machado. Vai embora com o irmão dele e a família da amante. De manhã, Julia vai à cidade saber de um dinheiro do milho que ele tinha vendido e descobre que ele tinha comprado cortes de tecido para a amante e fugido para Senador Pompeu. Junta os filhos e os trapos e vai atrás do marido. Não o encontrou em Senador Pompeu. Seguiu para Maria Pereira (atual Mombaça) e de lá para Tauá onde uma mulher lhe deu guarida. Cuidava dos animais, recebia alguma coisa por isso e mais o leite das cabras. Aprendeu a fazer queijo de leite de cabra. Quando sobrava leite de gado, a mulher também lhe dava par fazer queijo.
Era 1942, uma das maiores secas que o ceará atravessou. Com a criação das Frentes de Trabalho, Júlia consegue ganhar uns trocados como faxineira do escritório local. Complementa a mísera renda trabalhando no preparo do tempero para comida dos cassacos. Na ocasião, só havia sal grosso. Aproveitando as tardes, ela pila o sal para adicionar aos temperos que preparava a partir da sobra de sebo das carnes que vinham para alimentar os trabalhadores. Cozinhava o sebo no leite temperado com alho e pimenta do reino. Enchia garrafas que vendia a 1,00 (quanto seria???) Também fazia buchada quando era chamada para cozinhar nas casas de família e ganhava mais uns trocados.
Depois de algum tempo, resolve voltar para o Juazeiro do Norte. Vai para a casa de um tio trabalhar na limpa de arroz. As crianças ficam em casa com a mulher do tio. Também cortava capim, fazia o feixe e ia vender para alimentação dos animais na feira do Juazeiro. Nessa luta passou cerca de seis anos.
Na volta ao Juazeiro do Norte, Júlia entra na prostituição. Começou com um guarda, casado. Daí, voltou, com os filhos, para Lavras da Mangabeira onde passa um tempo trabalhando na confecção de vassouras de palha de carnaúba. Deixa os filhos em Lavras. Elza foi criada por uma tia de Dr. Miraneudo. Quando a garota tinha 13 anos, Julia foi buscá-la na casa de D. Sinhara e deixou-a com outra pessoa. Elas só voltaram a morar juntas muitos anos depois quando as duas deixaram ‘a vida’.
Júlia vai, sozinha, instalar-se na cidade de Cedro e começa a atender profissionalmente. Monta uma pequena casa, só para ela, e consegue organizar uma carteira de clientes selecionados na elite local.
Um comentário:
Muito gratificante esse trabalhado que estás realizando. Você coloca na história,um personagem que a História oficial ignorou.
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