quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A vida num piscar de olhos


Anthony Cerniello desenvolveu um projeto inusitado: demonstrar em 5 minutos o envelhecimento de uma pessoa. Segundo Cerniello,
The idea was that something is happening but you can’t see it but you can feel it, like aging itself.
E, é exatamente esta a impressão que o vídeo nos passa. Em time-lapse, o Danielle foi produzido por meio da foto dela e de seus familiares – aqueles que tinham a mesma estrutura óssea da menina.
Utilizando estas imagens, animação, softwares de animação em 3D e, provavelmente, muitas horas e muitas horas de trabalho: pronto, a mágica aconteceu.
Fonte: http://www.updateordie.com/

quarta-feira, 11 de setembro de 2013




Ainda não vi o filme Jobs mas tenho lido algumas resenhas e comentários na internet. Em geral, as resenhas e críticas padecem de um equívoco insuperável, elas sempre falam das suas  próprias expectativas. 

Gosto de filmes mas quando os vejo não faço julgamentos  por critérios técnicos e/ou estéticos. Faltam-me conhecimentos para tanto. Um filme, como de resto muitas coisas na vida, entram em mim pelos sentidos. Tudo na base do feeling.  Gosto ou não gosto. A minha singela pergunta é sempre a mesma: fez alguma diferença ter visto, lido, conhecido alguém ou alguma  coisa?  Se fez, com certeza, me deixa algo. Se não fez, tchau e bença. Jamais quero que as coisas ou pessoas sejam como eu gosto. Apenas me reservo o direito de gostar ou não gostar. Simples assim.

O problema da crítica, acredito eu, é fazer da auto referencia o termômetro do mundo. E quando mistura isso com sentimentos menores fica tudo muito mais negro. É difícil apreender o sentido das coisas quando as aprisionamos aos desígnios do nosso EU soberano.  

Às vezes,  penso que a nossa necessidade de explicar nasce do desejo de submeter o mundo aos nossos critérios. O jeito de nos aproximarmos das coisas parece passar por um longo corredor de explicações. Isso, muitas vezes,  só faz perder tempo e criar barreiras. 

Quanto mais nos centramos em nós mesmos, vamos perdendo a capacidade de nos deixar surpreender. Acredito que essas estruturas rígidas que alimentamos são falsas ilusões promovidas pelas inseguranças tão escondidas dentro de nós  que sequer sabemos  onde estão guardadas. Ou sabemos e temos medo de enfrentá-las?
Mas voltemos aos comentários do filme. Entre todos, o mais   interessante não tem absolutamente nada a ver com a produção cinematográfica mas a partir do filme propõe reflexões instigantes:

“Como pode um génio interessar-se seja pelo que for que esteja fora do seu universo mental se tem uma feira popular a funcionar 24h por dia na cabeça? Como escapará a sentimentos de superioridade quando constata, desde cedo na vida, que as suas capacidades estão muito acima da média? E nesse caso como poderá estabelecer com os outros relações que não sejam meramente instrumentais? E não manifestar desprezo pelas convenções sociais através de múltiplas excentricidades? E não acumular agressividade em bolsas que explodem se sofre de um atroz sentimento de solidão? Em suma, é possível a um génio não ser egocêntrico e socialmente disfuncional? E se não é, podemos enfim dizer dos génios que são todos iguais?

Foi nesta maçã que fiquei a roer, ungida de uma compreensão que antes nunca tinha sentido, de forma tão intensa, pelos génios deste mundo e do outro.” (Maria Tereza Ribeiro, Jobs explica. Disponível http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/)


É o que vale a pena.

ML

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Voltando.....

 
Após tantos dias sem atualizar, estamos voltando. Problemas técnicos, dificuldades em administrar o tempo, excesso de compromissos vez por outra me deixam em débito com vocês. Sempre que posso, voltar ao nosso convívio é prioridade pra mim.
Peço desculpas pela ausência involuntária.
Para compensar, busquei um dos textos escritos com muita sensibilidade entre tantos que tenho lido nas últimas semanas. Espero que gostem.
ML

Velhinhos e crianças

          

vodest
        
Aprender, acumular e repassar para os mais novos.
Essa foi a receita básica que fez dos humanos o que são.
Essa nossa habilidade desenvolvida lentamente de conseguir guardar as coisas que íamos descobrindo e ir deixando tudo de herança para os descendentes, para que eles não precisassem aprender tudo do zero de novo. A cada nova geração, a largada era um pouquinho a frente.
Mas esse plano não funcionou durante muito tempo por um simples motivo: morria-se cedo demais.
Mal dava tempo de aprender alguma coisa, quanto mais passar para os filhos. O Piteco descobria como matar o mamute, mas morria muito antes do seu filho crescer o suficiente para entender.
Longevidade foi o primeiro obstáculo a ser ultrapassado para que a informação pudesse ser transmitida (oralmente pela maior parte da história) de uma geração para a outra.
Fazendo uma linha do tempo desde que estamos andando por esse planeta até hoje, dá para perceber dois períodos importantes em relação a longevidade. O segundo foi nos últimos 150 anos, em que a expectativa de vida DOBROU na maioria dos países. E a primeira foi há 30 mil anos, quando inventamos os velhinhos. Sim, não existiam velhinhos antes disso. O normal era morrer com uns 30 anos. E isso a gente sabe porque os antropólogos são craques em dentes enterrados por aí e conseguem avaliar a idade de seus donos na época que morreram baseado em desgaste e camadas de dentina, como fazemos com as camadas em troncos de árvores. É fato: não se passava dos 30. Não existiam cabelos brancos.
E sabe por quanto tempo isso? 3 MILHÕES de anos. Nascia, pumba, morria. Nascia, pumba, morria. Por milhões e milhões de anos foi assim. Ia contar do mamute, pumba, morria.
Até que veio essa fase, 130 mil anos atrás, em que os velhinhos foram inventados. Foi de uma hora para outra. E a explicação é que não foi uma causa biológica, mas sim cultural. Provavelmente o ser humano aprendeu a se enfiar em cavernas, a plantar e a guardar alimentos. E assim, começaram a viver por muito mais tempo.
A vantagem foi global e nnao apenas para os indivíduos que viviam mais tempo. Os “velhinhos” foram nossa primeira internet, o primeiro depósito de informações com vida útil suficiente para ser retransmitida.
vo3
Nosso primeiro hiperlink
Sabiam como enfrentar desastres naturais, como plantar, quem era parente de quem. Foram os primeiros professores. E não era só isso. 30 anos é mais ou menos a idade mínima para conseguir ser avô e portanto as crianças começaram a contar com mais gente cuidando delas.
Depois de 3 milhões de anos como animais, os velhinhos foram inventados e inventaram a civilização. E possibilitaram essa tela que está na sua frente, cheia de letrinhas que te contam o que muitos precisaram viver para você poder aprender agora, em horas.
O segundo periodo, o dos últimos 150 anos, são baseados no lado oposto da balança: as crianças. Não podemos dizer que foram inventadas nessa época, mas quase dá para dizer que foram viabilizadas. Antes, a probabilidade de sobreviviencia dos recém nascidos
era algo entre 1/4 e 1/2 dos bebês. Praticamente de cada 2, só um crescia. Até o século 20, a maioria das mortes da população acontecia entre crianças e não entre os velhinhos.
A situação era tão brava que em muitos países não se dava nome aos recém-nascidos antes deles completarem 100 dias, para que os pais não se apegassem muito. Basta um passeio por algum cemitério de algum país mais antigo para ver que são cheios de leapides pequenas, de crianças. geralmente, enterradas ao lado da mãe que também morria com frequência na hora do parto.
o historiador francês Philippe Ariès conta que é difícil hoje imaginar como era a relação entre os adultos e as crianças. Não se investia emocionalmente em crianças porque metade iria morrer. Histórias inimagináveis para os nossos padrões como infanticídios, trabalho infantil quase escravo e abusos de toda forma eram comuns. E é por isso que se diz que a “INFÂNCIA”, como a conhecemos, foi inventada há apenas 150 anos.
vo2
Hoje, a taxa de mortalidade infantil nos Estados Unidos é de 0.6%. Muito diferente dos 50% de bem pouco tempo atrás. E com as crianças morrendo menos, demos uma nova turbinada na sociedade, inclusive no andar dos velhinhos.
Enfim, concluíndo: em primeiro lugar, agradeça por estar vivo hoje. Entre bilhões de vidas, a sua é privilegiadíssima.
E em segundo lugar, repense a maneira como você enxerga (e trata) os mais velhos. Não apenas por respeito e educação, mas pelo valor inestimável que possuem. Sabedoria de quem viveu mais, experiências acumuladas e uma internet de informação e inspiração à disposissnao para ser repassada e reciclada. Bendito o povo que cuida de suas crianças e seus velhinhos. Nós, a turma do meio, temos mais é que ralar e honrar essas pontas.
 
[imgs linerpics, Elzbieta Sekowska/ Shutterstock]
[via]
Founder at Update or Die
Profissional de criação e fundador do Update or Die.
Fonte:http://www.updateordie.com/2013/09/09/velhinhos-e-criancas/#more-96532  

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"Olha, eu vou ter que viajar. Meu avião está saindo" quá, quá, quá...

Blog entrevista o líder do grupo que vaiou médicos cubanos


O presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará (SimeC) é o médico e ex-vereador José Maria Pontes. Ele liderou o protesto contra médicos cubanos ocorrido na terça-feira (27) em Fortaleza. Cobrado pela violência do ato, vem dizendo que “Ninguém vaiou médico cubano, mas quem estava com eles”. E que a vaia só ocorreu porque “Não dava para não misturar se estava todo mundo junto”.
O sindicalista ainda garantiu à imprensa que “A vaia, na verdade, foi para aquelas pessoas que tiveram a ideia absurda de trazer esses médicos para cá, inclusive com trabalho escravo sem nenhum compromisso a não ser com o compromisso ideológico do Partido dos Trabalhadores”.
A declaração de Pontes se deu no âmbito de críticas aos médicos, militantes políticos e sindicalistas cearenses que vaiaram os médicos cubanos, críticas que foram feitas por entidades médicas e sindicais do próprio Ceará, pela imprensa e pelas redes sociais.
Diante de fato como esse, o Blog decidiu entrevistar o presidente do SimeC. Este blogueiro encontrou Pontes em seu celular, em Brasília, preparando-se para voltar ao Ceará. Confira, abaixo, a conversa (gravada) com a pessoa que liderou a manifestação que xingou médicos cubanos negros de “escravos” e “incompetentes”.
*
Blog da Cidadania – Senhor José Maria Pontes, o senhor é presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, certo?
José Maria Pontes – É.
Blog da Cidadania – Sr. José Maria Pontes, sobre esse caso do ato do seu sindicato contra os médicos cubanos, o senhor deu uma declaração de que as vaias e tudo mais que foi feito ali não teria sido contra eles.
José Maria Pontes – Não, na realidade, pra que as pessoas entendam, nunca ninguém teve intenção de atingir os médicos, porque naquela manifestação os médicos cubanos que chegaram ao Ceará foram recepcionados pelo Ministério da Saúde. O Odorico, que é representante do Ministério, é cearense.
O ato foi feito contra essa postura [do Ministério da Saúde] de trazer os médicos cubanos sem o Revalida. A nossa manifestação tinha uns 70, 80 médicos. Inclusive barraram a nossa entrada na Escola de Saúde Pública e nós ficamos do lado de fora com carro de som, fazendo manifestação e quando eles [os médicos cubanos] saíram, realmente levaram uma bruta vaia.
Quer dizer, não os médicos, né… Foi direcionado ao Odorico, porque ele saiu cercado por médicos [cubanos], como se estivesse protegido. E tudo foi direcionado a ele. Inclusive, né, a…
Blog da Cidadania – Quando fala em Odorico, o senhor se refere a quem?
José Maria Pontes – Odorico Monteiro é o representante do Ministério da Saúde. É cearense e é uma das pessoas responsáveis por essa situação…
Blog da Cidadania – Senhor José, desculpe-me por interrompê-lo, mas há uma foto que circulou muito na internet e na imprensa em que um desses médicos cubanos está sendo vaiado por jovens médicas do seu sindicato. Elas estão gritando com as mãos na boca perto do rosto dele.
Havia, também, gritos de que os médicos seriam escravos. Foram ouvidos reiteradamente durante o protesto. Inclusive…
José Maria Pontes – Vamos, vamos, vamos…
Blog da Cidadania – Um minutinho, senhor José, deixe-me só terminar essa pergunta, porque as pessoas estão querendo entender o que de fato aconteceu.
Então veja, os manifestantes gritaram que os médicos cubanos seriam “escravos”. As vaias foram gravadas em vídeo e o que se vê nesse vídeo é que foram dirigidas diretamente aos médicos.
O que o senhor pode me dizer sobre essa contradição? O senhor afirma que as vaias não foram dirigidas aos médicos cubanos, mas o vídeo mostra outra coisa.
E ainda há um outro componente um pouco doloroso nisso tudo, senhor José Maria, porque havia muitos médicos cubanos negros, ali, e chamá-los de “escravos” é uma associação que muitas pessoas viram como racismo…
José Maria Pontes – Então deixa eu contar.
Blog da Cidadania – Pode falar, por favor.
José Maria Pontes – Quando nós estivemos lá, fazendo manifestação, eles [os médicos cubanos e o representante do Ministério da Saúde] fecharam a porta e foram fazer a manifestação deles lá dentro…
Blog da Cidadania – Perdão, mas não estavam fazendo “manifestação lá dentro”, estavam recebendo treinamento…
José Maria Pontes – Nós ficamos lá fora fazendo manifestação contra eles. Uma das coisas que foi mais debatida, lá, foi a história do trabalho escravo, né, no sentido de eles não terem direito a férias, 13º salário, a hora-extra e não ter direito a casar nem a namorar no Brasil
Blog da Cidadania – Epa! Proibição de se relacionar com brasileiros?
José Maria Pontes – É, porque…
Blog da Cidadania – Perdão de novo: de onde o senhor tirou essa informação?
José Maria Pontes – Essa informação todo mundo sabe, circula, porque é o seguinte, só pra você entender: se o médico tiver um filho com brasileiro ele adquire, naturalmente, a nacionalidade [brasileira] e o que se comenta – que parece que é verdade – é que eles querem que os cubanos voltem pra lá, porque se eles [os cubanos] pedirem asilo político no Brasil eles [o governo] não vão dar…
Blog da Cidadania – Ok, senhor José Maria, mas espere aí: como é que se vai impedir alguém de ter relacionamentos amorosos, por aqui? Suponhamos que um médico vê uma brasileira bonita na rua, começa a namorá-la, ela engravida… Enfim, como é que o governo brasileiro ou o cubano vão impedir que isso aconteça?
José Maria Pontes – Pois é, é isso que estou falando…
Blog da Cidadania – Então não pode existir essa proibição
José Maria Pontes – Eles não querem que o médico cubano tenha filho com a mulher brasileira porque aí adquire nacionalidade e os médicos vão acabar ficando aqui…
Blog da Cidadania – Mas, repito, de onde o senhor obteve essa informação, senhor José Maria?
José Maria Pontes – Ah, essa informação circula há muito tempo, né…
Blog da Cidadania – Mas, aí, não significa que seja verdadeira
José Maria Pontes – Eeehh… Inclusive na Venezuela, tá! Isso aí [a suposição] aconteceu [sic] porque os médicos venezuelanos, com essa história de não poder sair a partir das 18 horas – e se tiver que sair tem que prestar contas pra uma pessoa de Cuba –, faz a gente pensar assim…
Mas eu vou lhe responder a outra pergunta, né. O médico, o que ficou colocado foi essa questão do trabalho escravo. Até, ontem, a Fenam [Federação Nacional dos Médicos] entrou com uma representação, né, no Ministério Público do Trabalho sobre a questão trabalhista.
Eles [os médicos cubanos] vão ser utilizados para trabalho escravo. E o que aconteceu, então, não foi no sentido pejorativo, de chamá-los de negros. O que ficou colocado é que a gente estava dizendo para eles que eles iam exercer trabalho escravo…
Blog da Cidadania – Mas senhor José Maria… Primeiro que chamá-los de negros, tudo bem. Afinal, eles são negros mesmo e ser negro não é “pejorativo”.
José Maria Pontes – O que foi chamado [sic] é que eles querem associar a um sentido pejorativo, mas foi no sentido de ter o trabalho dele não do jeito que vem, porque do jeito que eles estão postulando… Porque, veja bem, os médicos que vêm da Argentina vão receber, diretamente, dez mil reais, que não é salário, é bolsa. Então eles [os médicos cubanos] não têm nenhum direito trabalhista.
Blog da Cidadania – Desculpe interrompê-lo, mas eu não consigo entender. Se eu chamo alguém de escravo, estou xingando. Porque se chamassem o Odorico [representante do MS] de feitor de escravos, até se poderia entender que o insulto foi para ele, mas quando chamam os médicos cubanos de escravos, isso é um insulto. Além disso, o escravo não tem culpa de ser escravo. Não pode ser vaiado por sua escravidão…
José Maria Pontes – Não, não, não foi nesse sentido. Foi no sentido de chamar a atenção…
Blog da Cidadania – Deles?!
José Maria Pontes – Não, não foi nesse sentido…
Blog da Cidadania – Vou reformular a pergunta: o senhor não se ofenderia se chegasse em um determinado local e uma pequena multidão o chamasse de escravo?
José Maria Pontes – Eu quero te garantir que o que foi colocado foi não aceitar que essas pessoas sejam usadas em trabalho escravo.
A nossa orientação, do sindicato, foi nesse sentido, que os manifestantes chamassem a atenção para a questão do trabalho escravo.
Foi, então, uma palavra de ordem, não no sentido pejorativo. Foi pra chamar a atenção deles de que iam exercer o trabalho escravo.
Blog da Cidadania – Isso o senhor já me explicou. Mas fico com uma dúvida quando o senhor fala em trabalho escravo. Pelo seguinte: o acordo feito entre o governo brasileiro e o governo cubano é semelhante aos acordos que a Organização Pan-americana de Saúde – a entidade de saúde mais antiga do mundo – fez com 58 países.
Não fica uma coisa meio estranha que 58 nações e mais o governo brasileiro estejam promovendo o trabalho escravo? Além do que, trabalho escravo, pelo que se entende, depende de condições degradantes de alojamento, alimentação, pagamento e, até agora, não existe nenhuma evidência de que isso esteja acontecendo.
Minha questão, portanto, é: 58 nações, mais o governo da República Federativa do Brasil, mais a organização de saúde internacional mais antiga do mundo (fundada em 1902) iriam promover o trabalho escravo no Brasil e no mundo, senhor José Maria?
José Maria Pontes – Estranho, né? Mas é verdade.
Blog da Cidadania – Estranho, não: fantástico.
José Maria Pontes – Quando você diz que a pessoa vai trabalhar, ela tem direito a salário. Eles [os médicos cubanos] vão receber uma bolsa. Não vão ter 13º salário, não vão ter direito trabalhista nenhum, porque é bolsa, né…
Quando você limita para que ele [o médico cubano] não possa sair de determinada área… Foi assim que aconteceu com os médicos cubanos na Bolívia e na Venezuela. Há depoimentos. E eles também não podem trazer a família deles.
Eu vi a entrevista de uma médica da Espanha, ela pode trazer a família dela. Eles [os médicos cubanos] não podem.
Quer dizer, quem está dando as ordens não é o governo brasileiro, é o governo cubano.
E essa coisa da OPAS foi só uma coisa… Uma bijuteria, foi só pra enfeitar, para dizer que foi uma coisa oficial, tal…
Blog da Cidadania – Ora, mas não é “para dizer que foi uma coisa oficial”. O acordo foi feito entre o governo brasileiro, o cubano e a OPAS. Não é uma “bijuteria”, é um acordo formal. Inclusive, o portal UOL publicou esse acordo, um tipo de acordo que é feito com a entidade por dezenas e dezenas de nações do mundo inteiro e o regime legal pelo qual esses médicos trabalharão no Brasil, até o momento, recebeu todo o aval da Justiça.
Então eu lhe pergunto: se a Justiça e o Ministério Público não encontrarem qualquer irregularidade nesse acordo, como é que fica uma manifestação e um discurso que GARANTEM a todos que está sendo implantando o trabalho escravo na medicina brasileira?
Ficaríamos assim: o governo brasileiro, a Justiça brasileira, o Ministério Público brasileiro, a OPAS e mais 58 nações estariam envolvidos com exploração de trabalho escravo, senhor José Maria? Isso não lhe parece uma sandice?
José Maria Pontes – É porque, até agora, ninguém teve acesso ao acordo do Brasil com a OPAS e o governo cubano. E estamos pedindo ao Ministério Público do Trabalho para que analise esse contrato, né, para ver se não existe trabalho escravo…
Blog da Cidadania – Sim, mas querer saber...
José Maria Pontes – Deixa eu falar, senão você fala, fala e não vai entender…
Blog da Cidadania – Ok, senhor José Maria. Pode falar, então.
José Maria Pontes – O que estou querendo dizer é que nós não temos nada contra os médicos. Foi uma manifestação contrária ao representante do ministério da Saúde. Eles [o governo Dilma] utilizou aquilo ali politicamente, para tirar proveito porque eles são poderosos, eles têm dinheiro, eles têm o poder da máquina estatal, mas não somos contra a vinda de médicos cubanos.
Não saiu em imprensa nenhuma, mas nós colocamos, várias vezes, que os médicos cubanos são bem vindos ao Brasil, mas queremos que eles tenham todas os direitos trabalhistas e tenham liberdade de ir vir. Mas ao governo não interessa, né, divulgar essas coisas.
Blog da Cidadania – Ok, senhor José Maria, mas a forma dessa manifestação não me parece correta. Eu lhe pergunto uma coisa: se o senhor fosse um daqueles estrangeiros e, chegando ao Brasil, encontrasse uma turba gritando, chamando-o de escravo, o senhor se sentiria bem vindo?
José Maria Pontes – Veja bem, quando se colocou essa questão não foi com a conotação que querem dar. Dissemos escravos foi no sentido inclusive de defender os interesses deles…
Blog da Cidadania – Espere aí: então a manifestação que foi feita com vaias e chamando-os de escravos foi para defendê-los?! De quem, deles mesmos? Porque, até onde se sabe, eles estão de acordo com tudo.
José Maria Pontes – Não, não foi a questão de defendê-los, foi para defender as condições de trabalho deles…
Blog da Cidadania – Mas o senhor não acha que a opinião deles também conta? Essas pessoas estão fora do país delas e, se estivessem sendo submetidas a trabalho escravo, poderiam muito bem, estando em território estrangeiro, denunciar e pedir asilo político dizendo ao governo brasileiro “Olha, estou sendo escravizado, me dê asilo”…
Eu digo isso, senhor José Maria, porque nunca vi um escravo que gostasse de ser escravo.
Aliás, muito pelo contrário, os médicos cubanos têm dado declarações no sentido de que estão muito satisfeitos por estarem aqui, de que não visam somente dinheiro porque o Estado cubano lhes deu a formação que têm, deu assistência médica, educação, moradia, alimentação a eles e às suas famílias. Então, trata-se de uma realidade diferente da nossa.
A questão que surge, portanto, é sobre como pode o sindicato do senhor querer defender os médicos contra a própria vontade deles.
José Maria Pontes – É, mas, veja bem, não é defender os médicos, é a questão do trabalho escravo independentemente da vontade de quem está sendo submetido a trabalho escravo.
Cuba é um país extremamente pobre. Ora, pra você formar um médico é difícil e Cuba exporta milhares de médicos para Venezuela, para a Bolívia… No Brasil, no segundo país que mais forma médicos, você não tem condição de formar tantos médicos para exportar.
Blog da Cidadania – Mas acontece, senhor José Maria, que, em Cuba, o ensino é gratuito. É difícil formar médicos no Brasil porque as faculdades privadas custam uma fortuna e para entrar nas públicas tem que estudar em escolas caras, cursinhos caros e poucos têm condições.
José Maria Pontes – É que precisa uma escola equipada, com bons profissionais…
Blog da Cidadania – E o senhor acha que não tem isso em Cuba? Porque seus indicadores de saúde são muito superiores aos nossos. Expectativa de vida, mortalidade infantil… Aliás, a mortalidade infantil em Cuba é menor do que a dos Estados Unidos.
José Maria Pontes – Veja bem, eeehh… Em Cuba você não tem a violência que tem no Brasil e o trabalho que eles fazem, que todo mundo comenta, é que esses profissionais não são médicos, eles são formados num nível intermediário para trabalhar no interior…
Blog da Cidadania – Ah, o senhor me desculpe, mas os currículos desses médicos foi divulgado. A maioria é versada em mais de uma especialidade. Todos têm mais de uma década de experiência na profissão. Como não são médicos?
José Maria Pontes – Não, não, eles não são médicos de verdade, eles são formados em atenção básica…
Blog da Cidadania – Qual é a fonte da sua informação, porque diverge do que vem divulgando o Ministério da Saúde.
José Maria Pontes – Não, não, eles são só médicos de atenção básica…
Blog da Cidadania – Então agora são médicos? E apesar de seus currículos dizerem que não são formados só em atenção básica… Até porque, mesmo o maior especialista de Cuba é formado, também, em atenção básica, ou em saúde da família. É a lei de lá.
José Maria Pontes – Olha, eu vou ter que viajar. Meu avião está saindo.
Blog da Cidadania – Ok, senhor José Maria Pontes.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Nossos vizinhos: Lavras da Mangabeira



O município de Lavras da Mangabeira ganhará neste dia 30 de Agosto, sua primeira TV WEB.

A LAVRAS TV WEB, irá ao AO pela primeira vez neste dia 30 de Agosto e já estreia com transmissão AO VIVO do Jubileu de 200 anos da instalação da Paróquia de São Vicente Ferrer.

Os devotos que vivenciam momentos de missões, orações e de liturgia e que certamente estarão presentes ao evento, já levaram ao conhecimento dos seus parentes e amigos que estão distantes e que não poderão estar presentes, a boa nova.

A LAVRAS TV WEB, uma parceria dos Radialistas Valluz Nunes e Paulo Sergio de Carvalho, contará também para essa transmissão com parceiros visto que o fluxo de mídia no momento da transmissão será muito grande, dado a grande quantidade de internautas conectados.

A LAVRAS TV WEB, está fechando parceria com o Empresário Orlando Leite para que a SAT NET possa fornecer um sinal fechado de Internet com velocidade suficiente para que a transmissão ocorra dentro dos padrões.

A partir das 18 horas do dia 30, a LAVRAS TV WEB ja estará AO VIVO, transmitindo direto do patamar da Igreja Matriz de São Vicente Ferrer e a partir das 18h30min, celebração de missa solene ao Jubileu, que será presidida pelo bispo da Diocese do Crato, Dom Fernando Panico. A liturgia será concelebrada com a participação de padres e religiosos de vários municípios da região.

Nesses 200 anos de missão e evangelização da Paróquia de São Vicente Ferrer, Lavras da Mangabeira estará ganhando sua TV WEB.

"O Paulo Sérgio me convidou para que pudéssemos montar esse empreendimento na área da comunicação em Lavras, e eu topei na hora, e decidimos que inaugurarmos a nossa LAVRAS TV WEB no momento do Jubileu, seria uma forma de também estarmos engajado nesse momento. Estamos muito felizes com esse momento e esperamos fazer um bom trabalho", disse o Radialista Valluz Nunes.



Valluz falou ainda do empreendimento (LAVRAS TV WEB)..."é uma ferramenta criada que nos permite a transmissão de sinais televisivos pela internet podendo ser sob a forma de Vídeo sob demanda ou Streaming em tempo real. Mas para que possamos estar no ar, vamos necessitar de apoio, e isso ficará a cargo do Paulo Sérgio que buscará entre os empresários e comerciantes locais e até de fora, firmar essas parcerias”, finalizou Valluz.

Qualquer pessoa poderá assistir ao vivo o jubileu, para tanto terá que acessar o seguinte endereço eletrônico:
http://lavrastv.blogspot.com.br/

Até o dia 29 de Agosto, a LAVRAS TV WEB estará em fase de ajustes, entrando em funcionamento com sua inauguração no dia 30 de Agosto.

Fonte: Blog do Paulo Sérgio de Carvalho

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A inveja dos outros

(Contardo Caligaris)

Anos atrás, decidi que, salvo necessidade absoluta, em voo internacional, eu não viajaria mais de  classe econômica. Quando não posso pagar pela executiva, é simples: não viajo.
A passagem de executiva dá direito ao uso de uma sala de espera confortável, que no Brasil é chamada de sala VIP (sigla de "very important person", pessoa muito importante). Há um quê de idiota na ideia de que alguém se torne importante por pagar uma passagem mais cara que os outros.
Mas o que me interessa agora é o fato de que os passageiros de classe executiva, confortavelmente instalados na sala VIP, poderiam esperar até o fim do embarque da classe econômica; aí eles iriam ao portão já esvaziado e subiriam no avião.
Não é o que acontece. Convidados a embarcar antes dos outros, eles entram no avião sob o olhar dos passageiros de classe econômica e ocupam seus assentos espaçosos, situados na parte da frente da aeronave, de forma que os passageiros de econômica, a caminho de suas poltronas-suplício, são obrigados a contemplar o privilégio dos que já estão instalados na executiva.
Por que essa irracionalidade? É que o passageiro de executiva não compra apenas um tratamento mais humano e um espaço compatível com as formas médias de um corpo: ele compra também a experiência (desejável, aparentemente) de ser objeto da inveja dos outros.
Numa recente viagem à Europa, eu já estava instalado na executiva, tomando suco e lendo um livro quando uma senhora chinesa, a caminho de seu lugar na econômica, passou do meu lado e espirrou molhada e barulhentamente em cima da minha cabeça. Por sorte, não era época de gripe aviária. Mas é isto: a inveja é uma mistura de idealização, amor e ódio.
Circulando de madrugada, passo pela entrada de uma balada. Há uma longa fila de espera, há seguranças imponentes e há uma "hostess" que escolhe quem pode entrar. Em Nova York, entram até desconhecidos, se forem bizarros, interessantes e decorativos. Em São Paulo, parece que a lista de clientes VIPs é soberana. Os outros esperam noite adentro, tentando ganhar a simpatia da "hostess". Vale a pena? O que acontecerá se eles forem admitidos? Pois é, será uma noite sensacional: eles tirarão fotos que postarão no Facebook e no Instagram.
Em geral, com as fotos, eles esperam receber a mesma inveja que eles destinam aos VIPs: por isso, exibirão poses parecidas com o que eles imaginam que os VIPs (os que entraram na balada há tempos) fazem quando se divertem (loucamente).
E o que fazem os VIPs? Pois é, essa é a parte mais estranha: os VIPs imitam as poses dos que os invejam e imitam, pois, eles constatam, essas são as poses que mais suscitam inveja.
De fato, na balada, muitos, VIPs e mortais comuns, apenas esperam a ressaca de amanhã. Mas, no círculo vicioso da inveja, a experiência efetiva é irrelevante; não é com tal ou tal outra vida e história concretas que se sonha: sonha-se ser o que os outros sonham.
A inveja é, por assim dizer, uma emoção abstrata: o privilégio não precisa dar acesso a uma fruição especial da vida (sensual ou espiritual, tanto faz), ele só precisa suscitar inveja. Ou seja, privilégio não é o que faço ou o que acontece de extraordinário em minha vida, mas o olhar invejoso dos outros.
Nesse mundo, em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas porque elas comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é "ser feliz", mas parecer invejavelmente feliz.
Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso.
O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar.
Comecei a escrever essa coluna depois de assistir a "Bling Ring: A Gangue de Hollywood", de Sofia Coppola (uma tradução por "Bling Ring" seria "A Turma do Deslumbre"). A não ser que outro tema se imponha com força, voltarei a falar sobre o filme. Mas digo já: saí do cinema muito feliz por não ter levado nenhum adolescente comigo (respeitando a indicação para acima de 16 anos).

A lista tocante que Fitzgerald fez para sua filha

Fitzgerald e Scottie
 Scott Fitzgerald é um dos maiores escritores americanos, inventor e cronista da chamada Geração Perdida – os jovens artistas que, nos anos 20, foram a Paris para escrever, pintar, esculpir e, sobretudo, viver intensamente. O Grande Gatsby e Suave é a Noite são os retrato acabado dessa época, a Era do Jazz, romances semiautobiográficos em que Fitzgerald contava suas aventuras com a mulher Zelda e os amigos.
Scott era também um alcoólatra e Zelda sofria de esquizofrenia. Ele morreu em 1940, aos 44, de ataque cardíaco causado pelas doses cavalares de gim, e ela num incêndio no sanatório em que estava internada, em 1948. Os dois tiveram uma única filha, Frances Scott Fitzgerald, apelidada Scottie. Quando ela nasceu, a mãe disse que esperava que fosse uma “linda pequena idiota” — frase que Daisy Buchanan, a heroína de Gatsby, diz sobre sua própria filha.
Scottie tornou-se uma jornalista bem sucedida e uma militante ativa do Partido Democrata. Tinha memórias afetuosas dos pais, apesar das festas insanas constantes. Numa carta de 1933, enviada a Scottie quando ela contava 11 anos, seu pai escreveu uma lista das coisas com as quais ela devia e não devia se preocupar. Meses antes, Zelda havia sido internada pela enésima vez.
É uma lista tocante, simples e rica, com a simplicidade do gênio — e sempre útil para nós, pais e filhos.
Coisas com as quais se preocupar:
Preocupe-se com coragem
Preocupe-se com limpeza
Preocupe-se com eficiência
Preocupe-se com equitação
Preocupe-se com …
Coisas com quais não se preocupar:
Não se preocupe com a opinião alheia
Não se preocupe com bonecas
Não se preocupe com o passado
Não se preocupe com o futuro
Não se preocupe em crescer
Não se preocupe com quem fica à sua frente
Não se preocupe com triunfo
Não se preocupe com o fracasso, a menos que ele aconteça por sua própria culpa
Não se preocupe com mosquitos
Não se preocupe com moscas
Não se preocupe com insetos em geral
Não se preocupe com os pais
Não se preocupe com os meninos
Não se preocupe com decepções
Não se preocupe com prazeres
Não se preocupe com satisfações
Coisas para pensar:
Qual é realmente o meu objetivo?
Quão boa eu sou em comparação aos meus contemporâneos com relação a:
(a) Escolaridade
(b) Eu realmente entendo as pessoas e sou capaz de me relacionar com elas?
(c) Estou tentando transformar meu corpo num instrumento útil ou estou negligenciando isso?
 
 Fonte:http://www.diariodocentrodomundo.com.br/de-pai-para-filha-nao-se-preocupe-em-crescer-2/

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Controlador mas pouco



(Joana Nave)

De que adianta querer controlar o mundo se tão pouco conseguimos controlar os nossos próprios impulsos?
Controlar é uma condição inerente a qualquer ser humano. Somos, em doses variáveis, controladores, manipuladores e obsessivos, mas gostamos de tingir estas características menos positivas com uma lata cheia de obstinação, a que invariavelmente apelidamos de personalidade forte.
Desde pequeninos que nos ensinam que temos de ocupar o nosso lugar no mundo, como se este fosse demasiado pequeno para o tamanho dos nossos desejos e ambições. Os valores fundamentais como a partilha, a solidariedade e a compreensão são sinais de fraqueza que só mais tarde, em idade adulta, nos entram pela porta adentro mascarados de homens de boa-vontade que lutam pelo seu semelhante. É mais uma moda que uma crença.
O controlo é apenas uma consequência da vivência mesquinha a que somos instigados desde a infância. Controlar o que se come para ter um corpo esbelto, controlar o que se veste para ter uma aparência decente, controlar o que se diz para ser considerado uma pessoa culta, controlar o que se faz para ser tido como uma pessoa educada. Pouco se tem dito sobre controlar a desonestidade, a falta de civismo, a mesquinhez, e até a avareza, porque o que se controla está à superfície e não na profundidade dos nossos sentimentos.
Tenho pensado algumas vezes que gostava de controlar o tempo para poder assimilar com maior clareza as consequências dos meus actos, mas o impulso é incontrolável e só o trabalho diário, perseverante e consistente consegue alinhar dentro de cada um de nós o que racionalmente sabemos que nos faz bem. Controlar tudo e todos os que nos rodeiam é um trabalho inglório, que nos desgasta e deprime, porque só quando conseguimos entender o que estamos a sentir somos capazes de aceitar e libertar as amarras que nos oprimem e limitam a nossa felicidade plena.
Fonte: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/

O analfabeto midiático




Por Celso Vicenzi

“O pior analfabeto é o analfabeto midiático.” (Com a “ajuda” de Bertolt Brecht)

Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.

Corrupto e corruptor

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens.

Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos.

Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.”

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia.

Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed760_o_analfabeto_midiatico