Gente de Ipaumirim. Vida de Ipaumirim. Tempos de Ipaumirim. Alagoinha... Ipaumirim...... memória..... raízes... atualidades....... por novos tempos..... novos olhares...... espaço aberto a todos......
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Stephen Hawking descarta papel de Deus na criação do Universo

Em The Great Design (“O Grande Projeto”, em tradução livre), que teve trechos publicados nesta quinta-feira pelo jornal britânico The Times, Hawking afirma que “a criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada”.
O cientista cita a descoberta de um planeta orbitando uma estrela que não o Sol, ocorrida em 1992, como algo que faz as condições planetárias terrestres – como a relação entre a massa solar e a distância para o Sol, por exemplo - parecerem provas “muito menos convincentes de que a Terra foi cuidadosamente projetada somente para agradar a nós, seres humanos”.
"Devido à existência de uma lei como a da gravidade, o Universo pode e vai criar a si mesmo do nada”, afirma o físico no livro.
"A criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada, do porquê do universo existir, do porquê de nós existimos”, diz Hawking.
The Great Design foi escrito em parceria com o físico norte-americano Leonard Mlodinow e tem lançamento previsto para o próximo dia 9.
Mudança
Os trechos indicam uma aparente mudança de opinião em relação a uma das obras mais conhecidas de Hawking.
Em seu livro Uma Breve História do Tempo, publicado em 1988, o cientista sugeria que a ideia de uma criação divina seria compatível com uma compreensão científica do Universo.
“Se nós descobrirmos uma teoria completa, será o triunfo definitivo da razão humana – pois então nós deveremos conhecer a mente de Deus”, escreveu então o cientista.
Uma Breve História do Tempo teve mais de 9 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.
Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/2010/09/100902_hawking_deus_rp.shtml
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Ai, o amor, ai, ai!

História do amor no Brasil
Mary Del Priore: a miscigenação brasileira influiu na maneira de dizer o amor
Mary del Priore é uma conhecida historiadora brasileira, ex-professora da USP e da PUC-RJ, e tem se dedicado à história do amor. De suas pesquisas resultou o trabalho História do amor no Brasil, publicado pela editora Contexto. Também escreveu uma História das crianças no Brasil e uma História das mulheres no Brasil (ambos, pela Contexto), tendo recebido, por essa última obra, o Prêmio Jabuti. Apresentando uma reflexão rica e fartamente documentada, Del Priore toma a sério a reflexão sobre o imperativo do amor, que, “como outros imperativos – comer, por exemplo –, está inscrito em nossa natureza mais profunda”. A obra percorre o Brasil Colônia, o século XIX e o século XX, mostrando como a concepção romântica de amor – idealizadora do encontro entre duas pessoas – é inteiramente recente, apesar de uma ênfase erótica explícita já em formas literárias medievais, renascentistas e modernas. Como conclusão, Mary del Priore assume posições muito instigantes, em defesa, por exemplo, de uma concepção tradicional de amor, diagnosticando a angústia da juventude diante da liberdade sexual e denunciando uma ditadura moderna do gozo. Gentilmente, ela concedeu uma entrevista à CULT, cujas respostas mais significativas para o dossiê deste mês apresentamos aqui.
CULT: Apesar do caráter recente da visão romântica do amor, a senhora aponta para a exploração do erotismo na literatura francesa do século XVI. Mas Portugal, desse ponto de vista, teria vivido um atraso, associando, ainda, prazer e pecado. Em que consistiu esse atraso?
MARY DEL PRIORE: Teorias que consideravam o desejo sexual uma doença estão presentes em vários textos médicos portugueses desde o começo do século XVI. Havia quem dissesse, como o escritor João de Barros, em 1540, que o sentimento apaixonado “abreviava a vida do homem”, minguando ou secando os mebros do enamorado. Que doenças decorriam da paixão: ciática, dores de cabeça, problemas de estômago ou dos olhos. A relação sexual, por sua vez, emburrecia, além de abreviar a vida. Ele concluía: só os “castos vivem muito”. Os portugueses também estiveram cara a cara com uma ars erotica que usava e abusava de afrodisíacos. Dela, contudo, só levaram para Portugal a possibilidade de ver em tudo pecado ou doença! O contato imediato dos lusos com as Índias Orientais colocou-os em contato com perfumes vindos tanto da China quanto do subcontinente asiático, e com afrodisíacos largamente utilizados naquela parte do mundo: a cannabis sativa, bangue, maconha ou ópio. Esse era usado como excitante sexual capaz de duas funções: agilizar a “virtude imaginativa” e retardar a “virtude expulsiva”, ou seja, controlar o orgasmo e a ejaculação. No século XVIII, a idéia de que o amor é uma doença não faz os afrodisíacos desapar dos manuais de remédios, mas se recomendam, cada vez mais, os anafrodisíacos. Definindo-os como “aqueles remédios que ou moderam os ardores venéreos ou mesmo os extinguem”. É o caso do agnus castus, ou agnocasto, a mais eficaz das plantas antieróticas. Existiam várias outras substâncias com a mesma reputação de esfriar ou anular o desejo sexual, como a cânfora, por exemplo.
CULT: O Brasil seria um herdeiro do atraso português?
MARY DEL PRIORE: O Brasil herdou costumes que vieram da Europa, de Portugal, da Igreja e de outras instituições. Mas não foi uma simples transferência. Houve adaptações. A miscigenação proporcionou, por exemplo, um repertório linguistico que influiu na maneira de dizer o amor. Uma viajante francesa, Adéle Toussaint-Samson, no século XIX, sintetizou: “A língua brasileira, com todos os seus diminutivos em -zinha, -zinhos, tem uma graça toda crioula, e jamais a ouço sem descobrir um grande encanto; é o português com sua entonação nasal modificada. Todas as suas denguices lhe caem bem e dão à língua brasileira um não-sei-quê que seduz mais ao ouvido do que a língua de Camões”. Outro exemplo vemos no Romantismo, momento de eclosão da poesia afro-brasileira. Nela, homens como Laurindo José da Silva Rabelo faziam versos os mais apaixonados. Em Suspiros e saudades, ele canta a interpretação romântica de sua dor, mas uma dor mestiça, feita de saudades à moda portuguesa. Já em Cruz e Souza, a busca subjetiva da cor branca é o tema de toda a obra poética. Quando o poeta ama, o objeto desse amor é a “mulher, ‘da cor nupcial da flor de laranjeira’, e loura, ‘com doces tons de ouro’”. Para Tobias Barreto, o amor era um sentimento unificador: andava por onde quisesse não se detendo nas barreiras do preconceito de cor.
CULT: Seria possível resumir em etapas mais ou menos homogêneas a cronologia do amor no Brasil? Como?
MARY DEL PRIORE: Não há etapas homogêneas em história, mas momentos de mudanças e permanências coexistentes. Por exemplo, o século XIX introduziu a ideia do amor romântico. As pessoas começam a ler romances onde heróis e heroínas buscam um casamento por amor e um final feliz para suas histórias. Isso era novo. Ao mesmo tempo, nas elites, o casamento arranjado com parentes ou amigos era uma constante. Isso era arcaico. As fórmulas coexistiam. Daí começarem os raptos de noivas que se recusavam a casar com candidatos impostos pela família, preferindo fugir com os escolhidos do coração. É como se tivéssemos passado de um período em que o amor fosse uma representação ideal e inatingível (a Idade Média), para outra em que vai se tentar, timidamente, associar espírito e matéria (o Renascimento). Depois, para outro, em que a Igreja e a Medicina tudo fazem para separar paixão e amizade, alocando uma fora, outra dentro do casamento (a Idade Moderna). Desse período, passamos ao Romantismo do século XIX, que associa amor e morte, terminando com as revoluções contemporâneas, momento no qual o sexo tornou-se uma questão de higiene, e o amor parece ter voltado à condição de ideal nunca encontrado.
CULT: Na abertura de seu livro, a senhora subscreve as palavras de Luís Felipe Ribeiro: no passado, as pessoas “não davam”, mas se davam; hoje, elas “dão”, mas não se dão. Na conclusão, a senhora afirma que a liberdade amorosa – típica de nosso tempo – tem contrapartidas: a responsabilidade e a solidão. E termina apontando para um lado positivo da tradição, pois esta, defendendo a família e a procriação, seria uma fonte de profunda emoção. Gostaríamos de ouvi-la um pouco mais sobre a vivência do amor no mundo contemporâneo.
MARY DEL PRIORE: Considerando as transformações pelas quais passou a sociedade brasileira, poderíamos avançar o seguinte: aquilo a que se assistiu, ao longo dos tempos, foi uma longa evolução que levou da proibição do prazer ao direito ao prazer. Fomos dos manuais de confessor, que tudo interditavam, aos casamentos arranjados, policiados, acompanhados passo a passo por familiares zelosos. E desses ao impacto das revoluções, que, ao final dos anos 60, exportaram mundo afora lemas do tipo “Ereção, insurreição” ou “Amai-vos uns sobre os outros”, sem contar o movimento hippie, com o lema “Paz e Amor”. Desde então, o amor e o prazer se tornaram obrigatórios. O interdito se inverteu. Impôs-se a ditadura do orgasmo forçado. O erotismo entrou no território da proeza e o prazer tão longamente reprimido tornou-se prioridade absoluta, quase que esmagando o casamento e o sentimento. Passou-se do afrodisíaco à base de plantas para o sexo com receita médica, graças ao Viagra. Passou-se da dominação patriarcal à liberação da mulher.
Entre nós, durante mais de quinhentos anos, os casamentos não se faziam de acordo com a atração sexual recíproca. Eles mais se realizavam por interesses econômicos ou familiares. Entre os mais pobres, o matrimônio ou a ligação consensual era uma forma de organizar o trabalho agrário. Não há dúvidas de que o trabalho incessante e árduo não deixasse muito espaço para a paixão sexual. Sabe-se que entre casais, as formas de afeição física tradicional – beijos e carícias – eram raridade. Para os homens, contudo, as chances de manter ligações extra-conjugais, eram muitas. O resultado dessa longa caminhada? Especialistas afirmam que hoje queremos tudo ao mesmo tempo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade. Fundado exclusivamente no sentimento que sobrou do amor romântico, o sentimento mais frágil que existe, o casal está condenado à brevidade, à crise. Mais. A liberdade sexual é um fardo para os mais jovens. Muitos deles têm nostalgia da velha linguagem do amor, feita de prudência, sabedoria e melancolia, tal como viveram seus avós. Hoje, a loucura é desejar um amor permanente, com toda a intensidade, sem nuvens ou tempestades. Numa sociedade de consumo, o amor está supervalorizado.
O sexo tornou-se uma nova teologia. Só se fala nisso e se fala mal, com vulgaridade. Sabemos, depois de tudo, que o amor não é ideal, que ele traz consigo a dependência, a rejeição, a servidão, o sacrifício e a transfiguração. Resumindo: existe um grande contraste entre o discurso sobre o amor e a realidade de vida dos amantes. O resultado? Escreve-se cada vez mais sobre a banalização da sexualidade e o desencantamento dos corações, enquanto o amor segue uma coisa sutil e importante que continua a fazer sonhar, e muito, muitos homens e mulheres.
Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/05/historia-do-amor-no-brasil/mary-2/
terça-feira, 31 de agosto de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Allow mulheres!

Você sabia que até o inicio do século XX as mulheres não usavam roupas pretas no dia a dia?
Como elas conseguiam sobreviver sem essa corzinha básica é um mistério. Mas a verdade é que o preto era uma cor reservada ao luto e ao guarda-roupa masculino.
A maior responsável por inserir esta cor no armário foi Coco Chanel. A estilista acreditava que a mulher tinha que se sentir confortável em suas roupas e que a feminilidade transcendia cores ou silhuetas. Então lá foi ela, libertar a mulherada das amarras do corpete, desafiar a sociedade com calças e terninhos e cores super básicas. E agora, já no século XXI não podemos mais viver sem o preto.
Há quem acredite que preto é bom porque faz parecer mais magra, ou que preto é ótimo, pois combina com tudo e é elegante. Mas a verdade é que o pretinho básico é tudo isso e pode ser ainda mais.
Então, me propus um desafio para saber o quão básico pode ser nosso pretinho! Montei várias produções, para vários tipos de ocasiões, todas com o mesmo vestido.
Será que dá certo?
Casual - Look montado a partir de peças básicas, para situações informais. Passeios com a família, almoços, happy hour.
Casual chic - Ideal para eventos que não exigem código de vestimenta, mas necessite de um toque de elegância para jantares e festas.
Balada - Em casas noturnas você pode investir mais em uma produção mais pesada, saltos mais altos, brilho, cores e acessórios.
Escritório - O vestido preto básico é com certeza peça chave de toda mulher que trabalha. Quando combinado com peças mais formais não perde suas características de feminilidade.
Fashionista - Mistura referências de várias décadas e de várias origens, mix de estampas e cores inusitadas. O look fashionista imprime várias facetas da personalidade de uma pessoa, sem medo de assumir riscos.
Como escolher o seu pretinho básico
Conheça e valorize suas curvas. Use o vestido para acentuar seus melhores traços, como ombros, decote, cintura, quadril ou pernas. Preste atenção no comprimento e garanta seu vestido apropriado para todo tipo de ocasião.Como o vestido é básico, para incrementar a produção use e abuse de texturas e estampas nas peças que o sobrepõe, como as camisas e jaquetas.
Fonte: http://bbel.uol.com.br/beleza-e-moda/post/pretinho-basico.aspx
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Um doce olhar
O título original do filme, "Bal", quer dizer "Mel". Os outros dois longas são "Yumurta" ("Ovo"), de 2007, e "Sut", ("Leite"), de 2008 -- ambos inéditos em circuito comercial no Brasil, mas exibidos em festivais, como a Mostra Internacional de São Paulo.
Cada um dos filmes retrata uma fase na vida de um mesmo personagem, Yusuf, o que não quer dizer que sejam, necessariamente, a mesma pessoa.
Em "Ovo" ele é um homem maduro, um poeta de pouco sucesso, dono de um sebo que volta à cidade natal para o funeral de sua mãe. Em "Leite", está no final da adolescência, não consegue entrar numa universidade, sonha em escrever poesias, e não é aceito no serviço militar.
Cada filme pode ser visto de forma independente, pois se encerra em si mesmo. Mas, obviamente, a trilogia completa, um retrato às avessas de um homem, da maturidade à infância, traz mais camadas de compreensão sobre o personagem.
Em "Um Doce Olhar", o pequeno Yusuf, de 6 anos, mora numa província cercada de montanhas no norte da Turquia. O pai, Yakup (Erdal Besikcioglu), é apicultor, e a mãe, Zehra (Tulin Ozen), plantadora de chá.
SÃO PAULO (Reuters)
Fonte:http://omundocomoelee.blogspot.com/
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Mil perdões
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Todo dia é dia de poesia

Toquinho
Composição: Toquinho / Vinícius de Moraes
Meu pai mandou lhe dizer
Que o tempo tudo desfaz.
A morte nunca estudou
E a vida não sabe ler.
O-ba-bá
Não dá pra ninguém saber
Por que é que há
Quem lê e não sabe amar,
Quem ama e não sabe ler.
Você que sabe demais,
Mas que não sabe viver,
Responda se for capaz:
Da vida, quem sabe lá?
Da morte, quem quer saber?
Fonte: http://letras.terra.com.br/toquinho/87187/
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Quase negros, quase brancos
PROSTITUTAS, QUASE LIVRES
A maconha misturada com crack tornava Luciana, tinha apenas 15 anos, mais à vontade para transar por dinheiro. Aí podia comprar roupa sem ter que esperar o Natal
Antes de falarmos sobre quanto Luciana ganhava por programa e com a venda de crack, vamos conhecer Rosalina e Eufrasina. Os nomes são um tanto improváveis para este novo mundo, mas não em 1879, ano em que as duas irmãs menores chegaram sozinhas ao Rio de Janeiro. Tiveram sorte relativa: foram logo encaminhadas para a polícia, mas o primeiro-tenente Guilherme Waddington, comandante do barco Nacional Bahia, já havia levantado 1.232 réis para alforriá-las. Ambas eram brancas e estavam prestes a se deitar em troca de dinheiro. Acabaram virando notícia publicada no dia 8 de abril no jornal carioca O Cruzeiro: (...)“Foram embarcadas na Paraíba por um indivíduo de nome José Rufino, que as ditas menores dizem ser pai delas. Estas raparigas vinham para esta corte a fim de serem vendidas a um indivíduo que compra escravas moças para entregá-las à prostituição”.
“Às vezes negrinhas de dez, doze anos já estavam na rua se oferecendo a marinheiros enormes, grangazas ruivos que desembarcavam nos veleiros ingleses e franceses com fome doida de mulher. E toda esta super excitação de gigantes louros, bestiais, descarregava-se sobre molequinhas; e além da super excitação, a síflis, as doenças do mundo, as quatro partes do mundo, as podridões internacionais do sangue” (Gilberto Freyre, Casa grande e senzala)
Já falaremos sobre como Luciana, dos 15 aos 18 dormindo com homem por uns R$ 15, se envolveu com o tráfico e teve que se esconder para não levar tiro. Antes é importante saber que a chegada de Rosalina e Eufrasina flagra um aspecto que torna nosso novo mundo não tão novo assim: a presença das brancas menores de idade no mundo da prostituição. A notícia atesta que mesmo antes da abolição as garotas de pele clara já começavam a competir com as de pele escura em um mercado em que valia até mesmo ser vendida pelo próprio pai. É por isso que a presença de “três pardinhas” também a bordo do Nacional Bahia não rendeu mais do que uma linha. O mercado do sexo já era algo bastante comum no País, e eram justamente negras (ou mestiças) que desempenhavam tal papel na colônia. Grande parte trabalhava a mando de seus senhores e senhoras, que concediam vales noturnos de liberdade e decoravam as pretas com joias caras para que elas arrumassem clientes. O lucro era repassado para os patrões no início da manhã.
Luciana, agora vamos falar dela, está mais para as pardinhas do que para as irmãs brancas da Paraíba. Mas o seu pardo tão esmaecido, duas gotas de preto na pele branca, torna a menina clara e distinta em meio ao batalhão de menores negras que se prostituem no Brasil. Luciana se vê e é vista como branca, é exemplo de como no País a cor é antes de tudo uma construção. Como se sabe, ela traficou droga, se prostituiu e se escondeu para não ser morta. Mas não toca em nenhum dos três assuntos quando passa a falar de si mesma tendo como pano de fundo uma parede descascada. Vai para longe, chega aos 7 anos de idade. Foi quando um conhecido da família, moram todos no Curado, tocou por baixo da sua calcinha. Foi seu primeiro beijo. Ninguém pergunta, mas ela fala. História sem beleza que ela nunca contou aos pais, mais fácil contar para alguém que ela conhece há dez minutos. Nessa época, a mãe começou a definhar, ficou doente e compraram uma cadeira de rodas. Foi quando as paredes do apartamento começaram a descascar. “Eu fui feliz até ali.”
No dia em que Luciana tirou um short curto da gaveta e foi para a rua, o pai não estava em casa, a mãe estava lá dentro sentada na cadeira de rodas. Pegou um ônibus e seguiu para o Ibura, ali podia contar com uma pobreza equivalente ao bairro onde nasceu. Era o mesmo que estar em casa. Ia fazer 15 anos ainda quando sentou em um bar, uma amiga preta ao lado. Algumas horas depois havia um homem com cerca de 50 anos em cima dela. Quando ele foi embora e deixou o dinheiro (deu R$ 25, ela dividiu com a amiga), ela ficou feliz porque se sentiu independente. Não precisava esperar até o Natal para comprar uma roupa.
Outra coisa legal do dinheiro era a farra, todos bebiam, fumavam um melado e riam, riam. Maconha com crack era “o pipoco”. É claro que ela não ia voltar para a casa para ver a mãe sem uma perna, sentada na cadeira de rodas. Todas as vezes que chegava em casa de manhã escutava-a dizer: “Puta”. Outros homens subiram em cima dela. No total, ficava só com R$ 80 por mês. “É porque não era todo dia não. E eu gastava tudo, arrumava confusão. Só não queria voltar para casa.” Era porque, além de “puta”, a quase Rosalina apanhava. Apanhava muito. “Mas eu merecia.”
Numa das farras, Luciana, garota magra que nunca colecionou figurinhas de chiclete ou da Hello Kitty, se apaixonou. Estava doidinha, foi cerveja, aguardente e um melado, sentou na escadaria da boate (da “dança”, boate é meio metido) e vomitou. Ele não deixou ninguém chegar junto. Pode ser que tenha sido sentimento de culpa, porque foi ele que vendeu o cigarro para ela. Dormiram juntos e ele (talvez seu nome seja Raul, ou Cláudio, ou Luiz, ou José) não subiu nela. É claro que ela o ajudou na primeira vez em que ele pediu. Ajudou todas as vezes, ficou conhecendo várias bocas de fumo da Zona Sul. Era só sair com a mochila e vender o melado ou o crack. Era boa de venda, o chefe dele quis até conhecer a menina, elogiou. As paredes do apartamento no Curado continuavam descascando, mas agora Luciana tinha um quase amor, “porque era mais cama e trabalho mesmo”, e ainda recebia elogio. O “puta” daquela mulher triste da cadeira de rodas nem importava tanto. Agora ela só dormia por dinheiro quando brigava com o amor (o quase só valia para ele), sabia quando havia outra. Aí transava mesmo, ganhava dinheiro e pronto. Ia fazer 18 anos quando chegou um rapaz conhecido dizendo: “Se eu fosse você, sairia daqui. Ele mesmo já foi”. Assim, sem ligação ou SMS, ela soube: o namorado sumiu com a droga e o dinheiro do patrão. Estavam procurando por ele e, consequentemente, por ela.
Se o celular amarelo que ela comprou funcionasse direito, teria ligado para ele lá de Vitória, foi parar em outra cidade sem saber muito bem o que estava acontecendo. Passou cinco meses na casa de uma amiga “da farra”. Recebia notícias: ele não voltou ao Curado, dois rapazes numa moto procuraram por ela uma vez, em outra foi uma moça alta e loura. Chegavam em sua casa, perguntavam, a mãe disse a verdade: “Eu não sei”. Luciana estava tentando fazer o celular amarelo funcionar quando soube que Nádia apareceu morta. Sabia que às vezes ela andava com seu quase amor, chegou a discutir com os dois. Mas ficou com pena quando acharam a menina nua perto da BR (algo novo no novo mundo: Nádia era pardinha, mas seu nome saiu no jornal). O policial que deu entrevista falou assim: “Envolvida com o tráfico local”.
MATAR O BEBÊ
A mãe estava no médico no dia em que Luciana voltou para casa. O pai, como sempre, longe. Não sentia mais medo: o namorado estava preso e “os dois caras de moto” que circulavam procurando por ela há tempos não apareciam. Desde então, só sabe que o ex está morando em um dos pavilhões do presídio Aníbal Bruno, foi indiciado por tráfico, roubo e assassinato. Tem saudade. “Eu gosto dele, no começo do namoro ele me abraçava, mas só no começo.” Não consegue mais se aproximar da turma da farra porque a liberdade ficou cara demais (sente saudade também). O pior foi quando uma amiga de muito tempo foi visitada por um dos caras da moto. Queria saber de Luciana. “Ela achou que iam entrar na casa e matar o bebê dela, me disse que da próxima vez ia escondê-lo no armário. Eu vi que não tinha mais jeito, imagina o bichinho dentro do armário. Podiam matar todo mundo, eu, ela, o marido. Mas o bebê não. Eu amo muito o bebê.”
Ela desce três escadas até o térreo, a família quis morar no terceiro andar de um dos prédios do conjunto habitacional porque era “mais chique”. Vai comprar uma Coca-Cola dois litros para oferecer às visitas. Fez pipoca também. Não precisa, não precisa, mas ela insiste e volta com o garrafão preto gelado, serve em copos de plástico. O refrigerante soa como o único artigo de luxo dentro do apartamento descascado, a única coisa realmente nova, fresca, sem nada que lembre o tempo em que apanhava, o tempo (foi ontem) em que se prostituía, o tempo em que Raul, ou Cláudio, ou Luiz, ou José, a abraçava. Ela coloca a garrafa na estante, a cortina rosa que separa a sala dos quartos lá dentro voa um pouco e dá para ver parte de uma cadeira de rodas. “Quer Coca, mãe?” Ninguém responde.
___________________________________________________________________
Maioria preta: De acordo com o relatório Direitos da criança, realizado pelo Relator Especial da ONU sobre a venda de crianças, prostituição infantil e pornografia infantil, Sr. Juan Miguel Petit Addendum (2003), raça e etnicidade são determinantes de vulnerabilidade para a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. Mulheres e crianças traficadas também são, principalmente, de origem negra (afro-brasileiras).
Abuso sexual: O mesmo relatório mostra que o abuso sexual geralmente induz à exploração sexual. Estatísticas da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia) indicam que 58% dos casos de abuso sexual ocorreram dentro da família, geralmente cometidos pelo pai ou padrasto. Em muitos casos, o abusador era conhecido da vítima.
Pernambuco no topo: Em 2005, a Unicef divulgou que a prostituição infantil está presente em cerca de 16,88% dos municípios brasileiros (todas as capitais estão na lista). As cidades o interior (com população entre 20 e 100 mil habitantes) são aquelas cujos índices são mais altos. O Nordeste foi a região líder no ranking vergonhoso, com 31,8% das cidades citadas. Pernambuco lidervaa o ranking nordestino com setenta cidades onde menores se prostituem. A entidade divulgou no ano passado que 150 milhões de meninas e 73 milhões de meninos menores de 18 anos são vítimas de exploração sexual no mundo.
___________________________________________________________________
SERVIÇO
Fonte: Dicionário da escravidão negra no Brasil (Clóvis Moura).
A cada sete anos, a Mãe de Deus desce até a terra para comandar, encarnada na ialorixá Estelita, 103 anos, a festa da Irmandade da Boa Morte, na Bahia
Nossa Senhora mora numa casa pequena, em uma ladeira de Cachoeira, Recôncavo Baiano, tem 103 anos e é devota de Obaluaê. Usa saias de renda belíssimas, de outros panos, brilhosos, também. Uma é bordada, tecido comprado em São Paulo, tem mais de 30 anos. Nossa Senhora gosta de samba de roda e teve 12 filhos, todos criados no mesmo lar onde ela mantém um terreiro de candomblé. De manhã, costuma comer “um pratão de mingau”. Quando era moça, tinha tabuleiro, vendia doce e acarajé. Foi nessa época que teve um sonho que mostrava que sua vida ia mudar. Aí estava Estelita, esse é o nome de Nossa Senhora, estava Estelita na rua, vendendo doce e acarajé, quando alguém perguntou: “Como é, você vai ser minha irmã ou não vai?”
Ela foi. Isso tem mais de 60 anos e há mais de 30 é a juíza Perpétua da Irmandade da Boa Morte, o mais alto cargo de um grupo criado no início do Oitocentos, em Salvador, por africanas vindas do Ketu. É a única irmandade negra do mundo formada apenas por mulheres. A cada sete anos, a juíza recebe a Santa Mãe de Jesus, encarna Aquela que agrega todas as mulheres, a Virgem que morreu em paz, sem doenças, consumida pelo amor de Deus e o desejo de estar perto do filho. É Ela, na face de Estelita, a mais antiga do grupo, quem comanda periodicamente a enorme festa realizada pela congregação durante o mês de agosto.
A presença divina no corpo frágil, uma bênção para muitos, uma blasfêmia para tantos outros, é incontestável naqueles dias. Segurando um báculo, espécie de cajado que marca seu poder, Estelita senta-se, unindo latim e iorubá, ao lado de padres durante parte da celebração católica da festa (realizada na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário). O acessório só se materializa em suas mãos a cada sete anos, para marcar a presença sagrada: quando Nossa Senhora não é a provedora da festa, Estelita não senta entre os religiosos e seu báculo existe, mas é invisível.
Poucas recebem a imensa honra de ceder a carne e o sangue a Maria. É preciso ter angariado a confiança das irmãs e dedicar boa parte da vida a irmandade, onde hoje são aceitas mulheres com menos de 45 anos, uma regra antiga que garantia, de certa maneira, a total dedicação das irmãs (havia o entendimento de que as jovens seriam mais propensas aos prazeres mundanos, à noite, ao álcool, ao abandono da ordem). Só entram mulheres que estão ligadas a um terreiro de candomblé, que sejam filhas de um orixá relacionado à morte (Nanã, Ogum, Obaluaê), que estejam dispostas a pedir esmolas para a compra de alimentos e artigos para as celebrações, que não se importem em passar grande parte de agosto fora de casa, reunidas com as outras irmãs numa espécie de retiro.
“Queres lavar a tua alma com água santa? Queres provar o sal de Deus? Jogas fora da tua alma todos os teus pecados? Não pecarás nunca mais? Queres ser filho de Deus? Jogas fora da tua alma o Diabo?”
(iniciação católica à qual os negros africanos se submetiam quando trazidos ao Brasil)
É necessário ainda cozinhar para a verdadeira multidão que espera as comidas saídas da sede da irmandade nos dias de festa. As iniciantes passam três anos sendo testadas até poderem de fato entrar no grupo. Apenas aquelas consideradas obedientes têm sucesso. Todas, até as mais respeitadas, donas de altos postos, devem pedir permissão a Estelita sobre assuntos ligados à Boa Morte. O símbolo utilizado para definir a hierarquia é uma saia – os vestidos não são permitidos dentro da congregação. A escrivã é a dona da primeira saia; a segunda pertence à tesoureira; a provedora detém a terceira; enquanto a quarta é da procuradora-geral. A Juíza Perpétua, que só deixa o cargo quando alcança a sua boa morte, está acima das quatro saias. O sistema foi criado pelas negras do partido alto que fundaram a ordem, mulheres endinheiradas que conseguiram comprar a liberdade e, em agradecimento, fizeram votos a Santa Maria Mãe de Deus a favor da libertação dos negros. Apesar de o papel das mulheres escravas não ser ressaltado nos estudos sobre o período, elas, pioneiramente, criaram um grupo de força religiosa e também política. Elas também cuidavam dos funerais, existiam para que outros negros, como tanto havia acontecido, não morressem mais na escuridão.
Nossa Senhora, apesar de olhar por todos nós, já foi barrada na Matriz de Cachoeira: em 1989, um conflito envolvendo vaidade, luta pelo poder e preconceito fez com que a irmandade deixasse de celebrar a festa na igreja, rompendo um laço iniciado na metade do século 19, quando a ordem chegou ao município. Assim, Estelita, mesmo divina, perdeu seu lugar no altar, o canto ao lado dos padres, precisou carregar seu báculo até outro local, a Igreja Católica Apostólica Brasileira. Ela lembra até hoje do período, mas evita falar qualquer coisa para não reacender a briga. Até começa a dizer algo, mas é repreendida pelo filho Nelson, que circula pela casa enquanto ela dá entrevista. Foram anos difíceis, em que duas imagens vitais na história da congregação, Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora da Boa Morte (com Nossa Senhora da Assunção, completam a tríade que invoca uma única Maria), foram retidas pelo pároco da cidade. O episódio é conhecido como O Sequestro das Santas. Assim, as irmãs não puderam render suas homenagens, tampouco arrumar as imagens para a festa do ano seguinte, prática ancestral entre elas. A missa pela alma das Irmãs Falecidas, que abre a celebração na quinta; a missa de corpo presente, na sexta; e a missa da subida de Nossa Senhora aos céus, no domingo, deixaram de ter um espaço sagrado. As negras de saias, que gostariam de homenagear Aquela que as teria libertado, não passaram das escadas.
MENOS NOVE FILHOS
O pároco não contava, no entanto, com uma poderosa aliada da Nossa Senhora simbolizada no corpo de Estelita. A seu favor, estava a modernidade de um tempo no qual religião, fé e espetáculo se confundem: há quatro décadas, a festa da Boa Morte já havia deixado de ser uma celebração quase íntima, com no máximo 20 seguidores durante as procissões, para se transformar em cartão-postal institucional, evento integrante do calendário turístico baiano. A presença de turistas passou a ser incentivada, o dinheiro começou a circular, foi o tempo no qual muitos norte-americanos, principalmente negros, procuravam Cachoeira em agosto. Estelita, que não era juíza nem sagrada naquele tempo, recorda bem dos gringos comprando, a preços baixíssimos, os colares e pulseiras de ouro que adornavam as irmãs. “Eu vendi um, grande, fiquei com outro.” Quase todas as joias deixadas pelas antigas escravas foram levadas como suvenir. O dinheiro, em parte, foi usado para a manutenção da irmandade, que passou por períodos difíceis e quase chega ao fim no início dos 70 – apenas seis irmãs faziam parte da congregação. Com o apoio de medalhões baianos – o escritor Amado, o cantor Gil, o político Magalhães – elas receberam uma sede própria. Também veio a visibilidade, os jornais adorando publicar as negras repletas de colares dourados, as roupas que garantiam boas fotos. Eram imagens fortes, mais poderosas do que a do pároco, que, após 20 anos sem abrir as portas para as mulheres da Boa Morte, teve que abrir, no ano passado, passagem para Nossa Senhora, em Estelita, retornar ao altar.
Foi um alívio para a mulher que não perdeu apenas um filho, ao contrário da santa que a visita a cada sete anos. Dos doze nascidos, dez homens e duas moças, apenas três estão vivos. Também enterrou o marido que trabalhou, como ela, numa das fábricas de charutos que cercavam o Rio Paraguaçu, de onde se vê São Félix de um lado, Cachoeira do outro. “Deus já levou quase tudo.” Sentada à mesa da salinha que divide o salão do terreiro e sua cozinha, vai lembrando-se de alguns nomes. Flaviano. Melquíades. Elias. Joel. Dinalva. Cláudio. Renato. O pai dos meninos, Graciliano, que se foi há mais de 30 anos, “cortou o pé e deu a moléstia”. Cada vez que um dos meninos se ia, Estelita chamava pela Virgem que conhece tão bem. “Maria, salvadora dos mortais, orai, orai, orai por nós.” Mistura a fala com um canto, o nome dos filhos escapa à memória, mas a prece não. A filha de Obaluaê (ou Omulu), uma cruz de palha usada na Missa de Ramos dentro do jarro vermelho, sapatilha de algodão nos pés, queria ir à missa, mas o corpo não deixa mais, fala, canta e reza. “Dai-me morte salutar, ó Maria, Mãe de Deus.” Estelita vai morrer livre da escuridão.
___________________________________________________________________
Coisa de preto?
O começo: O surgimento da Irmandade da Boa Morte está relacionado ao aparecimento do primeiro terreiro de Candomblé de Salvador, a Casa Branca do Engenho Velho (ou Ilê Axé Iyá Nassô Oká), por volta de 1820. Três negras africanas são aceitas como fundadoras: Adetá (ou Iya Detá), Iya Kalá e Iya Nassô. Com a urbanização de Salvador, a irmandade se enfraquece, ressurgindo em Cachoeira na metade do século 19.
Espaços religiosos: O Centro de Estudos Afro-orientais (Ceao/UFBA) dá conta de aproximadamente 1.500 templos afro-brasileiros (roças, sítios, terreiros, casas de umbanda) no Brasil.
Praticantes - Segundo o recenseamento de 2000 (IBGE), apenas 0,3% da população brasileira adulta declara-se pertencente a uma das religiões afro-brasileiras, o que corresponde a pouco mais de 470 mil seguidores. Outras pesquisas, porém, indicam valores maiores, da ordem de pelo menos o dobro das cifras encontradas pelo censo (Pierucci e Prandi, 1996). Segundo o IBGE, apenas 16,7% dos umbandistas declararam ser de cor preta. Entre os praticantes do candomblé, foram apenas 22,8%
Proibição e proteção - Durante o Estado Novo, no governo Vargas (1937-1945), o exercício do Candomblé foi proibido no País. Os terreiros ficaram subjugados à Delegacia de Jogos, Entorpecentes e Lenocínio. A decisão ia contra a Constituição de 1824, que dava garantia à liberdade de culto desde que os templos não ostentassem símbolos ou identificações em sua fachada. Atualmente, a Lei federal nº. 6.292, de 15 de dezembro de 1975, protege os terreiros de candomblé no Brasil contra qualquer tipo de alteração de sua formação material ou imaterial. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) são os responsáveis pelo tombamento das casas. O preconceito, no entanto, se mantém. Um exemplo é a declaração do pastor fluminense Samuel Gonçalves, da Assembléia de Deus, que afirmou que uma das "três maldições" do Brasil é a religião africana (Folha de S.Paulo, 30/7/2002, p. A6). Em abril deste ano, o papa Bento XVI, durante encontro realizado com 15 bispos brasileiros, criticou o sincretismo no País.
____________________________________________________________________________
Fontes: Renato Silveira (O candomblé da Barroquinha: processo de constituição do primeiro terreiro baiano de keto/UFBA); Luiz Cláudio Dias Nascimento (Candomblé e Irmandade da Boa Morte); Afonso Maria Soares (Sincretismo afro-católico no Brasil: lições de um povo em exílio);Reginaldo Prandi(O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso); Daniella Dias (Os terreiros de candomblé na Região Metropolitana do Recife: localização geográfica e sua identificação nas fachadas, ontem e hoje); Wiltércia Silva de Souza (A “guerra santa” entre a Irmandade da Boa Morte e a Igreja Católica. Bahia – 1989/1990); Jucinete Maria Machado (Irmandade da Boa Morte - a comunicação do mistério).
Fonte:http://www2.uol.com.br/JC/sites/especial_joaquimnabuco/html/materia_04.html
Empreendedorismo sem riscos

Vou abrir minha igreja e já volto!!! -
O primeiro milagre do heliocentrismo
Eu, Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha, e Rafael Garcia, repórter do jornal, decidimos abrir uma igreja. Com o auxílio técnico do departamento Jurídico da Folha e do escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo Gasparian Advogados, fizemo-lo. Precisamos apenas de R$ 418,42 em taxas e emolumentos e de cinco dias úteis (não consecutivos). É tudo muito simples. Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para criar um culto religioso. Tampouco se exige número mínimo de fiéis.
Com o registro da Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio e seu CNPJ, pudemos abrir uma conta bancária na qual realizamos aplicações financeiras isentas de IR e IOF. Mas esses não são os únicos benefícios fiscais da empreitada. Nos termos do artigo 150 da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a todos os impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda ou os serviços relacionados com suas finalidades essenciais, as quais são definidas pelos próprios criadores. Ou seja, se levássemos a coisa adiante, poderíamos nos livrar de IPVA, IPTU, ISS, ITR e vários outros "Is" de bens colocados em nome da igreja.
Há também vantagens extratributárias. Os templos são livres para se organizarem como bem entenderem, o que inclui escolher seus sacerdotes. Uma vez ungidos, eles adquirem privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (já sagrei meus filhos Ian e David ministros religiosos) e direito a prisão especial. <>
FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u660688.shtml
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Quase brancos, quase negros

continuação caderno especial JC/Recife
Em 1869, o Preto Tomaz livrou-se da pena de morte ao ser defendido por Nabuco. Em 2010, um ex-detento de pele clara tenta se livrar do preconceito e da falta de emprego
Tomás é um rapaz bonito da Zona Sul do Recife. Cresceu naquilo que costumam chamar de bairro nobre, “o metro quadrado mais caro do Estado”. Fala um pouco de italiano, estudou a língua na adolescência. Gosta de ir à praia. Tem carro. Cresceu com a família em uma quitinete localizada no bairro nobre. Sempre conviveu com os rostos felizes da família branca vista na placa que anunciava o próximo maior apartamento de seu bairro. Eram, como ele, “de boa aparência”. Estudou em escola pública, passou uma época vendendo sanduíche na praia. Hoje, remove resto de construção, vende um ou outro bem para sustentar ele, a mulher e o filho de 10 meses. Aluga o carro que tem mais de 15 anos e há tempos precisa de uma série de reparos.
Ao lado da desqualificação e da discriminação social do trabalho braçal, visto com grande desprezo, contrapunha-se o não trabalho ou o lazer aristocrático, exercido com arrogância sobre as camadas subalternas. O modo de agenciamento, de organização e de controle do trabalho constituem, desde o período colonial, um dos mais importantes eixos de dominação na sociedade brasileira e podem ser computados como uma das formas centrais para a constituição da violência estrutural que submete grandes setores da população, impelindo-os para uma permanente situação de risco social.
“...E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo/ diante da chacina/111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos/ ou quase pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres/E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos...” (Gilberto Gil/Caetano Veloso)O garoto louro da beira-mar passou os últimos quatro anos em pavilhões dos presídios e centros de detenção da Região Metropolitana de Recife. Numa espécie de tour de pouquíssimo prestígio, conheceu as “quatro Alemanhas”: o Centro de Observação Criminológico e Triagem Professor Everardo Luna, o Cotel (1.887 detentos, capacidade para 311), o presídio Aníbal Bruno (3.465 presos, capacidade para 1.140) e as penitenciárias Barreto Campelo (1.383 detentos, capacidade para 1.448) e a Agroindustrial São João (1.857 presos, capacidade para 630). Portava 15 papelotes de maconha quando foi abordado por um policial militar numa manhã de quarta-feira.
No tocante à suspeita, a polícia deixou de suspeitar de indivíduos e passou a suspeitar de categorias sociais. Por exemplo, quanto a parar e revistar: é mais efetivo suspeitar de categorias consideradas mais propensas a cometer infrações (e.g. negros, irlandeses, homens jovens da classe operária) do que suspeitar de indivíduos. Joga-se o arrastão em águas de resultados mais prováveis e ricos, em vez de tentar a sorte de achar a ‘maçã no cesto’, isto é, de efetuar prisões procedendo na base de indivíduo por indivíduo (...). A velha evocação ‘prenda os suspeitos de sempre’ se transforma em ‘prenda as categorias de sempre’: suspeita individual passa a ser suspeita categórica.
Tomás, que queria se formar veterinário, foi autuado em flagrante e preso por tráfico. Era usuário desde a adolescência, comprava o produto com o dinheiro ganho na banca de frutas na qual trabalhava. Até hoje, enquanto cumpre pena em regime aberto – precisa se apresentar mensalmente na Chefia de Apoio a Egressos e Liberados (Cael) - nega a venda e conta que às vezes apenas dividia a droga com outros colegas. “Chamava o pessoal, comprava cerveja, ficava conversando, ouvindo música.” Mesmo se colocando como simples usuário, ele não se livraria de uma penalidade: a prática de dividir a maconha com os amigos, por exemplo, também se constitui em crime na legislação penal brasileira, onde a pessoa que oferece drogas, mesmo eventualmente e sem objetivo de lucro, pode ser detida (seis meses a um ano), além de pagar multa de R$ 700 a R$ 1.500 (Lei 11.343/06).
(...) A problematização do crime não apenas contribui para estender as fronteiras da criminalização, mas também para limitá-la. É o caso da existência de diferentes grupos de pressão em busca da introdução de uma série de descriminalizações. Sejam exemplarmente citados os movimentos tanto para legalizar determinadas drogas (a maconha, por exemplo) como para restringir o uso de outras (por exemplo, o tabaco). A problematização colocou, assim, a definição do crime como estando permanentemente sujeita ao debate público.
Uma vez preso, o rapaz que agora integra o exuberante número de 337 mil trabalhadores desempregados em Pernambuco (números do Dieese para março e abril de 2010) passou a sofrer um tipo de discriminação racial às avessas. Era um dos poucos brancos em meio a multidão de negros e pardos cuja liberdade foi suspensa institucionalmente. “Eu assim, galego, recebendo visita, alguma coisa devia ter.” A ideia altamente discriminatória da “boa aparência”, que historicamente o ajudaria a conquistar um emprego mais rapidamente do que um homem negro, o transformou numa espécie de “provedor” natural das celas onde viveu. No Aníbal Bruno, por exemplo, ele era o único de pele clara num espaço onde dormiam 35 presos. “Chegavam para mim e diziam: 'Tô precisando de dinheiro, arruma aí'. Se você não consegue, ganha um inimigo, corre risco. Eu não demonstrava medo, dizia que estava precisando também, que tinha mulher e filho para cuidar”. O manual de bons modos dentro do sistema carcerário começou a ser incorporado logo no início do tour pelas “Alemanhas”, iniciado no Cotel. Das 58 celas do centro de triagem, foi levado para aquela conhecida como a dos “tarados, pedófilos, doentes e noiados”. O último termo é utilizado para designar os viciados em crack. “Eu sou um vencedor, não entrei no vício da pedra.”
Com efeito, a universalidade do crime revela, ao mesmo tempo e pelo negativo, a seletividade da Justiça criminal. Se o crime é endêmico e se o mesmo se encontra em “todos os lugares”, em todas as classes sociais, aqueles que são punidos não são expressão dessa universalidade. Para Young, “(...) o sistema criminal seleciona ‘amostragens’ particulares cuja base não é aleatória, mas o próprio estereótipo”. Esta evidência contribuiu para transformar a criminologia em disciplina suspeita.
O raro “Galego” preso em Pernambuco aprendeu a negociar a sobrevivência em meio a uma enormidade de presos cujos nomes eram quase sempre genéricos (e que também tentavam se manter vivos dentro dos pavilhões): “Negão”, “Nego Fulano”, “Veado”, “Cego”, “Garanhuns”. “O defeito físico e o lugar onde nasceram servem de nome para identificar o outro lá dentro”, diz Luíza, mulher de Tomás. Curiosamente, optar pelo “defeito” no corpo e pela cidade ou Estado de onde os presos vieram serve também para localizar melhor os colegas de presídio, já que “Negão” podia ser quase qualquer um dos encarcerados. A quantidade de pretos só não é maior porque vários deles são calados na rua: dos crimes cometidos no Recife, 68% são contra jovens entre 15 a 29 anos. Desses, 92% das vítimas são jovens negros. Envolvidos ou não com drogas, estudantes, desempregados ou trabalhadores, com um histórico que pode levá-los aos pavilhões ou, ao contrário, à universidade, eles são dizimados pelo filtro da bala. Também são assassinados dentro das unidades prisionais, a exemplo de um que foi morto na frente de Luíza, domingo, dia de visita. Era um “coelho”, o cara que pega o pacote de maconha jogado dentro dos presídios para levá-lo até o preso que comercializa a erva. “O tiro entrou e saiu pela barriga.”
Como se pode observar, o Brasil tem sido um grande mestre na elaboração e execução de práticas de exclusão de sua população “plebeia”. Apesar de todos os movimentos sociais e de toda a modernização política, econômica e social que marcaram o século 19, a sociedade brasileira encontrou novos mecanismos para marginalizar grande parte de sua população, lançando os ex-escravos à sua própria sorte.
Quase livre, o Branco Tomás diz que é hora de esquecer o que sofreu, que aprendeu muito na prisão, que agora entende uma outra realidade. “É preciso ter certos medos.” Quase foi morto dentro do Aníbal, em grande parte pela antipatia de outro preso, que via a cor do rapaz como uma afronta. Era dia de rebelião, ele aproveitou a confusão para se esconder dentro da igreja no interior do presídio. Nesse caso, foi Jesus, e não Nabuco, que o livrou da morte, como aconteceria com o Tomaz preso na Casa de Detenção do Recife e julgado no dia 24 de junho de 1869 no Tribunal do Júri. Condenado à pena de morte, havia assassinado dois, o negro conseguiu manter-se vivo após o então estudante de direito defendê-lo. “Não cometeu um crime: removeu um obstáculo”, argumentou Nabuco, ressaltando que a supressão da liberdade e os açoites justificavam as atitudes do Preto Tomaz. Com 25 anos, ele ficou preso até a morte, sem nunca mais experimentar a liberdade relativa que conhecera. Já o rapaz da Zona Sul, por bom comportamento, talvez, conscientemente ou não, pela cor da pele, voltou a ir à praia, passeia com o filho que hoje cresce na mesma quitinete onde ele cresceu. Teme que seu rosto no jornal impeça-o de conseguir sua carteira assinada. Luíza fica nervosa e diz que as amigas do trabalho não podem saber. Sabe que o preconceito é a grande barreira para que seu marido hoje consiga um emprego. Tomás cometeu um crime e foi perdoado legalmente por ele. Mas agora precisa remover um enorme obstáculo.
___________________________________________________________________
O famoso caso da defesa do “Preto Tomaz”, como relata Joaquim Nabuco em A escravidão, trouxe grande visibilidade para o estudante da Faculdade de Direito de Recife. Tomás vivia em Olinda e não conheceu o cativeiro, trabalhando como fogueteiro para uma senhora branca. Certo dia, foi preso, amarrado e açoitado em praça pública. Acreditando que o subdelegado da cidade, o farmacêutico Braz Pimentel, fora o responsável por mandar açoitá-lo, assassinou-o. Preso, ele foi julgado e condenado à morte. Fugiu da cadeia e foi preso novamente, agora na Casa de Detenção, onde, durante nova fuga, matou o guarda Afonso Honorato Bastos. Nabuco conseguiu mudar a pena de Tomaz para a prisão perpétua. O caso é tema do livro Joaquim Nabuco e o Escravo Tomaz, que Humberto França, da Fundaj, lança no segundo semestre.
Presos do Brasil: No País, de acordo com a Diretoria de Políticas Penitenciárias (Ministério da Justiça), 37% dos presos se declaram brancos, enquanto 55% se declaram negros e pardos (38% pardos, 17% negros). 1% se declara amarelo, enquanto os indígenas não pontuaram (511). Outras raças: 4%; e não informado: 3%. Os dados são relativos ao ano de 2009. O Brasil tem 473.626 presos.
Medo da polícia: De acordo com o Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), do Unicef, a probabilidade de um adolescente ser assassinado é quase 12 vezes maior quando este é do sexo masculino. Se ele é negro, o risco é três vezes maior em relação aos brancos. Segundo pesquisa do sociólogo Túlio Kahn (que analisou diversas pesquisas de opinião realizadas entre 1995 e 1997, pelo Instituto Datafolha), os negros eram o único grupo que tinha mais medo dos policiais do que dos bandidos .
___________________________________________________________________
SERVIÇO
Os trechos destacados foram extraídos do artigo Criminologia e etnicidade: culpa categórica e seletividade de negros no sistema judiciário brasileiro, de Arim Soares do Bem, doutor em sociologia pela Universidade Livre de Berlim e professor do Instituto Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
O número de presos nas unidades penitenciárias citadas corresponde até a data de 22/5/2010
Fonte:http://www2.uol.com.br/JC/sites/especial_joaquimnabuco/html/html2/materia_02.html

Joaquim Barbosa, ministro do STF, conheceu a mesma Europa que fascinou Nabuco. Mas foi estudando, e não vendendo um engenho, que ele chegou até lá
Nabuco e Barbosa, Joaquins, um dia se emocionaram com a beleza intestina de Paris. Amaram o Sena e os Jardins de Luxemburgo. Passaram, o coração sensível, pela Pont des Arts, a Pont Neuf, a Basilique du Sacré-Coeur (no original, como no impecável francês dos Quincas). Homens diferentes, momentos distintos, vontades semelhantes: a todos, a possibilidade de experimentar, como eles, o Belo, aquilo o que se entende como a vida boa. Outro aspecto também os aproxima: a figura do pai. Nabuco carregava, vestido nas últimas modas, o peso do nome do seu, José Thomaz, figura de alta estima no Brasil da corte. Barbosa carregava, vestido com o que podia, o peso da ausência do seu, que, ao se separar da mulher, passou para o filho o cetro de provedor familiar.
Cada um, o menino do senador e o menino do pedreiro, chegou pela primeira vez até o alto de Montmartre ao seu modo. Ambos eram jovens. O primeiro teve o prazer de estar a passeio. Assim, pôde ver mais atentamente, sem os constrangimentos da pressa, uma cidade que há pouco findara suas cortes para inaugurar um novo momento, no qual a seda e a renda chantilly passavam mais próximo aos olhos da plebe. Era perfeito para o rapaz que usava uma polêmica (porque inovadora) pulseira de ouro e adorava exibir seus naturalmente construídos dotes aristocráticos. O segundo subiu ao monte, de onde se tem uma vista privilegiada da capital francesa, após um longo trajeto iniciado aos 16 anos, quando saiu de Paracatu, no interior de Minas Gerais, para Brasília. Era, nunca negou, um privilegiado. Sempre houve comida no prato e vontade suficientes para que ele continuasse, naquela quase cidade, seu trajeto até Montmartre. Ao contrário de Paris, a capital federal, inaugurada há pouco mais de dez anos, era lugar de passantes sujos de cimento, de comida na marmita, um novo mundo onde quase tudo era plebe. Perfeita para o rapaz de roupas simples que gostava de piano: seus dotes intelectuais se expandiriam ao lado da urbe cuja aristocracia também estava em formação.
O Joaquim de pele alva conseguiu sua passagem para a Europa após um árduo trabalho de sedução, a venda de um engenho falido e a recusa de um emprego: convidado a trabalhar como auxiliar em exames de retórica, Nabuco sabia que seu porte, a inteligência, a fala, a roupa e o dinheiro paterno tinham poder suficiente para levá-lo aonde quisesse, sem a necessidade de amassar os ternos impecáveis. Essa irresistível soma não teve desempenho poderoso apenas em território brasileiro. Uma vez em Paris, o menino do senador provocou orgulho nos salões cariocas desde o primeiro momento em que proferiu o seu primeiro “bonsoir” para nomes como a escritora George Sand (pseudônimo da também baronesa Amantine Aurore Lucile Dupin) e o respeitado escritor Ernest Renan, que o agraciou com as seguintes palavras: “C’est moi qui serai enchanté de causer avec vous. Tous les jours vers 10 heures, vous êtes sûr de me trouver. E. Renan. Rue Vanneau, 29” (algo como “Sou eu que estou encantado em encontrar você. Todos os dias por volta das 10h você pode me encontrar”). Nabuco, 24 anos, ficou maravilhado. Atingia, ali, um dos propósitos que acendiam a sua alma: aproximar-se de estrelas intelectuais e políticas. “Em 1873 (...), a minha ambição de conhecer homens célebres de toda ordem era sem limites; eu tê-los-ia ido procurar ao fim do mundo”, escreveria em Minha formação, onde também reproduziu a mensagem de Renan. A crisálida virava borboleta, deixando para trás os momentos de melancolia (o mal do século, sentimento e moda espraiados por Byron, também atingiu o coração de Quincas). Estes deram lugar a um deslumbramento acima de qualquer discussão política, esta “amortecida, dominada logo, pela sensação de arte”.
O Joaquim de pele escura conseguiu sua passagem para a Europa após um árduo período de trabalho físico no qual realizou, por exemplo, faxina nos banheiros do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Também foi contínuo e acumulou tarefas: as 12 horas de trabalho por dia resultavam em cochilos durante as aulas. Melhorou quando se tornou operador de máquina ofsete em uma gráfica. Não podia recusar emprego: era o salário que garantia a promoção de sua inteligência e da sua fala, além da roupa e da comida. Também sabia dizer bonsoir, se interessava pela leitura, Kant, Hegel, o alemão de Maria Stuart e Wallenstein. A performance intelectual garantida pelo suor na testa possibilitou a sua metamorfose pessoal: na casa dos 20, o menino do pedreiro provocava orgulho ao cursar direito na Universidade de Brasília, de onde saiu bacharel em 1979. Neste momento, já havia conseguindo o emprego de oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores do Brasil na Finlândia, onde ficou entre 1976 e 1979. Aproveitou a relativa aproximação entre fronteiras na Europa e viajou pela região, passando pela Inglaterra que também encantou um dia o filho do senador. A sua crisálida ficara no passado, deixando para trás os momentos de cansaço provocado pela simultaneidade de estudo e de trabalho, as noites de faxina, os cochilos na sala de aula. Estes deram lugar ao interesse pelo direito público, linha do mestrado e do doutorado que cursaria na Panthéon-Assas, a Universidade de Paris II.
O amor pela arte, a Europa, as letras e a vontade de dominar outras línguas unem o Joaquim intelectual e dândi do século 18 e o Joaquim intelectual e trabalhador do século 21. Homens diferentes, momentos distintos, vontades semelhantes, eles também iriam se voltar para uma mesma questão: a cor da pele. Para o nascido branco, que na infância havia recebido de presente um menino preto, Vicente, era vergonhoso ver sua terra continuar com a política escravocata enquanto os países que tanto admirava repudiavam a prática agora relacionada a uma antiga economia, e não à moderna, baseada na revolução das máquinas. Seu espírito, que passara dez anos longe da política, “atraído pelas viagens, pelo caráter dos diferentes países, pelos livros novos, pelo teatro, pela sociedade”, estava cheio de revolta e voltara-se para o mundo exterior não pelo o que ele tinha de divertido e belo, e sim pelo que mostrava de indigno e feio. Elegeu-se deputado por Pernambuco em 1878 e olhou com mais atenção para os negros escravos que serviam nos salões. É certo que desde 1868 dizia-se incomodado com a escravidão, mas o belo, aquilo o que se entende como a vida boa, havia despertado o dândi. Feito homem público e político, publicaria, cinco anos depois, O abolicionismo. De certa maneira, era seu presente tardio para Vicente.
Para o nascido negro, os diferentes países, os livros novos, o teatro e a sociedade, pelos quais sempre se sentiu atraído, haviam se tornado uma realidade palpável. Seguia ouvindo música clássica, entendendo melhor o emprego do “even”, do “mientras”, da “deutsche sprache”. Mas ao lado do lazer aristocrático, da fruição do divertido e belo, continuou a observar o que era indigno e feio. Conhecia os últimos termos de perto e, dentro da prestigiosa université parisiense, estava também o garoto que ficou sem aulas durante um ano, período em que sua escola em Paracatu, mesmo pública, decidiu cobrar mensalidades. Escreveu sobre a Justiça brasileira – e sobre o meio do qual faria parte mais tarde - em La Cour suprême dans le système politique brésilien (editora LGDJ/Montchrestein, 1994, 320 páginas, 40,55 euros). Em 2001, olhou com mais atenção para as distinções causadas pela cor da pele e publicou
ÍNTIMA REVOLUÇÃO
“As perspectivas de integração, oferecidas pela ordem social e competitiva, precisam ser conquistadas palmo a palmo, numa luta desigual para o 'homem de cor.'”
Florestan Fernandes
O Joaquim de Minas leu com muito interesse o Joaquim de Pernambuco. Concordou, sem dúvida, com vários dos pontos de vista do abolicionista da pulseira de ouro, como o que se segue: “Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de 300 anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância”. O menino do pedreiro, o terceiro negro a ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, está teórica e empiricamente convencido da frase escrita há quase 150 anos. Mas, do alto do prestígio conferido ao lugar ocupado no gabinete c-429, o último do corredor do quarto andar do prédio (anexo 2) do Supremo, ele segue a opção de não levantar nenhuma bandeira, como fez um dia o menino do senador. Não faz da cor uma atração a mais (“não acordo de manhã e olho para a cor da minha pele”), não permite que o instrumentalizem, como já declarou. Diferentemente de Quincas (“Oh! o que não recebi nesses anos de luta pelos escravos! Como os sacrifícios que por vezes inspirei eram maiores que os meus! Eu tinha a fama, a palavra, a carreira política...”), prefere o silêncio e evita entrevistas. É uma maneira de minimizar o peso da raridade da sua pele naquele ambiente, raridade esta que muitas vezes reduz sua fala, que é ampla, apenas ao problema da discriminação. “A questão racial não é uma obsessão para mim.” Para superarmos o despotismo, a superstição e a ignorância, crê, será necessária uma mudança antes de tudo pessoal, e não política. “A primeira revolução que o Brasil e os brasileiros teriam que fazer seria uma revolução íntima, uma mudança radical de visão, de ordem moral, de aceitar o outro tal como ele é, de respeito pela igual dignidade de todos os seres humanos.” Joaquim Barbosa fala um excelente português.
___________________________________________________________________
NO MUNDO DOS BRANCOS
- Escolaridade e cor: Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2008 os brancos tinham, em média, quase dois anos a mais de escolaridade que pretos e pardos. Em relação à média de anos de estudo da população de 15 anos e mais, os brancos apresentavam vantagem de quase dois anos (8,3 anos de estudos), em relação a pretos e pardos (6,7 e 6,5 anos)
- Ensino superior: dois terços dos jovens brancos e menos de um terço dos pretos e pardos cursavam o nível superior Em 1998, um terço dos brancos jovens de 18 a 24 anos de idade estava frequentando o ensino superior, contra 7,1% dos pretos e pardos. Em 2008, a presença de jovens brancos no ensino superior era de 60,3%, enquanto entre pretos e pardos o percentual era de 28,7%.14,7% dos brancos e somente 4,7% dos pretos e pardos adultos tinham superior completo em 2008. Entre brancos com mais de 25 anos, 14,3% haviam concluído o curso superior. Entre os negros e pardos da mesma idade, eram apenas 4,7% (2008). No Nordeste, apenas 3,8% desta população tinha concluído o ensino superior em 2008.
- Renda e cor: em relação à renda (o salário dos ministros do STF é atualmente R$ 26.723,13, o mais alto do poder público), entre o 1% com os maiores rendimentos, apenas 15% eram pretos ou pardos. Entre 1998 e 2008, houve um crescimento de 6,8 pontos percentuais na participação de pretos e pardos no estrato superior de renda (IBGE). Segundo o instituto, a situação dos brancos ainda é bem mais interessante: entre os 10% com os menores rendimentos, 25,4% se declararam brancos, enquanto 73,7% eram pretos e pardos. Já entre o 1% mais rico, 82,7% eram pessoas brancas e apenas 15% eram de cor preta e parda. Em 1998, a proporção dos que se declararam pretos e pardos no 1% mais rico era muito menor: 8,2%.
Fonte: IBGE






